Vivemos o tempo de Quaresma desde 18 de fevereiro. Nesse mesmo dia, com a Lua Nova, começou um novo ano chinês – o do Cavalo de Fogo – e com ele um período de celebração que se prolonga até à Lua Cheia, em 3 de março. No mesmo 18 de fevereiro do (nosso) calendário civil, começou o Ramadão muçulmano, que durará ate 20 de março. Coincidências que não aconteciam desde 1863, a que se soma uma outra, menos rara, a da Páscoa católica coincidir com a Pessach, a Páscoa judaica.
Quatro tradições, quatro caminhos espirituais distintos, mas unidos por um traço comum: todos convidam à renovação interior, à memória das origens e ao compromisso com uma vida mais justa e fraterna.
Para quem procura estar atento aos sinais do Tempo, com a preocupação de ajudar na educação de jovens no escutismo católico, esta convergência não é apenas uma curiosidade cronológica. É, antes, uma oportunidade pedagógica e espiritual para recordar que a humanidade partilha uma mesma sede de sentido, de transcendência e de Esperança. “Andamos todos ao mesmo”… poderia dizer-se.
Em diferentes geografias e culturas, movidos por um mesmo desejo de comunhão, mesmo que vestidos de diferentes figurinos humanos, a verdade é que nestes dias, milhões de pessoas vivem dias de jejum, oração, festa, gratidão e desejo de Libertação. Um movimento simultâneo de corações voltados para o essencial não deveria poder ajudar-nos a reconhecer o que nos une, mais do que aquilo que nos separa?
A Quaresma propõe aos cristãos conversão e libertação, através do jejum, da oração e da caridade, da partilha, do Amor. O Ramadão convida os muçulmanos a purificar a vida, através do jejum, da oração e da solidariedade em comunidade. O Ano Novo Chinês, com uma forte dimensão familiar e comunitária, apela ao recomeço, à harmonia e ao respeito pelas gerações. A Páscoa judaica faz memória da libertação e da dignidade de um povo chamado a viver na fidelidade e na justiça, antecedendo-lhe a espera milenar pela salvação.
São todas linguagens muito diferentes, mas um mesmo apelo: recomeçar melhor, viver com mais consciência, construir comunidade, pelo Amor ao Próximo.
Num tempo marcado por guerras, discursos de exclusão e medos identitários, esta coincidência no calendário pode ser lida como um convite silencioso à fraternidade humana universal. Não se trata de diluir as diferenças religiosas nem de ignorar as especificidades de cada tradição. Pelo contrário, é precisamente no respeito pela identidade de cada povo e de cada fé que pode nascer um verdadeiro encontro. A fraternidade não se constrói pela uniformidade, mas pela capacidade de reconhecer no outro um irmão.
O escutismo, desde a sua origem, propõe aos jovens esta abertura. O Escuta orgulha-se da sua fé e por ela orienta a sua vida. A presença da dimensão espiritual na construção de uma criança ou jovem é basilar e tem de estar sempre presente. Mas respeita a fé do Outro. A Lei do Escuta lembra-nos que o escuta é amigo de todos, de todos os cidadãos do mundo. Mas, quando toca aos outros escuteiros, então para esses é irmão, tem vínculo, independentemente da sua origem, cultura ou da forma como reza. Este princípio, simples e exigente, ganha hoje uma atualidade renovada. Educar para a fraternidade já não é apenas um ideal bonito; é uma necessidade urgente para a convivência pacífica nas nossas comunidades, cada vez mais variadas e misturadas.
Também em Coimbra, cidade universitária e cada vez mais intercultural, convivem estudantes e famílias de múltiplas proveniências e crenças. Este tempo pode ser ocasião para gestos concretos: conhecer melhor as tradições uns dos outros, promover momentos de diálogo, valorizar iniciativas solidárias comuns, ensinar às crianças e jovens que a fé, quando é autêntica, nunca fecha as portas do diálogo – abre-as.
Como cristãos, sabemos que a conversão quaresmal nos conduz sempre ao encontro com o próximo. Não há caminho para a Páscoa que não passe pela caridade, pelo cuidado e pela reconciliação. Recordamos as palavras do Evangelho: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Esta bem-aventurança, reconhecida por todos os cristãos e inspiradora para qualquer pessoa de boa vontade, lembra-nos que construir a paz e a fraternidade não é opcional — é vocação.
Talvez, neste ano, possamos alargar esse horizonte e reconhecer que, enquanto percorremos o nosso itinerário espiritual, muitos outros caminham, em paralelo, também à procura de Deus, de paz e de vida nova.
Se soubermos ler este tempo como um sinal, poderemos transformá-lo numa semente. Uma semente de respeito, de escuta, de cooperação e de amizade social. Que esta coincidência de calendários não seja apenas um dado curioso, mas uma oportunidade para renovar, nas nossas casas, paróquias, escolas e agrupamentos, o compromisso com uma fraternidade que ultrapassa fronteiras e nos recorda que todos habitamos a mesma Casa Comum.
Porque, no fundo, quando diferentes povos rezam, jejuam, celebram e esperam ao mesmo tempo, a humanidade inteira é chamada a lembrar-se de que foi criada não para a divisão, mas para o encontro.

