Creio que o futuro de uma Igreja “sinodal” passa por aqui: leigos a presidir a Comunidades/ Paróquias/ Unidades Pastorais. O sacerdócio comum que lhes assiste, por via do Batismo, legitimar-lhes-á essa missão.
Mas por que razão só agora se reflete, mais em detalhe, sobre esta possibilidade? A resposta é evidente: porque faltam presbíteros. E eles terão de ser forçosamente aproveitados para executar as tarefas “extra-ordinárias” (e sublimes) que só mesmo eles podem fazer, como celebrar a Eucaristia e confessar/ acompanhar espiritualmente. As tarefas “ordinárias” passarão cada vez mais a ser executadas pelos diáconos e por leigos – vocações estas que, contrariamente às perceções, também não abundam.
O Sínodo sobre a sinodalidade – sobre este estilo de Igreja em que caminhamos lado-a-lado (embora com funções e responsabilidades diferenciadas), rumo ao mesmo fim, a evangelização – surge, providencialmente, nesta época em que faltam vocações de consagração (sobretudo no mundo ocidental) e a Igreja perdeu força e impacto na sociedade. Perante esta aflição, não temos outro remédio senão abraçarmo-nos “todos, todos, todos”. Como nos inícios…
Urge, pois, “reconstruir” a Igreja, assentes na Palavra de Deus e atentos aos apelos do Espírito (conversando com Ele…), recorrendo a novas abordagens pastorais, a modelos de organização inovadores e a outras formas de atuação. Eu sei – todos sabemos – que tudo isto é (será) uma missão hercúlea, ademais quando, mais do que numa época de mudança, estamos a viver uma “mudança de época”, e o clericalismo continua a prevalecer, como nos alertava o Papa Francisco (para ambas as realidades).
Ocupemo-nos, por ora, da presidência/ liderança das comunidades. Sobre esta matéria, o distinto teólogo João Duque, em 2022, no decorrer da 44.ª Semana Bíblica Nacional, afirmou que o líder não precisa de ser sacerdote: “Faz algum sentido que o Presidente da celebração [eucarística] seja o líder da comunidade. Mas terá de ser sempre assim? Que uma comunidade cristã tenha um líder ou um grupo de liderança – não precisa de ser um só – é a coisa mais normal deste mundo. Que esse líder tenha de ser um ministro ordenado, depende das circunstâncias. (…) A liderança da comunidade pode não coincidir com o ministro ordenado. É uma questão que está em aberto e nós podemos estar em circunstâncias em que tenhamos de rever esses ministérios. (…) Do ponto de vista do governo, um dos caminhos consiste em apostar na liderança desacoplada da ordenação, pois hoje só se pratica a ordenação de homens celibatários. Assumindo uma liderança de comunidades que possa ser exercida por ministros não ordenados, qualquer mulher ou qualquer não celibatário poderia assumir essa liderança, sem presidir à celebração da eucaristia.” (Revista Bíblica, novembro/ dezembro de 2024, pp. 11-15).
Também o Pe. Tiago Freitas, da diocese de Braga, na Jornada de Formação da nossa diocese, em janeiro de 2025, falou, entre outros, do possível ministério de animador/ líder de comunidades, com cristãos eleitos pela comunidade ou nomeados pelo bispo, cabendo a estes leigos a “parte do governo” e aos presbíteros “a parte sagrada”. Segundo ele, e na esteira da Praedicate Evangelium (Constituição Apostólica do Papa Francisco, promulgada em 19 de março de 2022), e até do Código de Direito Canónico, os leigos podem coordenar uma comunidade, naturalmente sob a autoridade dos bispos.
Para “inspirar” estas novas formas de ministerialidade e de governo das comunidades, o Pe. Tiago convoca experiências das comunidades cristãs do norte de África, dos séculos III a V (algumas das quais vivenciadas e relatadas por Santo Agostinho, natural daquela região), com anciãos leigos líderes de comunidades, assim como outros testemunhos e vivências da Igreja ao longo dos séculos.
Recomendo, a este propósito, que os estimados leitores vejam ou revejam a conferência do Pe. Tiago, alojada no YouTube da diocese (que, lamentavelmente, mal se nota na página da diocese, embora tenha muita informação altamente relevante).
Estamos, indubitavelmente, perante uma questão determinante, pois falamos de “lideranças”. E se estas (novas) lideranças forem fortes e “influenciadoras” poderão inverter o ciclo decrescente do impacto da Igreja na sociedade, e colmatar, positivamente, a tendência crescente da falta de presbíteros.
Por ser uma matéria premente, densa e delicada, que não se esgota em meia dúzia de linhas, espero poder continuar a sua reflexão em próximas edições do nosso jornal.
Para terminar, um voto: que 2026, sob o impulso do jubileu da esperança acabados de viver e sempre sob o olhar providencial do nosso Deus, seja o melhor ano das nossas vidas!

