1 Não me revejo, obviamente, no artigo primeiro da Constituição quando se afirma que Portugal é uma República, tão pouco, Deus nos livre, defendo caminhos para uma sociedade socialista. Contudo, perante os tantos e graves problemas políticos, económicos e sociais que se abatem sobre o nosso país – à semelhança, aliás, designadamente, de toda a civilização ocidental –, não percebo, salvo por meras quezílias de afirmação partidária, a necessidade premente de uma revisão constitucional. Deixemo-nos de rodriguinhos e enfrentemos, antes, as dificuldades que, crescentemente, vão continuar a levantar-se aos portugueses. Porque, essa sim, deverá ser a maior preocupação das celebrações do cinquentenário do texto fundamental que, embora não intocável nem imutável, nos garante a liberdade, a democracia, o Estado de direito.
2 Portugal, o segundo mais envelhecido membro da União Europeia (apenas atrás da Itália), continua muito deficitário em residências sénior, carência que, perante alguma displicência estatal, tem conhecido um agravamento nos últimos anos para atingir, no presente, um ponto de rutura com estruturas completamente lotadas e a praticarem preços proibitivos. De facto, quando o salário médio líquido nacional mal atinge os 1.200 euros, e a pensão da maioria dos nossos anciãos oscila entre os 600 e os 900 euros, como liquidar mensalidades cujo valor mediano atinge os dois mil euros, e com as tipologias mais económicas, para quartos triplos – continuo a citar um estudo da Via Sénior –, de 1.500 euros?
3 Os preços das casas em Portugal, com aumentos, imagine-se, de 180%, quase triplicaram entre 2015 e o passado ano. De acordo com o Eurostat, estes valores – só na Hungria são piores –, evidenciam que o nosso país registou a segunda maior subida na União Europeia. Uma realidade, cuja tendência se mantém, verdadeiramente preocupante, sobretudo quando comparamos com os baixos salários que, de uma forma generalizada, continuamos a auferir. E para a qual não se observa a assunção de políticas governamentais concretas, sobretudo através da construção de habitação a preços acessíveis, que levem a uma evolutiva superação do problema.
4 Neste país de navegantes, e contrariando a sua vocação marítima, o ‘atlantista’ Portugal, anualmente demandado por milhares de navios mercantes, e uma ainda assim relevante frota nacional, não dispõe, inimaginável, de qualquer rebocador estatal de salvamento em alto mar. Uma realidade evidenciada (há, ou havia, um plano para a existência de dois daqueles barcos, a norte e a sul), com o incidente que deixou o cargueiro Eikborg sem leme quando saía da barra do porto da Figueira da Foz, e que teve de ficar a aguardar, à deriva, por socorro de um navio…norueguês!
5 Seguindo o primado da força em detrimento da razão, na sequência do politicamente insensato ataque militar norte-americano ao Irão (antecedido pela invasão da Venezuela, e quando já perspetiva idêntica postura em relação a Cuba), Donald Trump, sem conseguir levar de vencida o odioso e agora reforçado regime dos ayatollahs, empenha-se, contraditoriamente, em encontrar uma solução diplomática – mas o que hoje é verdade, amanhã não o é – para um conflito que provocou já, de âmbito mundial, nas suas diversas consequências, uma gravíssima crise energética. Enquanto, por apenas atender aos belicosos interesses israelitas, perde, de facto, contraproducente, influência geopolítica naquelas terras do Médio Oriente.
6 Vitória libertadora para a Hungria, mas também para os valores que politicamente enformam a União Europeia, Péter Magyar derrotou, com estrondo, Viktor Orbán, crescentemente iliberal, admirador do trumpismo, cada vez mais amigo de Putin. Em muito participadas eleições legislativas, com a oposição unida em torno do novo partido da direita, o Tisza (ou, então, sem apresentarem outras candidaturas), o povo húngaro, com ampla maioria de dois terços – viabilizadora de uma revisão constitucional –, deixou afirmada a sua vontade de inteira democratização das instituições, de plena integração na Europa. Enquanto gritava, em multidão, cidades fora, tão significativo, “russos vão para casa”!
7 Depois de bombardear preferencialmente equipamentos energéticos que condenaram as populações civis a outro tenebroso inverno, a Rússia, aproveitando as vantagens económicas do alto preço do petróleo (muito agradecido a Trump deve estar Putin!) cumpre, lamentável mas sem surpresa, com o mundo ‘distraído’ por outras guerras, a ofensiva primaveril da bárbara invasão da Ucrânia. Mantenhamos, entretanto, a esperança de que, já sem o vergonhoso veto húngaro, o empréstimo europeu possa chegar ainda a tempo de os exércitos de Kiev alcançarem responder, com suficiente pujança, na defesa do seu território.
8 Em boa verdade, as eleições municipais francesas – as menos participadas dos últimos anos –, confirmando embora a ascensão dos extremos, não trouxeram surpresas de maior: a direita nacionalista de Marine Le Pen e Jordan Bardella manteve bons resultados em muitas cidades médias; o radicalismo esquerdista dos Insubmissos reafirmou posições; o socialismo tradicional resistiu nas grandes cidades (desde logo Paris e Marselha); o centro macronista perde fôlego, mas segura figuras importantes como Edouard Philipe. E não deixam claro que se tenham constituído em suficiente sondagem para as presidenciais do próximo ano.
9 Na sequência do Mercosul e da Índia, a União Europeia assinou um novo acordo comercial, agora com a Austrália, que prevê a eliminação de tarifas sobre a quase totalidade das exportações de bens da UE para aquela região do Indo-Pacífico, que poderão vir a crescer mais de 30%, estima-se, na próxima década. Mantendo-se a taxação atual sobre o ferro e o aço em ambos os sentidos, também quotas de entrada em alguns produtos alimentares australianos, mas um acesso facilitado a matérias primas como o lítio, o documento ganha particular relevância face a dependências da China e, ainda, das políticas protecionistas de Trump neste seu regresso à Casa Branca.

