“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16). Esta profecia de Isaías, cumprida em Cristo, continua a ser uma promessa viva para o nosso tempo. As trevas de que fala o Evangelho são também as trevas da divisão, do ódio, da incapacidade de reconhecer no outro um irmão e uma irmã. Jesus vem dissipar essas trevas com um apelo claro: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus” (Mt 4,17). O arrependimento que gera conversão é passar da experiência de um coração que se fecha à alegria de uma coração que se alarga; do individualismo destruidor à fraternidade fecunda; da exclusão que mata ao acolhimento que dá vida; das trevas da morte à luz da eternidade.
Nesse sentido, o relato da vocação dos primeiros discípulos é profundamente significativo: Jesus não chama indivíduos isolados, mas pessoas em relação: Pedro e André, Tiago e João. Desde o início, o projeto de Jesus é comunitário, fraterno. O “vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens” (Mt 4,19) é um convite não para uma espiritualidade solitária, mas para uma missão partilhada, vivida em comunhão. Que redes precisamos deixar? As redes das nossas certezas excludentes, dos nossos preconceitos, das divisões entre “nós” e “os outros”. Para seguir Cristo, devemos abraçar a lógica do Reino: inclusão, perdão, reconciliação, fraternidade e comunhão.
São Paulo, na carta ao Coríntios, confronta-nos com as divisões na comunidade: “Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós” (1Cor 1,10). Quantas vezes nós cristãos nos dividimos por causa de sensibilidades, correntes de pensamento ou questões ideológicas, esquecendo que todos pertencemos ao mesmo Cristo? A Palavra de Deus e os mistérios da fé não nos foram dados para dividir, mas para unir; não são propriedade de nenhum grupo, mas dom do Espírito para toda a Igreja. Quando nos reunimos à volta da Palavra, na escuta orante e na partilha fraterna, experimentamos antecipadamente o gozo da eternidade: pessoas diferentes unidas pelo mesmo amor de Cristo.
O nosso tempo conhece uma proliferação preocupante de discursos de ódio e de polarização, marcados por um neoimperialismo xenófobo e racista, que tende a relativizar a dignidade de cada ser humano. Este fenómeno é radicalmente incompatível com o Evangelho de Cristo, que tantos dizem defender. Jesus não excluiu ninguém: comeu com publicanos, tocou os leprosos, dialogou com samaritanos, perdoou as mulheres de má vida, curou os estrangeiros. A sua palavra era exigente, mas nunca condenatória. Todo o discurso que põe em causa a dignidade humana, que incita ao ódio ou à violência é contrário ao espírito do Evangelho de Jesus. Os cristãos são chamados a ser artífices da paz, construtores de pontes, profetas da reconciliação.
As palavras de Paulo ecoam com força: “Cristo está dividido?” (1Cor 1,13). A divisão dos cristãos enfraquece o nosso testemunho e contradiz a oração de Jesus: “Que todos sejam um, para que o mundo acredite” (Jo 17,21). A busca da unidade não é estratégia, mas exigência evangélica. O caminho passa pela escuta recíproca, pelo reconhecimento humilde dos nossos limites, pela valorização daquilo que nos une. Passa, sobretudo, pela centralidade de Cristo e da sua Palavra.
A fraternidade não é uma opção, mas é o coração da nossa identidade de filhos de Deus. Jesus chamou-nos para formarmos uma comunidade que, pela sua existência, testemunha a possibilidade de uma humanidade reconciliada. Esta fraternidade exige coragem para ultrapassar barreiras étnicas, culturais ou sociais. Exige que vejamos em cada pessoa, especialmente na mais vulnerável, o rosto de Cristo. A fraternidade cristã torna-se sinal profético num mundo obcecado pela competição e pelo individualismo.
Somos, por isso, chamados a deixar as redes das nossas divisões e a seguir Jesus no caminho da fraternidade; a rejeitar todo o discurso de ódio e a promover uma cultura do encontro; a fazer da Palavra de Deus não uma arma de confronto, mas um apelo à comunhão. Que a luz de Cristo ilumine o nosso tempo, dissipando as sombras da divisão e as trevas do ódio e do abismo. Que a sua Palavra nos una e nos lance na missão de sermos pescadores de homens, artífices de reconciliação, testemunhas da fraternidade universal.
“Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus.” Este Reino começa aqui e agora, cada vez que escolhemos a comunhão em vez da discórdia, o amor em vez do ódio, a fraternidade em vez da indiferença. Que neste domingo da Palavra de Deus, em que rezamos pela Unidade dos cristãos, possamos reconhecer que em Cristo, o Verbo do Pai, todos somos um.

