Vivemos tempos de uma urgência visual quase frenética. Em qualquer evento, celebração ou monumento, a paisagem humana é dominada pelo braço estendido e pelo ecrã iluminado. A “selfie”, essa busca incessante pelo melhor ângulo de nós próprios, tornou-se a prova máxima de existência. Sorrimos para a câmara, muitas vezes ignorando quem está ao nosso lado, e fazemos figuras que, num olhar externo, podem ser estranhas.
Numa das últimas conferências em que estive, na fila da frente sentou-se uma senhora, tirou o telemóvel da mala, fotografou, filmou. Tirou umas tantas selfies de vários lados, para “dar para ver onde estava” e, passados breves minutos, saiu. Distraiu-me, é certo… Mas fiquei a pensar na “falsidade” daquelas imagens. O que acontece quando o “flash” se apaga? O que resta depois da imagem?
A vida rotineira e de ritmo frenético, do querer chegar a todo o lado, em que a sociedade nos impinge para viver é espelho destas selfies que “ponteiam” sítios num mapa desejado.
O Grande Plano desta semana traz a exposição “Nunes Pereira: Traço 1927-2001”, no Seminário Maior de Coimbra. Visitámos. Ali, senti que não há pressa. O Monsenhor Nunes Pereira não precisava de filtros para captar a alma do mundo, não estendia o braço para se incluir na cena; ele estendia a mão, com um lápis ou uma caneta de feltro, para imortalizar o outro, a paisagem, o lugar ou a circunstância. Vale a pena a visita para se surpreender com os 135 desenhos.
Com o Correio de Coimbra na pausa de Páscoa, o Bispo de Coimbra foi eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e, esta terça-feira, falou ao jornal, recordando o Papa Francisco. Apontou que a “Igreja não pode estar distante do mundo como se fosse uma realidade à parte”, mas ser “uma Igreja presente, aberta, em diálogo, em saída, evangelizadora”.
A Igreja que hoje procuramos é a coerência da presença, uma Igreja que, como o traço do mestre Nunes Pereira, sabe que a verdadeira paz não se encontra na imagem perfeita, mas na verdade do encontro.
Onde a selfie é individualista, a arte do Monsenhor é comunitária e silenciosa. Temos de aprender a baixar os telemóveis e a levantar os olhos, a Igreja que o mundo precisa não é aquela que posa para a fotografia, mas aquela que, como o artista-padre de Coimbra, sabe ler o sagrado no quotidiano e desenhar a esperança com a simplicidade de quem sabe estar, verdadeiramente, presente.
Entendo que é esse o convite que a memória do Monsenhor Nunes Pereira nos faz.

