No Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, somos convidados a acolher o Reino de Deus, que nos é oferecido como dom, e a acolher o chamamento a imitar Cristo, como Seus discípulos – amando, no desprendimento, no serviço e na entrega, como Ele nos amou.
A Palavra de Deus acentua a inteira disponibilidade de Jesus na realização da vontade do Pai, entregando a Sua vida, na humildade e no despojamento de Si, para realizar o Reino de Deus – reino de amor e de vida, que Ele nos alcança, pela Sua Paixão, Morte e Ressurreição.
A primeira leitura evidencia este despojamento. No cântico do «Servo de Javé», que os padres da Igreja compreenderam ter a sua realização em Jesus Cristo, encontramos descrita esta disponibilidade: «o Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo». Num abandono à vontade do Pai, que não O encerra na morte, mas nos abre à esperança do triunfo sobre o sofrimento e a própria morte: «Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado».
Estre canto do Servo de Javé prepara-nos para a narração da Paixão do Senhor, onde se concretiza esta obediência e se realiza o mistério da nossa salvação. Com efeito, na Cruz de Cristo nós fomos salvos. São Mateus narra a paixão de Cristo como concretização do que havia sido anunciado nas Escrituras, na longa preparação da vinda do Messias, que nos salva pela Sua morte e Ressureição. Na simbologia do véu do templo, que se rasga em duas partes, vemos suplantada a antiga aliança, que se abre agora à nova, celebrada com a entrega do Filho de Deus. E cada um de nós é chamado a imitar o centurião romano, que, diante do mistério da vida entregue por amor, exclama: «Este era verdadeiramente Filho de Deus».
São Paulo, na Carta aos Filipenses, coloca-nos diante deste mesmo mistério de kenosis: fazendo-se homem, Jesus vai até ao fim, até à humilhação da cruz. Contudo, nesse aniquilamento, na cruz, começa a Sua elevação à glória.
Nesta semana – a semana maior – somos convidados a acolher a salvação que Deus nos oferece, de modo tão singular, pela expressão maior do amor, concretizando aquela indicação de Jesus, no Evangelho: «não há maior amor do que dar a vida». Jesus salva-nos neste amor: na entrega da Sua vida por nós! Esta fonte de vida continua a brotar para cada um de nós e somos convidados a acolhê-la, desde logo nas graças sacramentais, onde Cristo Morto e Ressuscitado se nos oferece.
Mas também nós somos convidados a imitar o Mestre, como Seus discípulos, na vivência da mesma humildade, disponibilidade e entrega aos nossos irmãos, fiéis ao próprio chamamento do Senhor: «Se alguém quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me». O amor está no centro da nossa identidade e condição de cristãos! O amor cujo modelo é o amor do Senhor Jesus Cristo por nós. Necessitamos, assim, de aferir sempre se a nossa vida está marcada por esta vivência que nos aproxima do Mestre, ou se por outras vivências que nos distanciam desta lógica do Evangelho.
Se nesta semana somos efetivamente convidados a acolher o dom da vida, que Cristo nos conferiu pela Sua Paixão, Morte e Ressureição, e se somos chamados a segui-Lo na mesma entrega aos nossos irmãos, devemos fazer desta semana um tempo de maior silêncio, de meditação deste mistério de amor, para que nos deixemos revolver por ele, acolhendo Cristo como nossa vida e deixando-nos mover pelo Seu Espírito, no sentido de o imitarmos, na entrega de nós mesmos.

