Há uma expressão muito nossa, tão portuguesa quanto reveladora, que usamos quando fazemos algo contrariados, apenas por obrigação ou para “ficar bem na fotografia”: dizemos que estamos a “fazer um frete”.
Nesta época do ano, se formos honestos, a nossa agenda enche-se de potenciais “fretes”. É o jantar de empresa onde não apetece ir, a compra de prendas para familiares que mal vemos, o cafezinho com os amigos que não se lembram de nós o resto do ano, a decoração que se monta por hábito e não por gosto, e até, perdoem-me a franqueza, a “caridade feita à pressa” para aliviar a consciência antes do dia 25 de dezembro.
Vivemos o Advento, o tempo da Esperança, muitas vezes mergulhados no peso da obrigação. Transformamos a maior notícia da história humana, a maior novidade, numa lista de tarefas a cumprir. E quando a fé se torna um “frete”, ela perde o sabor, a luz e a capacidade de transformar.
Olho este caminho para o Natal, não vejo um Deus que veio ao mundo “porque tinha de ser” ou porque “ficava mal não aparecer”. Abre-se à novidade da gratuidade absoluta.
Jesus não veio cumprir calendário; veio por amor desmedido. Maria não aceitou o anúncio do Anjo como quem aceita uma tarefa burocrática; ela deu o seu “Sim” numa entrega total, mesmo sabendo dos riscos. José não levou a família para o Egito como quem faz um frete; fê-lo com o instinto protetor de quem ama.
Onde há Amor, não há fretes. Pode haver cansaço, pode haver sacrifício, pode haver dor, mas não há aquela sensação amarga de estar a fazer algo apenas para “despachar serviço”.
O Grande Plano desta semana evoca o centenário de nascimento de D. João Alves, bispo de Coimbra, num exercício de memória que convocou quatro padres, “sem fretes”, a falarem desta figura que marcou a diocese, pós revolução de abril e com ventos conciliares. Um deles deu uma entrevista ao Correio de Coimbra, trouxe memórias que “não estão na biografia”, e recordou o suplemento “Igreja Viva”, uma manobra do então bispo, herança que se vai mantendo até aos dias de hoje, aproximando comunidades e sabendo uns dos outros.
Falta pouco caminho para o Natal, que este tempo que ainda resta sirva para limpar os “fretes” espirituais e sociais. Que tudo o que fizermos leve o selo da gratuidade e da alegria, porque amar nunca será um frete.

