• Home  
  • «O escutismo é uma fonte de transformação»
- Grande Plano

«O escutismo é uma fonte de transformação»

A Região de Coimbra do Corpo Nacional de Escutas (CNE) está a celebrar 100 anos. Com 3.800 crianças e jovens distribuídos por 55 agrupamentos, a Região vive um momento de “maturidade” e reflexão, que quer envolver a diocese.

100 anos: «um marco enorme»

Nuno Castela Canilho, Chefe Regional CNE, abriu a sede para falar com o Correio de Coimbra. Em entrevista revela os detalhes das comemorações, abriu páginas de história e lançou o desafio de «transformar o mundo com o “cheiro” do serviço».

O que significa para a Região de Coimbra celebrar este centenário em 2026?

É um marco enorme. Às vezes temos a dúvida se estaremos à altura da efeméride, até que ponto é que nós estamos à altura de sermos nós a fazer esta memória, porque somos muito pequenos quando tomamos consciência da dimensão de 100 anos de escutismo. A consciência da dimensão é algo que também entendemos que é uma oportunidade pedagógica para as crianças e para os jovens, muito associada especialmente à identidade, à memória, ao legado, ao sentido de pertença

As origens do escutismo em Coimbra levam-nos aos arquivos deste jornal, o Correio de Coimbra. O que sabemos sobre esses primeiros passos, há 100 anos?

Sabemos que em junho e julho de 1926 passaram por aqui escuteiros de Braga que deixaram uma marca. O primeiro grupo, o 30 de São Tomás de Aquino, nasceu em dezembro desse ano, na Sé Velha. O grande protagonista foi o Padre Manuel Estrela Ferraz, um entusiasta que queremos redescobrir. Ele é o denominador comum de todos os grupos que começaram a aparecer na altura, incluindo em territórios que hoje pertencem à Diocese de Aveiro.

E depois temos em outubro, no dia 15 de outubro, uma deliberação da Junta Central a dizer que a Junta Regional de Coimbra estava criada. Depois, entretanto, mais tarde nos Olivais, passado um tempo, em Figueiró dos Vinhos, e depois em Santa Clara.

O centenário já iniciou e quais são os grandes momentos que se podem esperar do programa das comemorações?

Já começámos na Sé Velha, assinalando o início das comemorações e com o lançamento da imagem do centenário. Depois, o ponto alto será o Acampamento Regional (Jamboree das Beiras) em julho de 2026, em São Gião (Oliveira do Hospital). Vamos acampar na “Catedral das Beiras” com escuteiros de vários países, dado que a paróquia se insere no território da diocese da Guarda, estão convidados os dois bispos, de Coimbra e da Guarda, a estarem connosco. 

Este acampamento regional será o 15º acampamento regional que fazemos nos 100 anos e é sempre um grande momento da vida da nossa Associação, e especialmente da vida da nossa região, por uma razão simples, vai ser o do centenário, mas também há muito tempo que não se faz um acampamento regional na região de Coimbra, o último foi em 2018, por causa das circunstâncias, das pandemias e será uma ressurreição de um momento alto. O sítio mais feliz onde o escuteiro pode ser é na cidade de lona, no acampamento, e um acampamento com uma dimensão regional é de facto aquilo que queremos que seja um momento marcante, e já estamos a preparar isso.

O sítio mais feliz onde o escuteiro pode ser é na cidade de lona, no acampamento, e um acampamento com uma dimensão regional é de facto aquilo que queremos que seja um momento marcante.

Nuno Castela Canilho

A lógica do imaginário do acampamento estará muito associado à ideia da semente, o lema “C semente”. Na ideia de sermos uma semente especial, somos a semente Coimbra, somos a semente ‘C’, mas também este C que na oralidade se confunda a letra com o desafio de ser, C, eu quero que tu sejas, portanto C (sê).

Somos uma semente que dentro daquilo que é também a linguagem bíblica, umas vezes é atirada para um terreno fértil e cresce, outras vezes é mandada para o meio das pedras e os pássaros comem, portanto esta semente da variedade, mas que germinando pode se tornar uma árvore frondosa. Baden-Powell, fundador do escutismo, associou sempre a história do escutismo a esta ideia da semente e de um carvalho frondoso. Em vários escritos diz que o primeiro acampamento começou por ser uma semente e hoje somos um carvalho frondoso, ou seja, isto também nos remete para esta região que há 100 anos era uma semente e que hoje já é um carvalho frondoso.

Ainda em outubro, Coimbra vai acolher a base nacional do JOTA-JOTI (maior atividade mundial via rádio e internet), lá para o fim do ano (outubro, novembro) procuraremos ter um momento, tipo seminário, em que procuraremos encontrar e fazer um debate numa lógica mais de estudo e de reflexão sobre aqueles que são os grandes desafios da educação não formal e integral nos dias de hoje; depois terminaremos em março de 2027 com o lançamento de um livro sobre os 100 anos da Região, 

Para este centenário escolheram a imagem da rosa. Que simbolismo tem?

