«Deus te livre, Senhor. Isso não pode acontecer» – é a reação de Pedro, escandalizado com o anúncio da Paixão. Seguiram um Cristo de palavras mansas, que curava leprosos, que expulsava demónios, que ressuscitava mortos – que maravilha de homem! – e agora vem anunciar-lhes que tinha de ser condenado pelas autoridades, que tinha de ser morto e ressuscitar! Como era possível? É lógica a reação de Pedro. E é lógica a atitude de Jesus. Chama Pedro, Tiago e João e leva-os consigo ao monte. E aí, transfigura-se diante deles, mostra-lhes a sua verdadeira identidade. Consigo, as testemunhas: Moisés e Elias, que tinham anunciado o projeto salvador de Deus para a humanidade. E como se não bastassem as testemunhas, ouve-se a confirmação da sua identidade pela voz do Pai, ecoando por entre as nuvens: «Este é o Meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Aqui estamos, nesta Quaresma, a escutar Jesus. A aprender com Ele a responder às tentações do demónio, a colocar sempre em primeiro lugar o Deus que nos criou e nos salva (1º domingo da Quaresma).
Aqui estamos, prontos a obedecer ao chamamento de Deus como Abraão.
Aqui estamos, atentos às recomendações de Paulo a Timóteo: “Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.”
Começámos, há pouco tempo, este caminho da Quaresma. Caminho marcado pelas preocupações e cuidados da vida. Preocupações com a saúde, com o trabalho, com as tempestades, com as inundações, com as estradas cortadas, com os tremores de terra… Cuidados com os filhos e os seus telemóveis, com as ameaças de guerra nuclear… No meio de todas estas e outras inquietações e cuidados, há ainda tempo e disposição para pensar em Deus? E, se ainda encontramos tempo para Ele, é para perguntar porque é que permite tantos desastres, para nos lembrar que temos de sofrer e morrer? Ficamos pelo anúncio da cruz, ou descobrimos o Cristo transfigurado, a revelar-nos a ressurreição e a vida a que somos chamados?
O caminho da Páscoa passa forçosamente por reconhecer a nossa condição de pecadores, a precisar de purificação, como rezamos no Salmo: «Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade; purificai-me dos meus pecados». Não faltam propostas concretas para encetar este caminho. Desde a Mensagem do Papa a lembrar-nos o jejum de palavras ofensivas… a mensagem do nosso Bispo, a propor-nos a renúncia a favor das vítimas das tempestades… as sugestões dos Secretariados da Juventude e da Educação Cristã…
Com uma certeza: Espera-nos Cristo ressuscitado e vivo, que nos acompanha na caminhada: «Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça.»
Confiantes, ponhamo-nos a caminho, como Abraão, nosso pai na fé.

