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Esperar, esperar – e já está!

Ana Queirós

Ana Queirós - Para nos pensaremos

Com alguma frequência ouvimos dizer que vivemos numa sociedade impaciente. Queremos tudo rápido, imediato, à distância de um clique. Esperar tornou-se quase um defeito, um sinal de fraqueza ou de perda de tempo. E, no entanto, a vida – a verdadeira vida – continua a ensinar-nos exatamente o contrário: há coisas que só amadurecem com o tempo, há encontros que só fazem sentido depois de um caminho feito, há dons que só podem ser acolhidos por um coração que aprendeu a esperar.

Talvez por isso a espera nos custe tanto. Porque nos obriga a parar, a escutar, a reconhecer que não controlamos tudo. A espera desmonta-nos. Coloca-nos diante de nós próprios, sem distrações, sem ruído. E isso, convenhamos, não é confortável. Preferimos a agitação, a sucessão de acontecimentos, o “já a seguir” – mesmo que isso nos impeça de aprofundar o essencial.

No entanto, quando a espera é bem vivida, ela transforma-se num verdadeiro caminho espiritual. A espera boa – aquela que não é vazia nem resignada – prepara-nos. Prepara o coração, afina o olhar, educa o desejo. Ensina-nos a fazer caminho não apenas sozinhos, mas com os outros. Quem espera aprende a partilhar, aprende a cuidar, aprende a reconhecer sinais pequenos que, de outra forma, passariam despercebidos. A espera cria comunidade, porque ninguém espera verdadeiramente sozinho.

O problema maior não está, curiosamente, no tempo da espera, mas no momento em que aquilo que esperamos finalmente chega. Quantas vezes, depois de dias, semanas ou meses de preparação, nos deixamos engolir pela apoteose do momento? A emoção, a intensidade, o brilho toldam-nos. Esquecemo-nos rapidamente do caminho feito, do coração preparado, das perguntas que nos acompanharam. E aquilo que deveria ser vivido como plenitude acaba por se tornar apenas mais um instante que passa depressa demais.

Esta reflexão acompanhava-me no passado domingo, quando estive presente na cerimónia nacional da Partilha da Luz da Paz de Belém, em Aveiro. Havia naquele espaço um ambiente de expectativa palpável. Crianças, jovens, adultos, escuteiros e não escuteiros, todos reunidos em torno de uma luz que vem de longe. Uma chama pequena, frágil, quase insignificante aos olhos de quem procura grandes espetáculos. E, no entanto, carregada de um simbolismo imenso.

Estamos ali, ansiosos, à espera. Esperamos o momento de receber a luz, de a levar connosco, de a partilhar. Há música, palavras, gestos que ajudam a criar este momento de espectativa e maravilhamento. E tudo isso é importante. Mas, enquanto observava aquela chama a passar de mão em mão, uma pergunta insistia em ecoar na minha cabeça: e depois? O que acontece depois da cerimónia terminar? O que acontece quando regressamos a casa, quando a rotina retoma o seu ritmo habitual?

O risco é real: o de nos esquecermos rapidamente de que levamos connosco uma luz tão pequena, tão frágil, mas tão especial. Uma luz que não serve apenas para ser exibida por alguns dias, mas para iluminar caminhos concretos, gestos simples, relações feridas. Uma luz que exige cuidado, atenção, compromisso. Porque uma chama assim apaga-se facilmente se não for protegida.

Talvez esta seja uma boa imagem para este nosso final de Advento – e, arrisco dizer, para a fé cristã como um todo. Passamos semanas à espera, a preparar-nos, a ouvir anúncios de esperança, a acender velas progressivamente. E quando o Natal chega, corremos o risco de nos perdermos no barulho, nos excessos, nas agendas cheias. Celebramos o nascimento, mas esquecemo-nos de acolher a presença. Admiramos a luz, mas não a deixamos transformar o nosso quotidiano.

No final desta caminhada de Advento, peço que o Senhor nos recorde precisamente isto: a espera não é um fim em si mesma. A espera é preparação para o que vem. E o que vem não é um evento que passa, mas uma presença que fica. Deus não vem apenas visitar-nos por um dia – vem habitar connosco. Vem fazer morada no meio das nossas fragilidades, das nossas rotinas, das nossas contradições.

O Natal não é apenas a memória de um nascimento distante no tempo. É a certeza de que Deus continua a nascer no meio de nós – aqui e agora. E que esse nascimento pede continuidade, permanência, fidelidade. Não basta montar o presépio – é preciso deixar que Ele ganhe espaço dentro de nós. Não basta acender a vela – é preciso protegê-la do vento que a pode apagar.

Que este Natal não nos deixemos roubar pelo esquecimento rápido do essencial. Que não passemos da espera à euforia sem permitir que o nosso coração seja verdadeiramente transformado. Que saibamos reconhecer, na pequena chama que recebemos, o convite a sermos luz uns para os outros.

Que o Menino que vai nascer possa, de facto, nascer e permanecer connosco. Nas nossas casas, nas nossas comunidades, nas nossas escolhas diárias. E que, quando o brilho exterior do Natal se apagar, a Sua presença continue acesa dentro de nós, silenciosa talvez, frágil à vista, mas profundamente real e transformadora.

Ana Queirós

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