«O livro também fala de chatices que nos salvam»
“Quando se fala de Amor”, um novo livro para um novo ano, uma “lembrança com sentido”. Num fim de tarde, logo no início de 2026, numa sala carregada de histórias, o padre João Paulo Vaz revelou o objetivo do seu mais recente livro: oferecer algo com sentido. Reuniu vários textos e tem uma convicção: “todos, sem exceção, somos capazes de amar muito”.

“Quando se fala de amor”… como é que nasce a ideia deste livro? Parece ser um projeto com tempo…
Sim, é um projeto que vem de há uns cinco ou seis anos a esta parte. Antes de ser livro, estes textos tiveram outras vidas. Começaram por ser ofertas de Natal muito caseiras, em folhas soltas dentro de caixinhas de madeira, gravadas à mão. Surgiram também da minha participação num concurso de escrita criativa onde, embora não tenha ganho, ganhei o balanço para continuar a escrever sobre a vivência do amor nas suas várias vertentes: social, familiar e interior.
Mas qual a razão de lançar a obra neste início de 2026?
Vou ser muito sincero: uma das coisas que mais me custa na vida é escolher prendas. Seja para a família ou amigos, a ideia de simplesmente comprar algo só por comprar incomoda-me. Sempre tentei que a minha presença material tivesse sentido, por isso gosto de ser eu a construir o que ofereço. Este livro surge nesse contexto de “lembrança com sentido”. Além disso, era um projeto que eu já tinha tentado publicar numa grande editora há uns anos; na altura foi-me devolvido por não se enquadrar no estilo que procuravam, mas eu sentia que estes textos tinham o seu tempo. Esse tempo é agora.
A capa e o interior do livro têm uns apontamentos visuais que lembram flores ou uma cadeia de ADN. Foi propositado?
Sim. Quando procurei uma imagem, queria algo que respondesse visualmente à ideia do “amor como ADN da vida”. O amor é o fundamento; ele tem de desembocar em vida, tem de florescer. Essa imagem que encontrei ilustra exatamente esse dinamismo: algo que nasce do centro e floresce em cada página.
O amor é o fundamento; ele tem de desembocar em vida, tem de florescer.
P. João Paulo Vaz
O subtítulo do livro fala em “momentos e chatices amorosas”. O amor também é uma chatice?
(Risos) Usei o termo “chatices amorosas” de uma forma carinhosa. No fundo, o que é uma chatice amorosa? É algo que mexe connosco, que nos irrita, às vezes, mas sem o qual não passamos. É aquela “provocação” do outro que nos constrói. O livro aborda o amor não como algo cor-de-rosa, mas como o motor real da vida — entre casais, entre amigos, na fraternidade universal e até como utopia que nos faz sonhar.
São textos curtos, quase como “posts” para cada dia. Foi uma escolha deliberada para os leitores de hoje?
Sim. Muitos textos nasceram com o limite de 300 palavras. Não é um livro para ler de uma assentada, mas para ser saboreado. Gosto da ideia de a pessoa ler um texto e guardá-lo para a sua semana, ou até dar-lhe uma “pontuação” conforme o impacto que teve. São reflexões que nascem da minha experiência de vida e dos meus 30 anos de sacerdócio.
Não é um livro para ler de uma assentada, mas para ser saboreado.
P. João Paulo Vaz
Há textos que tocam muito na realidade familiar e conjugal. Também nascem desse tempo de acompanhamento de casais e famílias?
Sim, recentemente, após uma homilia sobre a Sagrada Família, alguém comentou: “Será que ele nunca foi casado?”. (risos) Na verdade, 30 anos de padre põem-nos em contacto com muitas vidas, muitas alegrias e muitos dramas familiares. É um “saber de experiência feita” através dos outros. Acompanho de perto a Pastoral Familiar e sinto que a vida e as nossas sociedades dependem inteiramente da família.
Na verdade, 30 anos de padre põem-nos em contacto com muitas vidas, muitas alegrias e muitos dramas familiares.
