- Para nos pensarmos

O Mosteiro sem Muros

Cristina Novo

Cristina Novo - Para nos pensarmos

Foi num fim de semana da Primavera de 2017, em Fátima, que tive o primeiro contacto com a Comunidade Mundial para a Meditação Cristã (WCCM). Uma amiga enviou-me um e-mail com a divulgação do retiro que iria realizar-se em Fátima, orientado pelo monge beneditino irlandês, Laurence Freeman. Voluntariosa e curiosa, decidi rumar ao desconhecido, sozinha, mas com o coração cheio de expectativas, pois a prática do silêncio já era algo que cultivava há muito, mesmo sem saber das suas raízes cristãs.

Devo dizer que nesse fim de semana passei por diversos momentos. Se por um lado “bebia” as palavras do padre Laurence que faziam todo o sentido para o meu quadro conceptual filosófico-teológico, por outro lado os tempos de silêncio e imobilidade, muito frequentes e prolongados, a que não estava habituada e com os quais não sabia como lidar, criavam em mim um desconforto tal que a certo ponto me passou pela cabeça desistir. Felizmente não o fiz, consegui superar a dificuldade e desse retiro nasceram em Coimbra dois grupos de meditação, que ainda se mantêm e muito me têm ajudado a crescer na fé e como pessoa.

Mas, afinal, de que é que estou a falar?

A palavra Meditação que usamos vem do radical grego “Med”, a mesma raiz da palavra medicina e significa cuidar, prestar atenção. Na meditação vamos da cabeça ao coração. Sentamo-nos imóveis e abandonamos os nossos pensamentos para nos focarmos no nosso coração. Num mundo cada vez mais agitado, com muito barulho dentro e fora de nós, é necessário cultivar o silêncio, a paz interior, encontrarmo-nos a nós mesmos e encontrar Deus, fonte da paz e da serenidade. Isto é fazer deserto dentro nós para nos encontrarmos com Deus, o Deus que fala no silêncio. Descobri que o deserto não é um lugar, mas um estado interior que requer comunhão e intimidade com Deus, que é a fonte da paz e da felicidade, da alegria e da graça. Só no silêncio se podem ouvir os “murmúrios do Espírito”, a paz que nos é segredada e nos faz entrar nos mistérios do amor de Deus uno e trino. Neste silêncio, a oração vai-se transformando, cada vez com menos palavras, menos pensamentos, mais escuta e comunhão. É possível viver este deserto na cidade, na vida quotidiana, em casa, na rua, nas compras, no trabalho. No meio do reboliço e da multidão, é possível recolher-se dentro do coração, onde Deus está como num sacrário.

E como é possível serenarmos o fluxo constante dos nossos pensamentos?

 A Tradição Cristã propõe a repetição da palavra-oração, a que também chamamos palavra sagrada ou mantra. Mantra vem do sânscrito e significa “protetor da mente”.

O monge beneditino, John Main, o precursor da Comunidade Mundial da Meditação Cristã, propõe a palavra em aramaico Maranatá. Quando a mente divaga deixamo-nos cair no sonho, nos planos, nas imagens, nos pensamentos, mas assim que nos apercebemos de que a atenção da nossa mente se desviou, largamos a distração e regressamos à nossa “palavra”. Aprendemos esta arte pela repetição. É muito importante a escolha da palavra, porque a vamos usar ao longo de todo o tempo que meditamos. Escutamos a palavra, não pensamos nela, ouvimo-la. Dizer a palavra permite deixar de lado os pensamentos. Estar a viver no momento presente é a contemplação. Só podemos estar presentes a Deus quando estamos presentes a nós próprios.

Parece que este tipo de oração é solitário e individual, mas há algo na natureza da meditação que nos junta, que nos leva a meditar em conjunto. O que eu aprendi com a experiência de meditar individualmente é a necessidade que temos de estar enraizados no Espírito de Cristo que habita no nosso coração. Aprendi a importância do grupo de meditação com o qual nos encontramos semanalmente, onde vamos buscar ânimo, ensinamento e motivação. Este grupo recebe os ensinamentos do grupo da comunidade nacional, que por sua vez está alicerçado na comunidade mundial. Na experiência meditativa descobrimos que o global e o local estão integrados e que, como o Padre John Main disse, “a meditação cria comunidade”.

Durante a pandemia todas estas relações se tornaram mais próximas e houve um sem número de conferências e de encontros on-line, nacionais e internacionais, onde nos pudemos conhecer melhor e aprofundar temas sobre a meditação cristã. Dessas experiências ficaram 3 grupos on-line, que permanecem. Assim, no nosso país, diariamente, todos os que queiram meditar em grupo podem fazê-lo em três horários, via zoom. Há ainda vários grupos regionais, presenciais e on-line, que se reúnem semanalmente. Este é o significado de chamarmos a este movimento de oração o Mosteiro sem Muros, o sonho do padre John Main. Tal como aconteceu no final do império Romano, época em que viveu S Bento, no descalabro de um mundo, a solução foi criar pequenas comunidades e regressar aos elementos básicos da humanidade: trabalho, estudo e oração, por outras palavras, corpo, mente e espírito. Também hoje precisamos de encontrar uma nova espiritualidade, uma nova ordem que dê sentido às nossas vidas.

Pela oração encontramos o nosso eu único e percebemos o sentido de o pôr ao serviço  da comunidade. O mais importante na oração é o trabalho de silêncio. É necessário redescobrir a riqueza do silêncio, riqueza que só podemos encontrar no interior do nosso coração. Ao mesmo tempo, este é um trabalho desafiante para nós.

A meditação deve ser uma prioridade na nossa vida, porque ela ajuda-nos a sermos gratos. Só o espírito de gratidão pode transformar o mundo e a nossa vida. Passamos muito tempo a contestar o que não temos e isto torna o nosso coração amargo. A paz de Cristo está ligada ao sentimento de gratidão e este é o grande desafio para o mundo de hoje. Cristo vive em nós e no nosso coração existe a Esperança e a plenitude da Vida e esta plenitude está ligada à Paz de Cristo em nós.

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