Em parceria com a Comissão Diocesana da Pastoral do Turismo e Oficina Museu Monsenhor Nunes Pereira
REPORTAGEM
«A água que vai caindo dentro de mim canta e salta»

O verso que dá título a esta reportagem consta do poema “Canção do Cântaro d’Água”, incluído no livro “Da Terra e do Céu”, página 96, da autoria do Monsenhor, reeditado recentemente pelo Seminário Maior de Coimbra.
Para Monsenhor Nunes Pereira, a água não era algo exterior que apenas molhava o corpo ou limpava a superfície. A água do Batismo passava para o interior do homem, “dentro de mim”. Quando diz que ela “canta” evoca a alegria profunda da fé, a harmonia e a paz que nascem do encontro com Deus.
Trazer o tema da água, tão presente nas raízes do sacerdote, é evocar S. João Baptista, recordar o santo popular que nestes dias tem festejos por todo o país e aqui dar a conhecer alguns pontos de referência, locais a descobrir, nesta etapa do roteiro pela arte de Nunes Pereira.


Voltamos à igreja de Santo Elias de Carnide, em Pombal, desta vez paramos logo na entrada. Mena e o marido indicam ao Correio de Coimbra a pia baptismal, num pequeno espaço. Três vitrais de grande dimensão imprimem ali um tom colorido.
Ao centro a imagem de Cristo ressuscitado. De cada lado, uma passagem bíblica: Moisés a ser retirado nas águas do rio Nilo e no outro a evocação do cordeiro, recordando quando João Batista declarou “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
Colocados estrategicamente junto à pia batismal, o vitral não é um mero elemento decorativo. Ele serve para que cada família de Carnide que ali leva uma criança para ser batizada olhe para cima e perceba que aquele rito liga a criança diretamente ao traço original da fé. É a água que limpa, renova e faz “saltar” a vida nova no novo cristão.



Para Nunes Pereira a água não era um conceito abstrato; era o elemento que moldava a dureza da pedra. Ele projetava a pureza e a força das águas límpidas da sua infância serrana.

A Igreja, construída em 1965 e dedicada a Santo Elias, acolhe cerca de 400 pessoas a cada celebração e, naquele pequeno espaço, a manhã iluminava as cores dos vitrais, criando pequenos desenhos no chão. No canto inferior direito, pode ler-se o nome do autor: Nunes Pereira. Não há dúvidas.
Ainda neste templo é de destacar os vitrais colocados acima do altar mor, evocando a última ceia, e citados noutra edição. No coro alto, ganha destaque um vitral de grandes dimensões do orago, Santo Elias.

Seguindo a rota, chegamos à igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vermoil, em Pombal. Voltamos lá porque é ali que se encontra uma xilogravura especial, nem sempre apreciada.
D. Lúcia, zeladora da igreja há décadas, sempre olhou para aquele quadro, com espanto.


“Houve um sr. prior que não achava graça à xilogravura, não gostava e esteve arrumada. Depois veio outro e colocou neste sítio, é S. João Baptista a batizar Jesus, daqui não saiu mais, perto da Pia Baptismal”, apressa-se a contar.

Ao retratar o primo de Jesus, João Batista, em xilogravura, o traço forte e cortante de Nunes Pereira não era um mero estilo estético: era a representação do temperamento do próprio Batista. Um homem do deserto, austero, sem adornos. Para o Monsenhor, a gravura em madeira refletia o “símbolo do seu próprio batalhar na vida”.
Do lado oposto, acima do ambão, outra xilogravura do mesmo autor, Jesus a pregar. A Igreja iniciou a construção em 1961, foi inaugurada a 6 de setembro de 1975 e as xilogravuras são datadas da década de 1972.


Destaque ainda para o altar mor, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, em Tessela, pequenas peças de pedra, vidro ou cerâmica, geralmente quadrangular ou cúbica, da autoria do Monsenhor Nunes Pereira.

