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“Quem não para uma vez por dia, para um dia de vez”

Em entrevista com o professor universitário Miguel Panão, olhamos a “engrenagem” da vida e a gestão de tempo entre o trabalho, família e lazer.

“Em que é que queremos apostar a nossa experiência de tempo de vida?”

No âmbito do Dia do Trabalhador, o Correio de Coimbra conversou com Miguel Panão, Professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Mais do que falar de máquinas, olhamos a “engrenagem” da vida, a gestão do tempo para o trabalho, família e lazer.

O Miguel é professor universitário na área da Engenharia Mecânica. No âmbito do Dia do Trabalhador, como é que olha para a nossa relação atual com o trabalho?

É curioso olhar para a origem da palavra trabalho. Ela vem de tripalium, que era um instrumento de tortura, de três paus. Para algumas pessoas, o trabalho ainda é sentido assim. Mas o trabalho é algo que nos reinventa. Hoje, vemos empresas a tentar reduzir o horário de trabalho porque descobriram que as pessoas produzem mais quando têm uma vida equilibrada. O trabalho deve ser uma faceta da vida, mas não a sua totalidade.

Mas hoje vemos muitos jovens a entrar no mundo do trabalho focados apenas no retorno financeiro para “comprar” experiências. Isso é uma realidade?

O dinheiro é uma motivação muito pobre para escolher uma profissão. É algo que não está sob o nosso controlo; depende de sorte, oportunidade e circunstâncias. Hoje, através das redes sociais, as pessoas aspiram a sonhos que viram nos outros e acham que precisam de dinheiro para os realizar. Mas o que elas precisam, na verdade, não é de dinheiro, é de tempo de vida. Gastamos tempo de vida para arranjar dinheiro para fazer coisas. No fundamental, a questão é: em que é que queremos apostar a nossa experiência de tempo de vida?

O dinheiro é uma motivação muito pobre para escolher uma profissão. O que precisamos, na verdade, é de tempo de vida.

Miguel Panão

Aliás, muitas vezes nas palestras que faço sobre gestão de tempo, eu digo que não é só gerir, pode ser gerar tempo.  As pessoas ficam um bocado esquisitos, o que é que isso quer dizer? Porque a única versão, ou versão mais palpável que temos de tempo é que passa, não é? O do relógio, dos minutos, etc.

É aquilo que eu chamo tempo 2.0.  Ou seja, em termos de versões de software da experiência de tempo.

A experiência que tenho de tempo é que o tempo não existe.  O tempo é uma construção humana, nós criamos esta ideia, ou esta percepção de uma coisa que depois chamamos tempo, a partir daquilo que é a nossa experiência pessoal interior, mas depois da relação do interior com o exterior.

O Miguel disse que o “tempo é uma construção humana”. O que quer dizer com isso?

O tempo é uma perceção que nasce da nossa relação interior com o exterior. Os gregos explicavam isto através de três “irmãos”: o Cronos (o tempo sequencial do relógio), o Kairós (o tempo certo e oportuno) e o Íon (o tempo epocal, onde inserimos a nossa história numa história maior). Aristóteles dizia que o tempo é uma medida da mudança. Eu inverto isso: a mudança é uma medida de tempo. Se eu mudar e me transformar, eu gero mais tempo. Por isso, mais do que gerir tempo, devemos aprender a gerar tempo.

Vivemos numa sociedade que parece estar sempre em aceleração. Qual é o perigo de vivermos sempre “em alta velocidade”?

Quando estamos acelerados estamos muito focados e a condução da vida torna-se perigosa. Mas, ao estarmos focados apenas no que está à frente, não vemos nada do que se passa à volta. Quando desaceleramos, começamos a contemplar a paisagem e descobrimos coisas interessantes que, de outra forma, perdíamos. A aceleração rouba-nos a presença, tanto para com os outros como para com o que está dentro de nós.

E como é que se combate esta aceleração no dia a dia, especialmente nas rotinas de uma família, por exemplo?

Em minha casa, a estratégia passou por envolver mais os filhos nas tarefas e fazer as coisas juntos. Isso reduz a velocidade de cada um. É preciso estar atento. À mesa, por exemplo, se um filho tem mais dificuldade em falar, eu paro e olho propositadamente para ele para que sinta que o estou a escutar profundamente. É partilhar a carga para que a velocidade abrande.

O dia de domingo tem perdido o seu valor de descanso e dia de fé na nossa sociedade. Como é que podemos recuperar este dia?

Faz sentido lutar pelo domingo como dia de descanso, mas isso exige que cada um altere a sua perspetiva. Se eu quero ir ao supermercado ao domingo, alguém tem de lá estar alguém a trabalhar. Por outro lado, vejamos o domingo como o “pulsar do coração”, imaginemos um drone a filmar a Igreja: pessoas a entrar para ir à fonte e a sair para levar aos outros o que receberam.

Qual é o lugar de Deus nessa rotina de descanso e lazer?

Deus não está só dentro do sacrário ou dentro do edifício… Deus está no outro, está em mim. Uma caminhada em família ou um momento de relaxamento é uma experiência de Deus. Aproxima-nos de Deus de uma forma concreta e evidente, no sentido canónico do termo, porque se estiver a rezar assim estás próximo de Deus, se estiver a ler um texto espiritual, assim estás próximo de Deus.. Sim, mas se estiver próximo daqueles que estão à minha volta, pode ser a família mas também pode ser a pessoa do supermercado, ou seja, aquela que no domingo está a trabalhar e que me vende a fruta. Não posso fazer uma experiência de Deus com ela? Eu digo que posso e devo! 

No meio desta sociedade em que as pessoas têm que trabalhar ao domingo para suprir as necessidades de outras e as próprias, porque muitos deles ganham mais porque estão a trabalhar ao domingo,  como é que nós podemos trazer o domingo para isso? Eu diria com um bom sorriso, mais paciência para com quem está a trabalhar cansado. Isso é levar Deus para o exterior.

Precisamos de desacelerar para diminuir o ruído e escutar o que Deus tem para nos dizer.

Miguel Panão

Para terminar, que mensagem deixa a quem sente que a vida é uma máquina que não para de acelerar?

Eu uso muito uma frase: “Quem não para uma vez por dia, para um dia de vez”. É essencial parar com propósito, nem que seja para fechar os olhos ou olhar pela janela. Um mundo acelerado é um mundo ruidoso. No ruído, Deus fala e nós não escutamos. Precisamos de desacelerar para diminuir o ruído e escutar o que Deus tem para nos dizer.

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