Ao longo de todos os tempos, o sentimento de autossuficiência, de independência, vai despertando, em nós, na humanidade, um desejo por mais e melhores condições na vida e nas relações. Este sentimento, associado ao desejo que se desenvolve, equilibradamente, a nível emocional e espiritual, não é negativo. Ele vai despertar em nós, dentro de todas as possibilidades e circunstâncias a ânsia de continuar e aperfeiçoar. No entanto, o problema reside na falta de equilíbrio, emocional e espiritual, que tantas vezes tolda o nosso pensamento e o nosso coração.
O já e o ainda não da nossa vida, do nosso caminho, da nossa missão no mundo e nos, diversos, contextos de hoje leva-nos a uma tensão muito grande. Tudo é e queremos que seja, como logo de seguida tudo deixa de ser e, nada queremos que aconteça. Esta tensão cada vez maior, causa uma grande confusão no nosso sentir e pensar e, consequentemente, no nosso agir. Nesta confusão, o afastamento de tudo e de todos, inclusive de Deus, ofusca-nos e leva-nos a perder os verdadeiros motivos da unidade, da relação, da estabilidade, da própria identidade.
Neste propósito, “poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada”. (Lc 15, 13) Nós, somos, tantas vezes, como este filho mais novo…. Podemos não saber o porquê nem o para quê, mas, juntamos tudo e partimos, desperdiçando e promovendo uma vida desregrada, tantas vezes sem sentido e sem significados. Nós rompemos com a aliança de amor e deixamos de reconhecer que pela graça de Deus, recebemos dons. Deixamo-nos dominar e vencer por um falso sentimento de independência, que afeta, e manipula, o nosso equilíbrio emocional e espiritual.
Os nossos dons, dentro de todos os nossos contextos e circunstâncias, servem para quê? Os dons, sabemos pelo menos em teoria, servem para edificar o Corpo de Cristo (a Igreja), servir os irmãos, contribuir para a comunidade e propagar o Evangelho, e não para benefício pessoal. Os dons que recebemos não podem promover o nosso próprio egoísmo… O egoísmo, também sabemos, que é a atitude de quem manifesta um excessivo amor por si mesmo e que só se ocupa do que é para o seu próprio interesse ou benefício, sem querer atender às necessidades dos outros. Esta atitude é inconsciente naquele que a pratica, mas evidente naqueles que a vêem.
Somos, como este filho mais novo, muitas vezes egoístas… Como descreve Santo Inácio, podemos mudar constantemente de lugar, sem mudar a nossa conduta e maneira de ser. Enquanto a pessoa na sua imperfeição, não tomar consciência de si mesma e sair de si mesma, não viverá este equilíbrio emocional e espiritual. Nesta tensão viverá sempre submersa num nada espiritual, com um vazio existencial que vai dando lugar a um conjunto de sentimentos e decisões confusas, que revelam fragilidade quer na sua fé como na sua esperança.
Que dons recebemos? Como é que os nossos dons dão sentido às nossas relações e, orientam a missão de cada dia? Todos os dons são graça e o seu sentido último e profundo é serem colocados ao serviço, do outro e de todos. Neste caminho de oferecimento, Deus continua connosco, como sempre… E nós, continuamos junto de Deus?

