• Home  
  • Desenhos: «a base da obra»
- Grande Plano

Desenhos: «a base da obra»

No ano de comemorações revela-se o traço do Monsenhor Nunes Pereira, através de uma exposição de 135 desenhos, “base da obra” do artista, 120 depois do seu nascimento.

«A beleza do traço inconfundível»

No Seminário Maior de Coimbra pode ser visitada a Oficina Museu Monsenhor Nunes Pereira. Nestes tempos está diferente e acolhe a exposição “Nunes Pereira: Traço 1927-2001”, que reúne desenhos guardados há décadas. O Correio de Coimbra foi visitar mostrando que os “artistas nunca morrem”.

Cidália Santos, responsável pela Oficina-Museu, revela o homem por trás da obra. Numa exposição inédita que reúne uma coleção de desenhos descobre-se o “traço decidido” de um mestre que desenhava em guardanapos e em pedaços de toalhas de mesa, todo o ambiente servia para desenhar. 

No âmbito das comemorações dos 120 anos do seu nascimento e dos 25 anos da sua morte, a Oficina-Museu abre as portas a uma face menos conhecida, mas fundacional, do mestre: o desenho.

“O desenho é a base de tudo. Sem esta base, ele não teria sido o maior gravador, o mestre do ferro forjado ou do vitral”, afirma Cidália Santos, que, desde 2017, guarda o espólio do artista. 

Na nova exposição, intitulada “Nunes Pereira: Traço 1927-2001”, o público é convidado a mergulhar numa seleção minuciosa de 135 desenhos, escolhidos entre mais de quatro mil peças.

“Normalmente, as exposições anteriores englobam sempre a xilogravura ou o ferro forjado. E eu sabendo que ele tem um espólio de desenho e um traço maravilhoso, pensei que os desenhos tinham de ser vistos pelo público em geral. Para concebermos esta exposição, foram vistas mais de quatro mil peças, depois tínhamos que fazer uma pré-seleção de cerca de 500, e daí passou para 135 desenhos”, conta.

A história deste espaço remonta a 1995, quando o Padre Aurélio de Campos convidou, o já idoso, Monsenhor a viver no Seminário. 

“Arranjaram-lhe este espaço, que estava cheio de tralhas, para ele poder continuar a trabalhar”, recorda Cidália. 

Ali, Nunes Pereira trabalhou até ao fim da vida, em 2001. Mais tarde, por ocasião do centenário do seu nascimento, o espaço foi reorganizado com o apoio do Museu Nacional Machado de Castro para se tornar o que é hoje, um museu de memória e criação.

Desde 2017, sob a gestão de Cidália Santos, o espaço ganhou uma nova dinâmica com exposições temporárias. 

“Tentámos dar um novo cunho. Em 2019 chegámos a fazer três exposições num ano, mas percebemos que as pessoas precisavam de tempo para absorver a obra e agora as exposições são anuais, permitindo visitas repetidas”, indica.

Embora nunca tenha conseguido as bolsas que pretendia na década de 50, Nunes Pereira foi um autodidata voraz e, “por onde passava, criava uma oficina”, conta Cidália. 

De Montemor-o-Velho, onde ensinou jovens a desenhar em 1934, a Côja, de São Bartolomeu à Portela do Mondego, o “mestre sentia a necessidade física de criar”.

A exposição atual revela um artista que não se fechava na sacristia nem na Igreja. Nunes Pereira era um observador atento do mundo e “desenhava na Brasileira, no Arcádia, no autocarro ou durante reuniões”. 

“Qualquer material servia. Ele desenhava em pedaços de toalhas de mesa, ou guardanapos, e depois entregava às pessoas”.

Entre as peças em destaque encontra-se o retrato da sua mãe, Ana Gomes, datado de 1927, a mãe foi a sua “coluna” após a morte prematura do pai. 

Outro destaque para o desenho de um Cristo esculpido pelo próprio pai de Nunes Pereira (António Nunes Pereira, também artista), revelando uma linhagem de talento que o Monsenhor fez questão de documentar.

A evolução do traço é visível ao percorrer a sala. Se nas primeiras décadas o estilo era académico e pormenorizado, a partir dos anos 60, com o aparecimento da caneta de feltro, o artista “soltou o traço”.

“É a prova de que ele não era um artista alienado do mundo. Ele captava a essência das vivências, desde as mulheres no lavadouro às paisagens de França, Alemanha ou do seu amado Algarve”, sublinha a responsável.

Para Cidália Santos, que confessa uma paixão crescente pela obra de um homem que nunca conheceu pessoalmente, Nunes Pereira é definido pela “beleza do traço inconfundível”. 

“Olhamos para uma peça e sabemos que é Nunes Pereira, sem ser preciso estar assinada”, refere.

A exposição pode ser visitada todos os dias, das 10h às 12h00 e das 14h00 às 18h00. Ao fim-de-semana, tem de ser por marcações. 

A partir do início do mês de maio a Oficina Museu vai promover uns encontros especiais. 

“Às últimas sextas-feiras de cada mês haverá visitas guiadas com convidados de várias áreas, das artes e da literatura, culminando num lanche partilhado, como o mestre tanto gostava de aliar o convívio”, informa Cidália Santos.

2026 © Correio de Coimbra  |  Desenvolvido por fredericomartins.pt