Fomos buscar a ideia de um hino antigo do CNE que diz que somos “da flor a fragrância”, que somos o cheiro que embeleza, que enche, que estimula. E nós queremos ser esse cheiro, queremos ser essa flor e essa fragância, como um desígnio. E depois a ideia da rosa associada à Rainha Santa Isabel e à transformação, que é também um elemento muito importante para nós, vai ser o mote daquilo que nós pretendemos que seja o próximo triénio, a ideia de um caminho de transformação.

E a rosa é também o objeto transformado, aquilo que a Rainha Santa transformou, o objeto que era pão e tornou-se flor, que ela criou, como de facto uma coisa com beleza, com impacto, com cheiro e queremos deixar esse lastro. Queremos ser esse cheiro que embeleza e estimula a sociedade. 

No passado dia 28 de março, foi o Dia da Região, e o lançamento desta ideia, desta marca identitária, assim um momento zero.

Queremos ser esse cheiro que embeleza e estimula a sociedade.

Nuno Castela Canilho

Voltando atrás… Falou também de um futuro seminário para debater os desafios da educação hoje. Quais são as preocupações na formação dos jovens?

Queremos reunir especialistas que nos possam dar uma ajuda sobre de que forma é que nós temos de olhar para as crianças e os jovens de hoje e perceber que necessidades, que características e como é que a gente se pode adaptar a essa realidade numa certeza: há coisas que precisamos de melhorar.

E perceber e claramente fugir daquela ideia, ‘no meu tempo é que era bom’, o mal não é deles, eles estão a viver o tempo deles, nós é que temos de nos adaptar e perceber.

Preocupa-me a resposta que damos no final da adolescência e no início da idade adulta. Muitos jovens saem do escutismo entre os 14 e os 18 anos e precisamos de perceber as razões. Se é, a resposta mais fácil, é que há outros estímulos, que há outras coisas e que hoje em dia os miúdos têm uma super oferta de muitas atividades, mas isso também não explica tudo. Nós precisamos perceber onde é que estamos a falhar, se é as atividades que fazemos, se é a abordagem que fazemos, o que é que está a falhar porque eles estão a desaparecer.

Depois há também uma outra coisa que é, nós trabalhamos muito a lógica dos jovens adultos ali nos 18 anos, os caminheiros dos 18 aos 22 anos, a ideia de criarem um projeto pessoal de vida, toda a lógica de oferta pedagógica está muito associada a isso, ao imaginário do homem novo, mas também ao homem que se prepara, à pessoa que se disponibiliza para o serviço. E a verdade é que há aqui um desfasamento entre aquilo que é a nossa oferta e aquilo que são as necessidades vitais dos miúdos com essa idade, porque hoje em dia, com o sistema educativo que temos, aos 18 anos os miúdos já fizeram as grandes decisões.

Nós não estamos a ajudar no momento certo, ou devíamos ter ajudado antes, ou então devíamos ajudar noutra coisa, porque estamos a procurar que se idealizem projetos pessoais de vida numa fase em que os jovens já escolheram cursos superiores… Nós temos de colocar todas as interrogações, não há “vacas sagradas”, todas as interrogações para procurar encontrar as minhas razões.

A lógica é essa, e esse momento vai ser o momento em que a gente vai procurar discutir um bocadinho, com outros olhares e que alguém de fora nos consiga dizer ou nos consiga dar uma outra perceção que nos pode ajudar.

De que maneira a diocese vai ficar marcada pelo centenário do CNE da região de Coimbra?

Pode-me fazer essa pergunta daqui a um ano… (risos) Eu gostava que o centenário ficasse marcadao como um momento de festa. E depois eu gostava muito que a diocese olhasse para o escutismo de uma forma cooperativa, não nos verem como um movimento de fora, mas verem-nos como parte.

E aí eu agradeço muito a possibilidade que o Correio de Coimbra nos dá de podermos ir conversando, através de textos mensais, no sentido de as pessoas perceberem um bocadinho melhor o que é que a gente faz e o que é que a gente tem.

CNE Região de Coimbra

E nós não somos mais, não somos melhores… Somos apenas um movimento que está muito bem organizado também graças à Igreja e às paróquias. Porque uma das grandes diferenças entre o escutismo católico e o escutismo não católico passa muito pela estrutura de apoio que nós temos.

E depois eu gostava muito que a diocese olhasse para o escutismo de uma forma cooperativa, não nos verem como um movimento de fora, mas verem-nos como parte.

Nuno Castela Canilho

As paróquias são uma estrutura de apoio absolutamente fundamental para nós, nos agrupamentos.

E portanto, nós estamos muito gratos e queremos muito, e somos, perante a Igreja, somos firmes, fiéis e disponíveis. Estamos cá, acataremos e somos a mesma Igreja em saída, disponíveis para meter as mãos à obra naquilo que a Igreja entender que é o caminho.

E aquilo que eu gostava era que pudéssemos viver este tempo na diocese como um tempo de oportunidade, como uma dimensão, um momento em que fomos um grupo, em que fomos unidos, em que fomos um só. Porque eu também acho, e já tive a oportunidade de dizer isso várias vezes ao nosso bispo, que é esta ideia da identidade. Não é fácil a gente encontrar aqui os pontos comuns que unem esta imensidão de território e portanto temos que os criar.  E aqui pode ser uma boa oportunidade para isso.

2026 © Correio de Coimbra  |  Desenvolvido por fredericomartins.pt