1. Neste domingo, somos convidados a assumir a nossa condição de discípulos de Cristo com decisão e coerência, se necessário até à entrega da própria vida. Chamados a viver aquela dimensão fundamental do nosso batismo, que é a de sermos participantes da missão da Igreja, vivendo a atitude profética que o Senhor confiou a todos, na diversidade de carismas e ministérios, característica da comunidade de Cristo, a Sua Igreja.
O tempo hodierno pressupõe, por parte dos cristãos, um testemunho claro, decidido e sem equívocos, dos valores do Reino de Deus. Para tal, é necessária, em primeiro lugar, uma renovada convicção da condição de batizado e da sua missão, não nos permitindo determo-nos numa vivência cristã cómoda, descomprometida e sem a assunção própria do dinamismo da fé, que mais não é senão assentimento à vontade de Deus, a nosso respeito e a respeito do mundo. Numa palavra, sermos verdadeiros discípulos do Mestre, na hora presente.
Depois, sem maniqueísmos, há que assumir que a cultura atual não partilha, em muitos aspetos, a perspectiva cristã; não para exercermos qualquer domínio, mas sempre, e só, para defendermos os valores fundamentais da vida e da convivência humana, que integramos, na consciência da dignidade da pessoa e na promoção do bem comum. Valores como a salvaguarda da vida humana, em todas as suas fases, a promoção da verdade, da justiça, da equidade, da honestidade, do serviço abnegado à promoção da pessoa e da sociedade, parecem estar cada vez mais distantes, numa sociedade que se organiza mediante outros pretensos valores e objetivos. Certamente entre vivências sociais positivas e outras marcadamente negativas.
Ora, neste contexto, a perseguição atual, de que nos falam a primeira leitura e o Evangelho, não advêm tanto de uma perseguição física, mas sim de uma certa catalogação do discurso cristão, assumido como conservador, antiquado; relegando-o, quantas vezes, para uma dimensão de insignificante, com menor espaço na vivência pública.
É aqui, neste enquadramento histórico-social, que é o nosso, que ecoam as palavras do Mestre: «nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se» (Evangelho), desafiando-nos à mesma decisão, determinação e coerência de discípulos Seus, que Ele envia a este mundo, que ama e quer salvar. Sabendo que Ele mesmo caminha connosco e nada havemos de temer, mesmo no meio de adversidades.
2. As leituras deste domingo remetem-nos exatamente para aqui. Em primeiro lugar, Jesus repete, no Evangelho, a expressão «não tenhais medo», confiando-nos a missão, pedindo-nos decisão, conscientes de que não caminhamos sós, mas fortificados e protegidos por Ele, com a força do Seu Espírito. E mesmo que as realidades sejam adversas, porque a perseguição é inerente ao anúncio da Boa Nova («o discípulo não é superior ao Mestre» Mt. 10, 24), sabendo confiar no triunfo da Sua Palavra. Realizando, assim, aquela bem-aventurança, que o Senhor proclamou: «bem-aventurados sereis quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós» (Mt. 5, 12). Depois, vivendo aquela atitude de confiança e ação de graças que Jeremias, na primeira leitura, tão bem expressa. Aliás, atitude que encontramos sempre nos mártires de todos os tempos, que são exemplo de fidelidade para todos nós. Não vitimizando-nos, mas aceitando as contrariedades por um bem maior: o anúncio do Reino e a sua construção, como valor definitivo para a salvação de todos os homens.
3. O compromisso, a que somos chamados, é, pois, o de viver esta missão de anúncio e realização do Reino de Deus, mesmo, e particularmente, nas condições adversas (de “perseguição”); confiando no Senhor, na sua força e na Sua presença. Mas para tal, necessitamos de uma contínua renovação da nossa identidade e missão de batizados, que nos retire de alguma letargia, de vivências cómodas, ritualizadas, para sermos, efetivamente, discípulos do Mestre para esta hora do mundo e da Igreja.

