Se há coisa que aprendi ao longo da vida é que montar uma tenda parece simples, até deixar de o ser. À primeira vista, tudo encaixa: o pano, as varas, as cordas, as estacas. Mas basta um descuido — uma corda mal esticada, uma estaca mal cravada — e, ao primeiro vento mais forte, a tenda abana, inclina-se ou, no pior dos cenários, sai literalmente a voar.
Talvez por isso a passagem de Isaías 54 me toque tanto. Deus escolhe a imagem de uma tenda para falar do futuro do Seu povo. Não escolhe um palácio, nem um templo de pedra, nem uma fortaleza. Escolhe uma tenda. Algo provisório, móvel, flexível. Algo que se monta, desmonta, ajusta. Algo que exige cuidado constante. E Isaías não se fica pelas metáforas bonitas. Dá-nos instruções claras, quase como um manual prático. E, a propósito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, achei que não havia melhor tema para esta rúbrica.
Comecemos pelo primeiro passo — e talvez o mais exigente: alargar o espaço da nossa tenda.
Alargar espaço significa admitir algo desconfortável: o espaço que temos já não chega. As nossas comunidades, as nossas paróquias, os nossos grupos e até o nosso coração tornaram-se, muitas vezes, pequenos demais para os sonhos de Deus. Criámos tendas bem arrumadas, organizadas, eficientes – mas demasiado justas. Com pouco espaço para quem chega diferente, pensa diferente, vive diferente ou simplesmente ainda não sabe bem ao que vem.
Alargar a tenda não é apenas aumentar números ou inventar mais atividades. É criar espaço real para que outros possam entrar — e permanecer, nem que seja por pouco tempo. Porque a verdade é esta: nem todos os que entram ficam. Uns passam rapidamente, outros ficam um tempo, e alguns permanecem. E isso não é fracasso. É sinal de que a Igreja está a servir o seu propósito de ser um hospital de campanha – aberto a todos e com liberdade para se ser, estar e permanecer de acordo com a nossa vontade.
A unidade dos que creem não se mede pela taxa de retenção, mas pela capacidade de acolhimento. Pela liberdade com que alguém pode entrar sem sentir que tem de se tornar outra pessoa para ser aceite. Alargar a tenda implica abrir portas a novos ministérios, a novos dons, a novos serviços. Mas, acima de tudo, implica alargar o espaço interior. Aquele onde guardamos as nossas ideias feitas, os nossos “sempre foi assim”, os nossos medos disfarçados de zelo.
Nesta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, esta imagem ganha ainda mais força. Porque a unidade começa sempre quando deixamos de perguntar “quem é como nós?” e passamos a perguntar “quem é que ainda não tem espaço?”
Depois de alargar a tenda, Isaías não nos deixa descansar. Diz-nos: “estica as tuas cordas.”
Uma tenda com cordas frouxas tira-me do sério! Especialmente em dias de vento e chuva. Cordas mal esticadas são sinal de pouca estabilidade, má resistência e fraca capacidade de resposta às intempéries. Mais cedo ou mais tarde, algo corre mal. Cordas bem esticadas, pelo contrário, permitem à tenda atingir o seu máximo potencial de acolhimento. Dão-lhe firmeza, elasticidade e margem para aguentar o temporal.
Na vida cristã acontece exatamente o mesmo. Temos alguma dificuldade em ir além do mínimo. Cumprimos, participamos, ajudamos, mas raramente esticamos as cordas até ao limite saudável do nosso compromisso. Os ingleses chamam-lhe the extra mile. Nós chamamos-lhe, muitas vezes, “exagero”. E, no entanto, é nesse “exagero” que a fé ganha corpo. Esticar as cordas é sair da zona de conforto. É servir quando já estamos cansados. É ouvir quando preferíamos falar. É ficar quando seria mais fácil ir embora. É dar o melhor de nós, não por obrigação, mas por amor.
Na unidade dos cristãos, isto traduz-se numa atitude muito concreta: não esperar que o outro dê o primeiro passo. Esticar as cordas é aproximar-se, escutar, rezar juntos, reconhecer o bem que Deus faz também fora da nossa “tenda”.
Porque uma tenda só cumpre a sua missão quando as cordas estão bem esticadas — nem frouxas, nem a rebentar.
Chegamos ao terceiro passo, talvez o mais silencioso e o mais decisivo: fixar bem as estacas.
Quem já montou uma tenda sabe que estacas mal firmadas são um convite ao desastre. Basta uma rajada mais forte e tudo começa a voar. Lembro-me sempre daqueles desenhos animados em que personagens, agarradas a estacas, desaparecem levadas pelo vento.
Na fé acontece o mesmo. Sem raízes, sem interioridade, sem uma relação profunda com Deus, tornamo-nos instáveis. Saltamos de entusiasmo em entusiasmo, de moda em moda, de discurso em discurso — mas sem consistência. Fixar as estacas é trabalhar o nosso interior. É criar hábitos de oração. É aprofundar a fé. É caminhar em comunidade. É aceitar que não somos cristãos sozinhos, mas em relação.
E aqui entra, mais uma vez, a unidade. Não apenas a unidade “em casa”, na nossa paróquia ou movimento, mas a unidade com todos aqueles que confessam Jesus Cristo como Senhor, ainda que de formas diferentes da nossa.
Sem estacas firmes, as nossas ações perdem credibilidade. Porque, no fim de contas, as ações falam sempre mais alto do que as intenções. Podemos desejar muito a unidade, mas se não estivermos enraizados no amor, na humildade e na escuta, tudo fica pela metade.
Isaías 54 não é um texto romântico. É um texto exigente. Mostra-nos que a unidade não se improvisa. Constrói-se. Dá trabalho. Exige decisões concretas.
A unidade dos cristãos não nasce de acordos perfeitos, mas de tendas alargadas. Não cresce com discursos bonitos, mas com cordas bem esticadas. Não resiste às tempestades sem estacas firmes.
Talvez por isso esta passagem seja tão atual. Vivemos tempos de vento forte. Ventos de polarização, de desconfiança, de cansaço. Ventos que testam a solidez das nossas comunidades e a autenticidade da nossa fé.
E é precisamente aqui que Deus nos chama a fazer diferente.
Por isso, deixo-vos esta semana um desafio simples, mas profundamente transformador – vamos ser máquinas de bênçãos! Sim, máquinas de bênçãos. Pessoas que abençoam mais do que criticam. Que rezam mais do que comentam. Que desejam o bem antes de apontarem o erro.
Peçamos sem cessar que o Senhor abençoe as nossas comunidades, os movimentos das nossas paróquias, as nossas famílias, os nossos amigos, os nossos projetos — e também os projetos daqueles que caminham connosco.
E, de forma muito concreta, peçamos as bênçãos de Deus para todos os nossos irmãos cristãos. Aqueles com quem não estamos todos os dias, mas também aqueles que não conhecemos, mas que vivem a mesma fé, ainda que numa confissão diferente. Porque quando Deus abençoa, o espaço da nossa tenda cresce. E quando o espaço da nossa tenda cresce, há lugar para todos.

