1Numa disputa que envolveu inusitado número de candidatos – um boletim com fotografias de pretendentes até de quem não o chegava a ser –, alguns, meros representantes partidários, outros, figuras de pantomina, António José Seguro venceu, sem maioria embora, a primeira volta das presidenciais, pelo que será acompanhado por André Ventura no tira-teimas de 8 de fevereiro. Representando em si mesmos tão diferentes projetos políticos (e não se trata de um confronto opondo a esquerda e a direita, antes o enfrentamento entre a democracia liberal e o populismo radical), só compreendendo a ‘isenção’, por o ser, do primeiro-ministro na indicação do sentido de voto no próximo escrutínio, até eu, monárquico, que sempre anulo o sufrágio com um ‘Viva o Rei’, estou decidido, desta vez, ao que me obriga a consciência, a eleger Seguro.
2Apesar de o risco de pobreza em Portugal ter descido em 2024, os mais recentes dados estatísticos do INE mostram que 1,7 milhões de pessoas – todavia o menor valor dos últimos 20 anos – continuam a viver, insuportável, abaixo do limiar da indigência, Enquanto isso, o relatório ‘Acesso aos Cuidados de Saúde’ relativo ao passado ano dá conta de que, igualmente tão lamentável, mais de metade dos cidadãos pobres não consegue comprar, sequer, por falta de dinheiro, todos os medicamentos prescritos.
3Neste país que, sobretudo atribuída ao frio e à gripe, é o único com excesso de mortalidade na Europa – só no último mês morreram 2.658 pessoas a mais do que seria expectável –, surge, tão bem vinda no inverno demográfico que nos derriba, a notícia de que (queira Deus que não para engrossar, daqui a uma trintena de anos, o êxodo rumo ao estrangeiro dos nossos jovens academicamente melhor preparados) nasceram 87.700 bebés, muitos, a grande maioria deles, de mães imigrantes. Animemo-nos, ainda assim.
4Estão votados, pelos autarcas dos respetivos territórios (depois de uma prévia e abstrusa escolha pelos dois partidos com maior peso no poder local), os presidentes das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Enquanto isso, o governo, persistindo no atávico centralismo que tolhe a harmoniosa coesão do Portugal inteiro, vai indigitar os cinco vice-presidentes – como irão compatibilizar-se eleitos com nomeados? – através dos quais exercerá a sua tutela sobre órgãos desconcentrados que já estiveram mais perto de ser esteios da, constitucionalmente prevista, regionalização administrativa do país. Que, lamentavelmente, tanto tarda!
5Entrou em vigor, para travar a perda de biodiversidade através de uma gestão sustentável, o acordo internacional que, juridicamente vinculativo (mau grado 80 países terem já ratificado o documento, outros, relevantes, como os Estados Unidos, Índia, Reino Unido e Rússia, ainda não o fizeram), passa a regular atividades no alto mar e no leito marinho das áreas fora das águas nacionais, afinal mais de dois terços da superfície dos oceanos. Contudo, num tempo em que se invadem ou, mesmo, se querem anexar Estados vizinhos com fronteiras reconhecidamente convencionadas, como acreditar no cumprimento internacional de simples tratados sobre águas sem dominação estabelecida?
6Para deter Nicolás Maduro – que acusa de narcotraficante com grandes responsabilidades nos problemas de adição nos EUA, quando se sabe que o principal problema com a droga naquele país reside atualmente nos produtos sintéticos –, o presidente norte-americano não se eximiu a invadir a Venezuela, território onde, afirma com o maior despudor, quer explorar as suas riquezas naturais, designadamente o petróleo e as terras raras. Sem questionar o sistema ditatorial instalado, que apenas decapitou, Trump, ignorando os resultados das últimas eleições naquele país, ‘investiu’ a antiga vice como presidente de um país económica, social e politicamente à deriva. E com mais esta manifestação da razão da força em vez da força da razão, ficam ‘justificadas’, na nova ordem mundial que se prossegue, o expansionismo russo em direção à Ucrânia, a próxima anexação de Taiwan por parte da China.
7O Irão vive dias tumultuosos com crescentes manifestações populares contra a República Islâmica. Severamente reprimidos pelo sanguinário regime, são já – para além de mais de dez mil detenções – milhares as mortes entre cidadãos que, cansados de limitações económicas e de fundamentalismos religiosos, anseiam sobretudo por caminhos de liberdade. Entretanto, com a cada vez mais previsível queda do ayatollah Ali Khamenei, líder supremo iraniano, preparemo-nos, no mundo ocidental, também na Europa, para um recrudescimento do terrorismo.
8Com vantagens e, decerto, algumas parcelares dificuldades para todos, foi finalmente assinado, após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, que estabelece a maior zona de livre-comércio internacional. Envolvendo os 27 membros da UE – alguns, como a França, Polónia, Hungria, Áustria e Irlanda contestam o documento por receio de perda de competitividade das suas agriculturas – e cinco países latino-americanos, a Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai, o tratado, poder-se-ia sintetizar, trará benefícios à agropecuária destes, vantagens sobremodo à indústria daqueles. Tudo, porém, em parceria fundamental para enfrentar, comummente, a guerra comercial provocada pelos EUA depois do regresso de Trump, a cada vez maior dependência da China, os impactos dos conflitos armados na Ucrânia e Médio Oriente.
9A bem ou a mal, através da compra ou de uma ação armada, Donald Trump quer integrar a Gronelândia no território dos Estados Unidos da América. Alegando fatores de geoestratégia para se proteger das presenças russa e chinesa nas gélidas paragens árticas (quando bem sabemos que os seus propósitos são políticos e essencialmente económicos), a atual administração da Casa Branca, a quem parece não bastarem as inteiras facilidades operacionais naquela região autónoma do reino da Dinamarca, em bases militares que progressivamente tem vindo a desativar, persiste no demencial ataque a um aliado europeu – cujo povo e autoridades recusam liminarmente qualquer interferência na sua soberania –, a um membro da NATO que ela própria integra e, em verdade, comanda. Se o mundo não está louco…

