• Home  
  • “Entre o coração e o caminho”
- Para nos pensarmos

“Entre o coração e o caminho”

Ana Faria – SDEC

SDEC - Para nos pensarmos

“Não nos ardia…
O nosso coração?”

(Lc 24,32b)  

Ainda o 63º Encontro Nacional de Catequese

Organizado pelo Secretariado Nacional da Educação Cristã, o 63º Encontro Nacional de Catequese decorreu este ano, entre os dias 8 e 10 de Abril, na Casa Diocesana de Nossa Senhora do Socorro, em Albergaria-a-Velha, na Diocese de Aveiro, tendo como tema “A Mistagogia: Caminhar com Cristo, do encontro ao discipulado[1].

Na tarde do primeiro dia, falou-nos de Roma, o Pe José Miguel Cardoso, sobre o “Hiato entre o coração e o caminho – Redescobrir o sentido mistagógico da iniciação cristã”.

A conferência, via zoom, iniciou-se mostrando uma pintura de um jogo de xadrez, entre o Diabo e um jovem, com a assistência de um Anjo[2], fazendo notar como o Diabo vai ganhando espaço na vida do jovem; no entanto, o Anjo da Guarda está lá para velar por ele e “Deus ainda não terminou…”. Há ainda uma jogada… Há ainda uma esperança…

O Pe José Miguel chamou-nos a atenção para o Directório para a Catequese (DC 2020), que repensa a catequese à luz da Evangelii Gaudium (E.G.)[3], realçando mais os conteúdos de vida, colocando mais e melhor o coração no caminho; isto é, mostrou-nos a necessidade de articular a teoria à práxis, o conteúdo à vida e de pôr o coração ao caminho. Expôs, assim, a diferença entre uma Catequese querigmática, onde se transmitem conteúdos, e uma Catequese mistagógica, onde se transmite uma experiência, e onde, numa etapa inicial de maior aproximação, se conduz o Catequizando ao encontro do Mistério de Deus.

Também no Novo Itinerário Catequético[4], no 3º Tempo da Iniciação, “Catequese de aprofundamento mistagógico”, fica explícito que “o tempo da mistagogia é caracterizado por uma experiência cada vez mais profunda dos mistérios da fé e da inserção na vida da comunidade” (DC 55); para que isso se concretize, é necessário que o Catequizando celebre os mistérios da fé na liturgia, que  participe activamente na vida comunitária e na vida cristã em todas as suas dimensões, “professando a fé, anunciando a esperança e praticando a caridade”, procurando que o “jovem seja capaz de ler e entender a sua vida à luz da fé”. 

De seguida, o Pe José Miguel frisou as dificuldades em crer no tempo da pós-modernidade. Começando na Antiguidade, nos tempos até ao século V d.C, acreditava-se no Cosmocentrismo, em que o universo e a natureza eram o centro de toda a realidade e conhecimento; na época Medieval (séculos V-XV) imperava o Teocentrismo, sendo Deus o referencial do universo e da sua criação; na época Moderna, período entre o século XVI até meados do século XX, surge o Antropocentrismo, que coloca o homem como referência e medida de todas as coisas.

Na Pós-Modernidade dá-se um ajuste e a figura de Deus surge sob várias perspectivas: 1. Do “Deus pensado” (razão) ao “Deus sentido” (emoção), o que leva a uma religião self-service, “eu cá tenho a minha fé…”; 2. Redução da Fé (dogma) a moralismos, o que leva a comportamentos humanos apenas como cumprimento de regras, levando ao julgamento sistemático das acções do outro, bem como à exclusão e à incapacidade de acolhimento do diferente, do outro; 3. A experiência de Deus versus a demonstração da sua existência; 4. A separação entre religião e espiritualidade, que leva a uma espiritualidade limitada.

Estas formas de pensamento conduzem a novas formas de ateísmo: clássico, gnoseológico e transcendental, levando a quatro “mandamentos” existenciais do nosso tempo: 1. Não adorar a razão; 2. Não esperar o progresso; 3. Não viver para produzir; 4. Não perder tempo a pensar em Deus. A morte de Deus e o ateísmo já tinham sido profetizados por autores dos finais do século XIX, princípios do século XX, podendo ser reconhecidas 3 fases no ateísmo: 1. Deus não existe, por isso não interessa; 2. Deus não existe, porque não preciso dele para a minha vida; 3. Deus existe, posso acreditar, mas não muito.

