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“Como posso estar perante isto?”

Cristina Novo

Cristina Novo - Para nos pensarmos

Começámos na quarta-feira de Cinzas mais uma caminhada quaresmal, um tempo privilegiado de encontro com Deus, um convite a mergulharmos nas águas profundas da nossa interioridade, sim porque neste mês de fevereiro toda a vida da nossa Diocese passou por esta palavra “água”.

Gostaria de propor a reflexão sobre o pensamento do padre jesuíta, Franz Jálics. Ele desenvolveu um caminho espiritual conhecido como “oração contemplativa”, muito influenciado pela tradição inaciana (de Inácio de Loyola), mas com um enfoque muito particular na quietude interior. Para Jálics, contemplar não é pensar sobre Deus, nem fazer raciocínios teológicos. É estar, simplesmente, na presença de Deus. É abandonar-se ao silêncio, deixar de “falar com Deus” para estar com Deus.

Jálics ensina que o maior obstáculo à contemplação é o excesso de pensamentos. Por isso, ele propõe o caminho do silêncio com a atenção simples à respiração, repetição suave do nome de Jesus, postura de escuta interior, perseverança diária. O objetivo não é “esvaziar a mente à força”, mas aprender a não se identificar com os pensamentos. Deus só poderá ser encontrado no aqui e agora. O passado e o futuro são distrações da mente. A contemplação acontece quando a atenção está ancorada no presente, o coração está aberto, a pessoa aceita a realidade como ela é. Isso tem uma dimensão quase terapêutica: a oração contemplativa conduz à reconciliação interior.

A espiritualidade de Jálics foi profundamente marcada pela sua experiência de sequestro durante a ditadura militar argentina (nos anos 1970). Esse período de sofrimento aprofundou a sua compreensão do silêncio, do perdão e da confiança radical em Deus. Os frutos desta oração autêntica não são visões nem êxtases, mas maior capacidade de amar, humildade, paciência e liberdade interior. A contemplação leva a uma vida mais simples e mais compassiva.

Em Jálics, a contemplação não é fuga do mundo, mas reconciliação com ele. A natureza não é objeto de análise é mediação da presença de Deus.

A contemplação, porém, só começa quando o sujeito deixa de se colocar frente à natureza como observador e passa a estar dentro dela como participante. A árvore deixa de ser “árvore pensada” e torna-se árvore presente. O som do vento deixa de ser fenómeno físico e torna-se acontecimento vivido. Trata-se de uma transformação da consciência. Na contemplação da natureza, o que está em jogo não é o objeto contemplado, mas a qualidade da atenção.

A atenção pura não compara, não julga, não interpreta, não apropria. Ela simplesmente recebe. Aqui a oração deixa de ser discurso e torna-se escuta ontológica. Não se trata de falar com Deus sobre a natureza, mas de deixar que a própria realidade fale. Nesse sentido, a natureza funciona como um “sacramento do presente”: aquilo que é visível conduz ao invisível, não por raciocínio, mas por transparência.

Sendo jesuíta, Jálics está enraizado na espiritualidade de Inácio de Loyola, onde Deus é encontrado “em todas as coisas”. Contemplar a natureza não é divinizá-la, mas reconhecer que o divino se comunica através do criado.

Então, já não se “faz” oração. É a nossa própria forma de estar no mundo que se torna oração. A crise ecológica contemporânea é reflexo de tudo isto. Não nasce apenas de más decisões técnicas, mas de uma forma empobrecida de perceber o real.

A modernidade instaurou um modo de relação com a natureza marcado por três características: objetificação, instrumentalização, separação sujeito/objeto. A natureza tornou-se “recurso”. O mundo tornou-se “matéria disponível”. O ser humano tornou-se “gestor”.

Esta estrutura mental antecede a destruição ambiental. Antes de devastar florestas, devastámos o modo de ver. A crise ecológica é, antes de tudo, uma crise de perceção. Quando alguém contempla uma árvore sem a reduzir a madeira potencial, ocorre uma reeducação da consciência. A árvore deixa de ser meio e volta a ser presença. Contemplar é devolver dignidade ao real. E essa restituição ontológica é o oposto da lógica extrativista. A crise ecológica é também fruto da incapacidade de aceitar limites. A cultura do crescimento ilimitado nasce de um sujeito que não tolera o vazio. Jálics insiste no silêncio como caminho de purificação do ego.

Uma consciência que suporta o silêncio é menos compulsiva. E uma consciência menos compulsiva consome menos. A contemplação educa para a sobriedade não por moralismo, mas por transformação interior.

No fundo, a contemplação propõe uma alteração radical da pergunta fundamental: Não: “O que posso fazer com isto?” Mas: “Como posso estar diante disto?”

Perante a calamidade que nos atormentou fruto da força da natureza e das alterações climáticas, como podemos nós cristãos estar perante isto? Como vamos viver esta Quaresma tendo à nossa frente e ao nosso lado a destruição de vidas, de casas, de empregos, de infraestruturas?

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