- Para nos pensarmos

Estar ca’Paz: Ser Capaz!

SER PONTE
– Nuno Castela Canilho

Nuno Canilho - SER PONTE - Para nos pensarmos

Quando o Ressuscitado atravessa as portas fechadas do medo, não traz o eco da vingança nem o peso da ira. Traz um sopro. Traz uma Palavra que é semente e é envio: “A Paz esteja convosco!” (Jo 20,19.21). Não há clamor de guerra nos lábios d’Aquele que venceu a morte; há silêncio fecundo, há presença que reconcilia. Como outrora anunciara o profeta: “o fruto da justiça será a paz” (Is 32,17).

E assim, desde essa primeira tarde pascal, esta saudação percorre os séculos como um rio discreto que nunca seca. Não é fórmula gasta, nem gesto protocolar. É Palavra viva — shalom que abraça tudo: o coração, a cidade, a história. Como ensina Santo Agostinho, a paz é “a tranquilidade da ordem” — não uma ordem imposta, mas aquela que nasce quando cada coisa encontra o seu lugar em Deus.

A Paz de Cristo não é o simples silêncio das armas. Não é a pausa frágil entre dois conflitos. É, antes, uma harmonia interior que brota da reconciliação: do homem consigo, com o outro, com o Mistério. “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27). É uma forma de ser, um modo de habitar o tempo — ser em paz, estar para a paz, caminhar como quem semeia eternidade no instante.

Na luz da Domingo da Divina Misericórdia, quando a Igreja contemplava o Coração aberto de Cristo (cf. Jo 20,27), ressoou com mais força esta verdade: a paz não se decreta — recebe-se, acolhe-se, constrói-se. E, no entanto, o mundo tantas vezes escuta sem compreender. Vozes que se erguem em nome do poder não alcançam a simplicidade desarmante do Evangelho. Esquecem que Ele é o “Príncipe da Paz” (Is 9,6), cujo trono é a cruz e cuja autoridade se revela no dom de si.

A tradição da Igreja insiste: não há paz sem verdade, nem paz sem justiça. Como recorda São Tomás de Aquino, a paz é fruto da caridade — e a caridade exige ordem, exige o bem do outro, exige responsabilidade. Não é complacência, nem indiferença. É exigente como o amor que a sustenta.

Por isso, a paz cristã não elimina o conflito — transfigura-o. Não apaga a diferença — ilumina-a. Não silencia a tensão — redime-a. Onde o mundo vê oposição, o Evangelho semeia comunhão. Onde há fragmentação, Cristo reúne. “Ele é a nossa paz: de dois povos fez um só” (Ef 2,14).

E quando diz “A Paz esteja convosco”, Cristo não apenas consola — envia. “Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio” (Jo 20,21). Não há refúgio neutro para quem escutou esta Palavra. Cada gesto torna-se escolha, cada palavra constrói ou destrói. Num tempo em que a verdade se dilui e o ruído se impõe, a paz torna-se vocação — e combate interior.

Politicamente — no sentido mais alto da polis humana — esta saudação é uma exigência quase insuportável: coerência. Não se pode invocar a paz enquanto se cultiva a divisão. Não se pode proclamar liberdade ignorando a dignidade. A paz de Cristo inquieta, desloca, desinstala. Obriga a escutar o outro, sobretudo o diferente, sobretudo o frágil. É uma paz que fere o comodismo — porque não tolera a indiferença.

Também na pedagogia do quotidiano — como no escutismo — esta paz ganha corpo: na palavra dada, no serviço escondido, no cuidado com a criação. Pequenos gestos que são, afinal, sacramentos discretos de uma paz maior. Como escreveu São Francisco de Assis: “Senhor, fazei de mim instrumento da vossa paz” — oração que é caminho, não apenas desejo.

“A Paz esteja convosco” é, por isso, mais do que saudação: é programa de vida, é horizonte, é missão. Num mundo de vozes altas e corações fechados, talvez esta seja a palavra mais subversiva: que a verdadeira autoridade não se impõe pela força, mas se reconhece na capacidade de gerar encontro.

E assim, ainda hoje, Cristo atravessa as portas fechadas da nossa história — e repete, com infinita paciência: A Paz esteja convosco.

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