O Pe José Miguel Cardoso destacou ainda alguns aspectos da nossa sociedade, caracterizada pela eficiência produtiva, pelo ritmo acelerado de vida, pelo homem centrado no homem, sem tempo para a contemplação, pensando apenas em produzir, levando, assim, à sociedade do cansaço. E questionou: como é que o crente de hoje se move nesta sociedade, com esta instabilidade?

Deixou-nos algumas tipologias do crente, consoante o tipo de Fé que apresenta:

1. Fé radical; 2. Fé esclarecida; 3. Fé incompreendida; 4. Fé prática, a que quer criar condições para estar com Cristo, como Pedro sugeriu no Monte Tabor; 5. Fé frágil, como a de Pedro, quando o Senhor lhe disse para andar sobre as águas;  6. Fé agressiva, fanática, que quer levar tudo ao fio da espada; 7. Fé envergonhada; 8. Fé profunda; 9. Fé missionária, a que sabe dar razões da sua Esperança; 10. Fé mártir. Realmente, S. Pedro é bem o exemplo daquilo que tantas vezes nos acontece… Ele conhece bem o Mestre… é ele que diz sem hesitação: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, mas, mais tarde nega-o por 3 vezes. Ele ama Jesus e di-lo, mas não consegue imitar Jesus a 100%.

Hoje, no entanto, verifica-se que há uma sede de Deus e da vivência da espiritualidade, que encontramos, por exemplo, em Fátima…  e até a própria Medicina reconhece a importância da vida espiritual para a saúde.

O Pe José Miguel Cardoso, através do episódio dos Discípulos de Emaús (Lc 24,13-35)[5], salientou ainda os princípios e os riscos pastorais que hoje se correm, destacando a Presunção Ateísta: “Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias” (Lc 24,18), e ainda a Pedagogia Progressiva seguida por Jesus: “…explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito” (Lc 24,27). O risco é a tentação do proselitismo, o querer convencer versus converter. Realçou também um dos maiores riscos, que é o hiato entre o coração

e o caminho: 1. Pode acontecer um coração sem caminho (Lc.24, 32), como foi o legalismo do jovem rico (Mt 19, 21), ou como é dos que se dizem crentes, mas não praticantes; 2. ou ainda um caminho sem coração (Lc 24,33-34), como na traição de Judas, bem como nos praticantes, mas não crentes. 

Que contributo podem dar as nossas Catequeses ao Homem de hoje?

Introduzindo o conto do Feiticeiro do Oz, o Pe José Miguel Cardoso terminou a sua comunicação chamando a nossa atenção para o pedido que o Homem de Lata faz ao Feiticeiro: ele pede-lhe um coração para poder amar.

O abandono dos jovens no pós-Crisma, ou os Grupos de Jovens, tantas vezes praticantes mas não crentes, exigem de nós uma renovação profunda da Catequese, o caminho mistagógico a fazer com eles. Mas que passos dar para que os Catequizandos façam essa experiência mistagógica, profunda?

Não nos ardia cá dentro o nosso coração…?” (Lc. 24, 32b).

Mais e mais o Catequista precisa de formação… mas também precisa de dar testemunho da sua fé, pelo modo como vive, como se envolve na vida da sua comunidade da sua paróquia… como reza, como medita, como faz adoração…

Há ainda a tentação dos números: mas não são os números que interessam, nem os likes das redes sociais; é a profundidade da vivência de Catequistas e de Catequizandos na sua relação íntima com Jesus Cristo.    

Neste mês, especialmente dedicado a Nossa Senhora, peçamos-Lhe que nos ajude a guiar o coração dos nossos Catequizandos até Jesus.


[1] – Cf. Correio de Coimbra, nº 5064, de 30 de Abril de 2026, pp. 18-19

[2]Die Schachspieler, de Friedrich Moritz August Retzsch.

[3] – Papa Francisco, Exortação Apostólica. 2013

[4] – Secr. Geral da CEP e SNEC, “Itinerário de Iniciação à Vida Cristã das crianças e dos adolescentes com as famílias”, Impr. Gráfica Almondina, 2022, pp. 27-30

[5]Rembrandt, Os Discípulos de Emaús, 1648, Museu do Louvre

2026 © Correio de Coimbra  |  Desenvolvido por fredericomartins.pt