“Também há muita gente daqui que estranha esta peça… mas é nossa, é da nossa igreja”, remata D. Lúcia antes de nos despedirmos.
O roteiro segue para a zona de Soure, chegamos à Capela de Paleão, onde por estes dias a população se junta em festa, em honra do padroeiro São João.
No exterior está uma placa com o ano de 1966, ano da inauguração da atual igreja, que se situa onde existia uma antiga capela.


A tarde estava quente e o silêncio reinava no largo. Entrámos na capela e a frescura fez-se sentir. Acolhedora, com luz colorida, a capela é uma marca do ambiente envolvido em vitrais de Nunes Pereira, datados de 1966. De fora, ninguém imagina a beleza que ali se esconde.
No altar mor, Cristo crucificado ladeado por João Batista, primo de Jesus, nascido cerca de seis meses antes, atuando como o “precursor”, à direita também a mesma figura pregando o arrependimento e preparando o povo no deserto para a chegada do Messias.


Já no coro alto, três vitrais mostram três momentos da vida do santo popular: São João a pregar, o Batismo de Jesus e o martírio de S. João. Uma catequese visual completa sobre a vida de São João Batista. O traço do Monsenhor guia-nos pela austeridade do deserto, pela pregação e pela coragem do padroeiro de Paleão.

A água definida pelo artista não é uma água estagnada, cinzenta ou parada no fundo de um poço paroquial antigo. É uma água viva, que “salta”. É a mesmíssima imagem que Jesus usa no Evangelho de São João ao falar da “fonte de água que salta para a vida eterna”.
Este “saltar” liga-se diretamente à figura de São João Batista, que saltou de alegria ainda no ventre de Isabel e que foi um profeta dinâmico, inquieto e vigoroso.
Terminamos esta etapa do roteiro, pensando na água fresca que sacia a vida humana mas com o horizonte na fonte que nunca seca. Aqui, para finalizar, uma reflexão do arquivo manual de Nunes Pereira.

«Que o Pai seja a fonte, está escrito em Jeremias: Abandonaram-me a Mim, fonte de águas vivas, e escavaram para si cisternas rotas que não podem conservar a água. Sobre o Filho, lemos noutro lugar: Abandonaram a fonte da Sabedoria. Finalmente sobre o Espírito Santo: Se alguém beber da água que Eu lhe der, nascerá nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna. E o Evangelista explica, logo a seguir, que as palavras do Salvador se referiam ao Espírito Santo.
As passagens citadas provam claramente que as três fontes da Igreja são o mistério da Trindade».
(2ª leitura de quinta-feira da semana XIII do Tempo Comum, Liturgia das Horas.)
APONTAMENTO GASTRONÓMICO
Paleão (Soure) e Vermoil (Pombal)
Geograficamente afastadas por mais de 30 km e inseridas em dois distritos distintos, as povoações de Paleão, no município de Soure e distrito de Coimbra, e Vermoil no município de Pombal e distrito de Leiria, encontram-se unidas através da água. O rio Arunca, nascido na freguesia de Albergaria dos Doze, em Pombal, rasga, de sul para norte, os vales calcários encaixados nas imediações da Serra de Sicó, desaguando na margem esquerda do Mondego.
Em Vermoil, é no Bodo das Castanhas, no último domingo de outubro, que podemos encontrar as especialidades gastronómicas da povoação, como o bacalhau da vindima, o borrego ou os tortulhos, um cogumelo silvestre, a par, claro, das castanhas e demais frutos secos. Dos seus vinhedos em solo calcário é produzido vinho que é já considerado integrante da vasta região vitivinícola de Lisboa, nomeadamente à área de Denominação de Origem Controlada “Encostas D’ Aire”.
Dirigindo-nos para norte, Paleão, em Soure, tem um pé no Mondego e outro na Serra do Rabaçal e, por isso, o leque gastronómico é vasto, do arroz à chanfana, das enguias ao queijo. O moado, enchido feito à base de farinha de trigo, milho, sangue de porco e açúcar e os biscoitos de azeite, são, nesta região, apreciáveis especialidades que ainda podem ser descobertas pelos mais curiosos.

