- Para nos pensarmos

A coragem de permanecer

Ana Queirós

Ana Queirós - Para nos pensaremos

Vivemos num tempo em que ser aceite se tornou uma necessidade quase vital.

Gostamos de ser apreciados. Gostamos de receber aprovação. Gostamos de sentir que pertencemos a um grupo, a uma comunidade, a uma causa. E não há nada de errado nisso – fomos criados para a relação.

O problema surge quando a necessidade de sermos aceites se torna maior do que a vontade de sermos fiéis.

Então começamos a medir as palavras, a esconder convicções, a evitar temas incómodos, a dizer apenas aquilo que sabemos que será bem recebido.

A pouco e pouco, a procura de aprovação torna-se mais importante do que a procura da verdade.

Este domingo ouviremos falar de Jeremias. Jeremias é apresentado como um homem profundamente sozinho. Não porque fosse arrogante. Não porque procurasse o conflito. Não porque gostasse de ser diferente. Está sozinho porque decidiu ser fiel. Anunciou uma mensagem que ninguém queria ouvir, alertou para caminhos errados, denunciou injustiças. Recusou adaptar a palavra de Deus às expectativas das pessoas.

E pagou um preço por isso. Foi rejeitado pelos seus, ridicularizado, perseguido, abandonado.

A fidelidade nunca foi o caminho mais fácil. E, no entanto, continua a ser o único capaz de dar sentido à vida.

Jesus não engana os discípulos. Quando os envia em missão, não lhes apresenta uma proposta confortável. Não promete sucesso garantido. Não promete aplausos. Não promete que todos os compreenderão. Diz-lhes claramente que encontrarão resistência, oposição e incompreensão.

É curioso porque nós, tantas vezes, pensamos que as dificuldades são sinal de que estamos no caminho errado. Mas Jesus sugere exatamente o contrário: por vezes, as dificuldades são precisamente consequência de estarmos no caminho certo.

Quem procura viver o Evangelho a sério acabará inevitavelmente por remar contra a corrente em algum momento.

Num mundo onde prevalece a lógica do interesse próprio, o Evangelho fala de serviço.

Num mundo que incentiva a acumular tesouros, o Evangelho fala de partilha.

Num mundo que valoriza a aparência, o Evangelho fala de autenticidade.

Num mundo que promove o individualismo, o Evangelho fala de comunhão.

Num mundo que proclama o “eu primeiro”, o Evangelho continua a propor o amor ao próximo.

E isso nem sempre é bem recebido.

Talvez hoje a perseguição não tenha, para a maioria de nós, a forma dramática que assumiu noutros tempos ou que continua a assumir em algumas partes do mundo. Mas existem outras formas de pressão: a pressão para nos conformarmos, a pressão para permanecermos em silêncio, a pressão para diluirmos aquilo em que acreditamos.

A pressão para vivermos uma fé que não incomode ninguém e que, por isso mesmo, acaba por não transformar nada.

É aqui que as palavras de Jesus ganham uma força extraordinária: “Não temais.”

Não é apenas um conselho. É uma promessa.

Porque Jesus não envia os discípulos sozinhos.

A grande mensagem que ouviremos este domingo não é a existência da perseguição – é a certeza da presença de Deus.

Jeremias não caminhou sozinho. Os discípulos não caminharam sozinhos. Nós também não caminhamos sozinhos.

Deus não promete retirar todos os obstáculos do caminho. Promete algo maior: caminhar connosco através deles.

Talvez seja essa a diferença entre o medo e a confiança: o medo faz-nos olhar apenas para as dificuldades, a confiança permite-nos olhar para Aquele que caminha ao nosso lado.

São Paulo recorda-nos outra verdade essencial – há duas formas de viver: uma vida centrada em Deus, que gera vida, e uma vida centrada apenas em nós próprios, que acaba por gerar morte.

À primeira vista, o caminho do egoísmo parece mais simples. Exige menos. Pede menos sacrifício. Evita conflitos. Procura o conforto. Mas, no final, deixa o coração vazio.

Já o caminho da fidelidade exige coragem. Obriga a escolhas difíceis. Nem sempre é compreendido. Nem sempre é reconhecido. Mas é o único que conduz à verdadeira vida.

O que é que orienta as minhas escolhas? A procura da aprovação dos outros ou a fidelidade a Deus?

Porque, no fim, a vida não se mede pelas vezes em que fomos aplaudidos, compreendidos ou aceites por todos. Mede-se pela coragem de permanecer. Permanecer quando seria mais fácil desistir. Permanecer quando a fidelidade tem um custo. Permanecer quando nem todos compreendem as nossas escolhas. Permanecer – mesmo quando o caminho se torna difícil.

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