Na Festa do Batismo do Senhor, celebramos o início do ministério público de Jesus; o testemunho do Pai, de que Jesus é verdadeiramente o Seu Filho – «Este é o meu filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência» -; e a inteira disponibilidade do Senhor Jesus para abraçar a vontade do Pai, realizando a salvação dos homens, cuja humanidade frágil e pecadora abraça já no batismo ritual de João. Este batismo ritual é prefiguração daquele outro Batismo, em que Jesus, na Cruz, se oferece inteiramente ao Pai e nos alcança o dom da salvação, pela Sua morte e ressurreição.
Celebrando este mistério de amor, somos convidados a acolher a vida que Jesus nos oferece – a graça da santidade – e a testemunhá-la a todos os nossos irmãos, pois não há outro nome pelo qual possamos ser salvos, senão o de Jesus.
1. Não raro, olhamos para o nosso batismo como um rito situado no tempo; recebido, maioritariamente, em criança; e não tanto como uma vocação contínua de vida, que já nos foi dada, pelo dom amoroso de Deus, mas que há-de crescer em nós permanentemente. O batismo é uma graça singular, um dom de Deus, mas um chamamento permanente à vida de filhos de Deus, na configuração contínua com o Senhor Jesus Cristo, como discípulos Seus.
Por outro lado, ainda, vive-se hoje uma forte tentação de isolar o rito do batismo, como dom particular, isolado da comunidade cristã, quando ele, de facto, nos insere nessa mesma comunidade e nos faz participantes da sua missão.
Daqui que a celebração do batismo do Senhor seja oportunidade de reassumirmos o nosso batismo como dom de santidade e vocação, bem como apelo a que assumamos, de pleno direito e como nosso dever, a missão da Igreja – testemunhar ao mundo a vida nova que Cristo nos ofereceu, já prefigurada no Seu próprio batismo.
2. A Palavra de Deus remete-nos para estes princípios enunciados. Na primeira leitura é apresentado o «Servo» do Senhor, o Seu «eleito», «enlevo» da Sua alma; Aquele que vem estabelecer a justiça de Deus na terra, exercendo a Sua misericórdia. Ora, este «eleito de Deus» é Aquele de quem o Pai dá testemunho no Evangelho, quando se ouve a voz que, vinda do Céu, diz: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».
Por seu turno, Jesus expressa já a fidelidade ao Pai ao pedir o batismo a João. Não obstante a primeira oposição de João Batista, a expressão de Jesus: «deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça», manifesta o sentido do Seu ministério público, que O conduzirá à realização plena da vontade do Pai. Isto é, à nossa salvação. O Evangelho coloca-nos diante da identidade e missão de Jesus, mas num dinamismo que é, desde a primeira hora, de abraço misericordioso de toda a realidade humana. Ao ser batizado, por João, no rio Jordão, Jesus abraça a nossa humanidade, na sua totalidade, também com as suas limitações, fraquezas e pecados; prefigurando essa humanidade abraçada na cruz, que contemplamos na expressão de Jesus: «quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a mim».
Os Atos dos Apóstolos – segunda leitura deste domingo – coloca-nos, igualmente, diante da identidade e missão de Jesus. Ao tomar o discurso de Pedro, afirma o kerigma inicial: «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».
3. Na celebração do Batismo do Senhor, somos convidados, em primeiro lugar, a acolher a salvação de Deus. A redescobrirmo-nos amados por Jesus, que partilha as nossas alegrias, esperanças, sucessos e insucessos. Mas, particularmente, a acolher a vida eterna, que Ele já nos ofereceu, no Seu Mistério Pascal, e que em nós cresce, enquanto peregrinos, até que seja plena no reino que há-de vir. Este primeiro convite é a crescermos em santidade. Sabendo que já fomos justificados pelo amor de Deus, mas somos chamados a cooperar com esse amor na nossa salvação, entendendo o batismo como vocação e não meramente como rito isolado no tempo. O triénio pastoral, que estamos a viver, convoca-nos para aqui, como oportunidade de encontro renovado com o Senhor Jesus Cristo, com a Sua Palavra, movidos pelo Espírito que também Ele, com o Pai, faz descer agora sobre nós, para que vivamos uma vida nova.
Participando na comunhão eclesial, em que fomos inseridos pela graça do nosso batismo, somos enviados a testemunhar esta vida nova, que é Cristo, quer no quotidiano da vida, como é próprio dos leigos; quer no serviço da comunidade. Acolhendo o ministério público de Jesus, também nós somos enviados a tornar presente, por palavras e obras, o Seu amor por toda a humanidade.

