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Necessidades especiais?! Somos TODOS

CDJP – Madalena Abreu

Madalena Abreu - CDJP

Tive o privilégio de acompanhar de perto amigas que estão a dar os primeiros passos num novo projeto de apoio e desenvolvimento de pessoas com necessidades especiais.

E, à medida que fui percebendo a profundidade da sua preparação, tornou-se claro que este projeto pretende algo maior: mudar o paradigma da ação nesta área.

Mas porquê? Porque este projeto propõe algo verdadeiramente transformador: convidar as próprias pessoas com necessidades especiais, sejam elas pessoas com dificuldades cognitivas, com perturbações de saúde mental ou com perturbações do espetro do autismo, a tornarem-se protagonistas da sua vida profissional.

Naturalmente que este caminho só pode ser percorrido com sentido e com possibilidade de êxito se estas pessoas forem previamente acompanhadas, formadas nas competências necessárias e apoiadas de forma específica e contínua nos seus contextos de trabalho. Não se trata de abandono nem de ingenuidade, mas de capacitação com responsabilidade e cuidado.

Quando comecei a ver este programa corajoso a ganhar forma, confesso que fiquei profundamente entusiasmada. Percebi o quão disruptivo ele era. Percebi também que muitos de nós, mesmo aqueles que trabalham há anos em associações extraordinárias, com provas dadas e impacto real, reagiram com ceticismo. Confrontados que fomos com o que se pretendia, rapidamente surgiu a ideia de que este projeto seria quase inviável, porque estas pessoas, tantas vezes rotuladas pelas suas limitações, não conseguiriam tomar a dianteira dos seus próprios destinos.

Senti uma espécie de estremecimento e foi então que me dei conta de que estava a olhar para episódios do Evangelho de forma diferente. Veio-me à memória o episódio de Jesus a curar o paralítico na piscina de Betzatá (João 5:1–15), quando lhe pergunta: «Queres ficar são?» O homem responde que não tinha ninguém que o ajudasse a entrar na água quando ela se agitava. Jesus responde-lhe então: «Levanta-te, toma a tua enxerga e anda.» E lembrei-me também da cena em que carregam um paralítico até ao telhado, fazem uma abertura nas telhas e o descem diante de Jesus (Lucas 5:17–26). E Jesus diz-lhe: «Eu te digo: levanta-te, toma o teu catre e vai para tua casa.»

Poderíamos continuar com muitos outros episódios das curas e com inúmeras interpretações possíveis das Escrituras. Mas o que me tocou profundamente foi esta intuição: Jesus também nos lembra que todos somos, de algum modo, autores das nossas curas. Todos temos algo a ensinar, algo a dizer, algo a oferecer como instrumento de cura.

Podemos questionar-nos aqui e agora, e a propósito destas pessoas com necessidades especiais… O que têm a dizer-nos? O que temos nós ainda de aprender com elas?

Claro que esta mensagem não exclui o cuidado, bem pelo contrário. Diz-nos que todos precisamos de ser cuidados e que todos somos chamados a cuidar uns dos outros. E quem somos nós para nos julgarmos suficientes, autónomos ao ponto de acharmos que não precisamos dos outros? Quem?

Temos de aprender com todos. E chegou o momento de aprender, de forma consciente e humilde, com grupos que durante demasiado tempo foram deixados fora desta verdade, fora desta equação no processo do desenvolvimento das pessoas com necessidades especiais.

Chegou o tempo de colocar na linha da frente aqueles que vivem com diferentes limitações, com outras formas de vulnerabilidade, e que necessitam de cuidados adicionais: não para serem substituídos, mas para serem reconhecidos, escutados e capacitados.

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