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Quem são os felizes do evangelho?

P. Nuno Santos

Padre Nuno Santos - Comentário à liturgia dominical

Jesus fala de felicidade e do modo como a podemos alcançar. Diz aos apóstolos que serão felizes se o imitarem no lava-pés (cf. Jo.13,15-17) e às multidões falou da felicidade dos que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.

No evangelho de hoje, início do Sermão da Montanha, fala de 9 caminhos para a felicidade. Trata de um contra-lógica, de uma escandalosa provocação à mentalidade comum.

Neste sentido as bem-aventuranças são um manual de felicidade, um código que nos indica o caminho para sermos felizes. Por isso, podemos dizer que é, de algum modo, a «Carta Constitucional dos cristãos» (Fernando Ventura).

A palavra original grega que habitualmente traduzimos por ‘bem-aventurado’ é makárioi, que vem de makários e quer dizer «feliz».

O interessante do texto é que não diz que são felizes os que têm muito dinheiro, ou os que têm um grande estatuto, ou quem tem um bom carro, ou quem tem uma enorme casa, ou o top dos smartphones. O texto também não diz que é feliz quem é muito forte, muito atlético, muito bonito, quem usa roupa da marca X ou perfume da marca Y.

Todavia, não são estes os que ‘reinam’?, não é isto que nos ‘ensinam’?, não é isto que todos procuramos?, não é esta a lógica do mundo onde vivemos?

Lido de forma imediata e superficial o texto diz-nos coisas incompreensíveis: são felizes os pobres, os que choram, os que passam fome, os que são perseguidos… Parece que temos um Deus cruel e uma proposta mais de tristeza do que de felicidade.

Contudo, o que o texto diz é que «têm futuro os que vivem ao estilo de Jesus Cristo. Os felizes, isto é, os com futuro, são os que não põem a sua segurança no dinheiro, no poder, no sucesso, não fazem deles seus deuses, mas põem todo o seu empenho na construção de um reino de justiça e paz, ainda que isso lhes traga dissabores» (Vasco P. Magalhães). «Aqueles que abrem caminhos novos e bons» (Antº Couto).

«A chave da bem-aventurança está na comunhão com Jesus» (Ricardo Neves). Quando estamos em comunhão com Ele percebemos que só um coração pobre e humilde tem espaço para o outro, que só um coração puro pode ver a beleza e a grandeza do outro, que só um coração misericordioso pode perdoar plenamente, que só uma pessoa que chora e se comove é capaz de romper com a indiferença, que só os que têm fome e sede de justiça serão capazes de promover a paz…

Todavia, como adverte o texto, todos os que arriscam este caminho de felicidade acabam perseguidos, ‘mal-tratados’ ou gozados. Talvez por tudo isto, Fernando Ventura tenha dito que este é o «texto mais revolucionário da história da humanidade».

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