• Home  
  • O discernimento conduz à liberdade
- Espiritualidade

O discernimento conduz à liberdade

P. Jorge Germano

Padre Jorge Germano - ESPIRITUALIDADE

Vivemos num tempo, e fazemos parte de uma humanidade, onde a mentira se confunde com a verdade, onde os valores retos se confundem com os valores incorretos, onde o bem se confunde com o mal, onde a liberdade cristã se confunde com o desnecessário e o acessório. A manipulação das palavras, ajudam-nos a obter e a defender as nossas perspetivas e interesses. Os que pensam e atuam de acordo com princípios e valores cristãos, aceites moral e universalmente, os que se despojam de pseudo paixões e discernem livremente as suas decisões na procura da verdade, pessoal e comunitária, são, atualmente, cada vez menos e cada vez mais remetidos ao silêncio.

É preciso recuperar e vivermos um contínuo discernimento espiritual. Este, discernimento espiritual, é um instrumento que todos precisamos de saber usar ao longo da nossa vida, ao longo do nosso caminho. Santo Inácio apresenta o discernimento como um processo cuja finalidade é escolher, em oração, entre várias possibilidades boas a que melhor nos conduz ao serviço e ao louvor de Nosso Senhor Jesus Cristo. É importante tomar consciência de que o discernimento espiritual é contínuo… não é algo pontual ou para de vez em quando. Todos os dias fazemos caminho e, todos os dias precisamos de saber rezar esse caminho examinando comportamentos e decisões, respeitando a liberdade e as escolhas dos outros, mantendo uma relação estável e confiante com todos e connosco.

A este propósito, podemos recordar a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, nº 17: “é só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis «deixar o homem entregue à sua própria decisão», para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. Exige, portanto, a dignidade do homem que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa.

O homem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes. A liberdade do homem, ferida pelo pecado, só com a ajuda da graça divina pode tornar plenamente efetiva esta orientação para Deus. E cada um deve dar conta da própria vida perante o tribunal de Deus, segundo o bem ou o mal que tiver praticado”.

Este caminho de conversão, livre e consciente, pode levar-nos a examinar a nossa vida, tomando consciência de muitos impulsos que no imediato se tornam em decisões. Como na Parábola do Filho Pródigo: “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.’ E o pai repartiu os bens entre os dois”. (Lc 15, 11-12) Este jovem, independentemente dos costumes e do sentido familiar, pede ao pai a sua parte da herança, fazendo uso do seu livre-arbítrio. O pai, apesar de podermos fazer muitas suposições, acede dar-lhe essa liberdade, sem questionar, demonstrando um amor maior do que a dor de o ver partir. No seu silêncio, enquanto pai, sempre esperou o regresso do seu filho.

O discernimento, consciente e verdadeiro, requer deste filho, de cada um de nós, uma nova aprendizagem nos comportamentos e decisões. Não nos esqueçamos que somos livres. No entanto, na vivência e no exercício desta liberdade podemo-nos converter ao bem.

2026 © Correio de Coimbra  |  Desenvolvido por fredericomartins.pt