António Cabral de Oliveira

António Cabral de Oliveira - Para nos pensaremos

1Vai por aí uma enorme gritaria, não só partidária, contra a obrigatoriedade de compensação de um pequeno serviço público àqueles que beneficiem da, agora, Prestação Social Única. E não entendo, de todo, porquê. Será que (e também discordo do apelo à denúncia) as esquerdas, defensoras da ‘caridade’ permanente do Estado – e os habituais bem-pensantes que acham que tudo é um inexpugnável direito de todos – consideram que o trabalho não é dignificador da pessoa humana, que o ressarcimento por alguma atividade social não contribui para uma melhor reinserção daqueles que, seja por que motivo for, não têm, de momento, condições para viver de modo próprio, livre e plenamente, em sociedade? Se calhar preferem vê-los de mãos nos bolsos, permanentemente sentados pelas esquinas, a desperdiçarem competências enquanto outros se esforçam nos seus labores. Escravatura, castigo, vingança, coerção, sei lá que mais, a imensidão de despropósitos políticos que…a propósito se ouvem! 

2Ao fim de uma quase odisseia, após meses de negociações e seis adiamentos, fez-se fumo branco sobre a lista conjunta PSD, Chega e PS para eleição dos quatro juízes (em falta) no Tribunal Constitucional. Como tudo se torna mais fácil quando se harmonizam – o que importam, afinal, os interesses coletivos dos portugueses! – os ‘negócios’ privados dos partidos. Que, nunca o esqueçamos, ainda somos nós, felizmente, nas nossas responsabilidades políticas, quem os elege… 

3Com o Portugal que trabalha, a trabalhar, aqueles que se empregam no Estado, de braços caídos, lá decorreu, evidentemente convocada pelos extremismos de esquerda – é preciso continuar a garantir não um futuro mais próspero, mas os cómodos laborais conquistados – mais uma greve geral da CGTP. Há de ir longe, assim, contudo tão importante nos seus fundamentos essenciais, o sindicalismo no nosso país…

4Quando todos nos preparamos para ir a banhos, o ministério do Ambiente tornou claríssimo, a propósito das concessões balneares, que as áreas das praias não abrangidas por aquelas licenças – que, em verdade, garantem a contratação de nadadores-salvadores, limpeza do areal, passadeiras e instalações sanitárias –, se mantêm disponíveis para o público em geral, podendo (mesmo as frentes de mar fronteiras aos espaços reservados) ser livremente utilizadas pelos cidadãos. Ficam garantidos, assim, os direitos de usufruição de um património que é de todos. Queira Deus que os portugueses saibam agora afirmar as suas responsabilidades de respeito comunitário no seu bom uso. 

5A eleição de Portugal para o Conselho de Segurança das Nações Unidas – alcançada, inédito, logo na primeira volta – é um facto da maior relevância para o nosso país e uma vitória (que foi recebida de forma ‘futebolisticamente’ esfusiante no hemiciclo de Nova Iorque) para a diplomacia lusa, que se empenhava no desiderato desde há mais de uma década. É evidente que a ONU não assume hoje o papel preponderante de concerto entre as nações para que foi criada, que se acham enfraquecidas as suas capacidades de manutenção da paz e da segurança, e que estão cada vez mais longe os fundamentos do direito internacional e do multilateralismo. Contudo, apesar do veto possível dos EUA, Rússia e China, que com a França e Reino Unido são seus membros permanentes, é com certeza importante partilhar um órgão restrito que, mesmo mais tenuemente, pode influenciar o futuro do mundo. 

6Envolto ainda em incongruências políticas – não estão esclarecidos o futuro do programa nuclear iraniano nem a total reabertura do Estreito de Ormuz – os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão chegaram, sob mediação paquistanesa, a um Acordo de Paz em que ambas as partes declaram o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano. O mundo, assolado por uma crise petrolífera que tem desregulado a economia, aguarda para ver a exata evolução do processo, designadamente a postura israelita do governo de Netanyahu. 

7Absolutamente dependentes – também pelas suas disparatadas políticas de expansão – a América e a Rússia, leia-se Trump e Putin, lá foram prestar, um após o outro, ‘vassalagem’ ao novo imperador da China. Que, entretanto, para completar o ramalhete, se deslocou em visita oficial à Coreia do Norte onde deixou reiterada, muito significativo, nas palavras de Xi Jinping para o igualmente ominoso Kim Jong-Un, e cito, uma amizade que se renova sempre. 

8A deslocação do Papa Leão XIV a Espanha, a todo o tempo envolvida pelo carinho de milhões de fiéis, constitui-se num êxito imenso e foi uma oportunidade, outra, para o Santo Padre, desafrontadamente, se debruçar sobre algumas das mais candentes inquietações da Igreja e do Mundo, designadamente a valorização do humano, a dignidade dos migrantes, a paz e o direito internacional. Recebido pelo Rei Felipe VI, e sempre acompanhado por Pedro Sánchez – que não deixou de ver na visita uma oportunidade para melhorar a imagem política interna, tão desgastada na sequência dos escândalos de corrupção que envolvem familiares diretos e altos dirigentes do Partido Socialista –, o Sumo Pontífice esteve em Madrid e Barcelona, também nas Canárias. 

9Há cada vez mais drogas ilegais à venda aqui no Velho Continente, com acrescida potência e pureza e, de acordo com a respetiva Agência da União Europeia, estamos – salvo seja, como diria o nosso povo – a consumir em maior número vários tipos ao mesmo tempo. Portugal não é exceção, e segue a tendência, diz o Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, nomeadamente na canábis e cocaína, sendo também preocupante o aumento das substâncias sintéticas opioides. E assim vamos fazendo caminho, aqui pelo Ocidente, para a nossa própria autodestruição…

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