P. João Paulo Vaz
É assistente da Pastoral Familiar da diocese, o livro também vai servir para alguns ensinamentos, partilhas?
Quer dizer, eu não tinha isso presente como minha intenção. Até porque eu acho que tem de haver um outro fundamento mais teológico, também, pastoral, para poder lançar alguma coisa que sirva de linha orientadora ou que sirva de guia para a Pastoral Familiar.
Naturalmente, eu reconheço que alguns casais possam ler algum deste texto e aprender alguma coisa para a sua vida familiar, para a sua vida conjugal.
Eu sinto que ao nível da Pastoral Familiar, não é só o que a Igreja nos pede ou a experiência pastoral em Igreja do que é ser família. Mas a vida depende da família. As nossas sociedades dependem da família. E como é que se constrói uma família?
Este é o aspecto principal. Para além da fé, para além da experiência religiosa, que pode ser, depois, um auxílio na estruturação da família, não é o princípio.
O princípio há de ser o amor como fonte, o amor como fonte de graça, até, ou como ambiente de graça, e se quisermos agora, da graça de Deus. Mas isso assumimos nós. Agora, antes disso, aquilo que fundamenta e há de fundamentar qualquer família, há de ser uma relação amorosa profunda em que já não são dois, mas é um só.

E como olha a realidade da família de hoje?
Preocupa-me a perceção de que o amor é descartável. Se o amor for descartável, não se constrói nada duradouro. Temos de perder o medo de falar de ternura, de carinho, do abraço e do toque. O Papa Francisco insistiu muito nisso. O amor exige compromisso e proximidade.
Então, o que me parece é que nós temos de falar muito sobre isto, temos que apresentar às famílias um caminho de compromisso amoroso, pela ternura, pelo carinho. E nós, sejamos casados, solteiros, padres, consagrados, não podemos ter qualquer problema em falar sobre isto.
E em formas simples, porque eu repito, eu não sou um escritor de excelência, nunca fui, nem nunca vou ser. Agora, eu não posso ter medo de partilhar aquilo que eu penso, escrevendo ou compondo, na música ou no que for, eu não posso deixar de fazer, porque essa é a minha contribuição para que qualquer coisa possa crescer.
Se o amor for descartável, não se constrói nada duradouro.
P. João Paulo Vaz
O João Paulo Vaz é também um nome indissociável da música. Este livro traz alguma melodia escondida ou alguma coisa pensada?
Para mim, a escrita e a música nunca se separaram. Sempre escrevi as minhas letras e poemas. A diferença é que a música tenho-a planeada a longo prazo, enquanto os livros dependem mais do momento em que a escrita me “visita”. Mas ambos bebem da mesma fonte.
Que convite deixa aos leitores para este ano de 2026 através deste livro?
O convite é para que assumamos convictamente que todos somos capazes de amar muito. Às vezes, devido a traumas do passado, há pessoas que acham que não têm essa capacidade. Mas ela é incontornável em nós. Quero que as pessoas descubram a “leveza do amor” e que isso as ajude a combater a solidão.
Quero que as pessoas descubram a “leveza do amor” e que isso as ajude a combater a solidão.
P. João Paulo Vaz
Falando em solidão, vivemos num mundo onde muitos se sentem sós. Depois das festas, para muitos o mês de janeiro torna-se longo e solitário…
A solidão combate-se despertando o dom do acolhimento. Muitas vezes sentimo-nos sós porque sentimos que não nos acolhem. Mas o segredo é inverter o processo: eu tornar-me capaz de acolher o outro. Quando eu me sinto amado — por Deus, pelos amigos, pela memória de alguém — eu nunca estou verdadeiramente só, mesmo que passe dias sozinho. O amor é o antídoto para o formalismo das festas sociais.
O amor é o antídoto para o formalismo das festas sociais.
P. João Paulo Vaz
Agora impõe-se a questão: onde podemos encontrar o livro?
O livro está disponível no Seminário Maior de Coimbra e pode também ser adquirido por encomenda direta, entrando em contacto comigo.

