«Educar também é contrariar»

O edifício diz “Casa do Gaiato”, não há que enganar. Ouve-se um chiar, abre-se o portão e aparece o padre Manuel Mendes, anfitrião da visita e responsável por esta casa em Miranda do Corvo, na diocese de Coimbra.

Depois dos cumprimentos recorda logo que “aqui, a 7 de janeiro de 1940, que era o dia do Santíssimo Nome de Jesus, o Pai Américo entrou nesta porta, com três rapazitos da baixa de Coimbra, que vieram dormir numa cama lavada e comer uma sopinha”, conta o sacerdote.
Antes, uma paragem de oração na pequena capela junto à casa do Gaiato, que o sacerdote se apressa a abrir e ali reúne a comunidade a cada domingo.
A Quinta de São Brás foi comprada pelo “padre Américo, por 40 mil escudos que depois ficou a pagar, para poder acolher rapazes de rua”. Atualmente, na casa vivem 20 rapazes, dos 10 aos 18 anos, divididos por alas diferentes.
O padre Manuel Mendes conta que os rapazes são oriundos dos países lusófonos, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique, outros são portugueses.
“Hoje já não é aquele tipo de rapazes abandonados e sem família, dada a fragilidade familiar, normalmente são as mães que vêm de África, que tentam legalizar-se, outros rapazes nasceram cá em Portugal. Nós queremos que eles regressem à família, aliás uma das frases chave, um dos lemas é que “todo o regresso a Nazaré é progresso social cristão”, explica.
“Não são um centro de acolhimento temporário” e o entrevistado refere que “os rapazes ficam por aqui algum tempo”, para haver uma estabilidade e os dias são passados na escola.
“Todos os dias os levamos ao centro educativo de Miranda do Corvo” e há “muito boa relação com a Casa do Gaiato”.

“A educação é tudo o que concerne à promoção e ao desenvolvimento humano. Educar também é contrariar, criar regras, implicá-los nas tarefas”, explica o padre Manuel Mendes, enquanto nos encaminha pela entrada na Quinta.
O espaço é envolvido em natureza, pomar, animais, uma pequena fonte, espaço de cultivo e jardim. Conhecemos a governanta da casa, como diz o padre Manuel, “a mãe da casa, o lado feminino e de afeto que é necessário para os rapazes e que o padre Américo tinha sempre em atenção”.
A sala comum, o refeitório

Ladeados por gatos, “todos com nome”, subimos as escadas, conhecemos a cozinha e entramos no refeitório, “o espaço onde todos gostam de chegar”. As mesas, devidamente alinhadas, mostram a regra necessária para a organização dos almoços, lanches e jantares.
Já em 1940 o Pai Américo, como o tratam ainda, escreveu as regras da casa do Gaiato, desde as horas de acordar, aos rituais e normas a cumprir, como se pode ler no quadro pendurado ao fundo da sala.
“Todos sabem o seu lugar e as suas tarefas. A primeira tarefa de cada um que chega é sempre servir os outros. Há a mesa dos mais pequenos e há as orações que antecedem as refeições”, descreve o padre Manuel.
Na folha “amarelada” das orações constam o Pai Nosso, Avé Maria, a Consagração a Nossa Senhora,, e a Salvé Rainha, entre outras, “orações que lhe vão ficando na memória e que os ajuda a acalmar”.


“A casa não faz a acepção de pessoas. É uma casa com cariz católico, o pai Américo nunca perguntou a religião a nenhum rapaz, nem perguntou o estado civil dos pais. Portanto, é a nossa matriz e que foi inovadora, porque ele queria ir um bocadinho contra o sistema de reclusão e é por isso que escolhia quintas, para que os rapazes pudessem ter espaço”, conta o sacerdote.
Desde o tempo da pandemia, em 2020, os rapazes frequentam a catequese na paróquia de Miranda do Corvo, “alguns até já vieram crismados”, mas há sempre “espaço para a oração e ação de graças”.
“Eles vivem cá mas passam a maior parte do tempo nas escolas. É só esta questão de tentar amparar, levantá-los em termos escolares e de saúde. Aqui ajudamos na questão da saúde e da educação”, indica.
No dia da reportagem do Correio de Coimbra, as taças estavam alinhadas para o lanche, depois de uma tarde na escola, na sala de estudo ou no desporto escolar. Era quarta-feira e o jantar ia ser “ovos mexidos com chouriço, arroz e salada”, um prato que “eles adoram”, conta a cozinheira.


As mais de 40 galinhas, que vivem no seu espaço próprio cercado, fornecem os ovos que os rapazes tanto gostam, é do pomar que vem a fruta para a mesa e, muitas das outras coisas, chegam “pela caridade”.
“A comunidade acarinha muito esta casa, batem ao portão e às vezes perguntam: “padre, o que precisa?”, ainda há gente boa por aqui e conhecem a realidade que vivemos”, descreve.
O padre Manuel Mendes é o responsável da casa, conhece as famílias dos rapazes, faz contactos, conhece a história, circunstâncias e desafios de cada vida que ali vai crescendo. Mas, àquela casa, também chega “quem venha pedir auxílio, ser confessado ou simplesmente acompanhamento e escuta”.
O som da água a correr é a “banda sonora” da zona exterior, espaço amplo para momentos de estudo e convívio mas, “o campo da bola” é o que os rapazes mais gostam.
E os estudos? Que futuro?

Os 20 rapazes frequentam o ensino obrigatório e, na casa do Gaiato, “ajudam em tarefas simples, quando o tempo dá”.
“Hoje andaram a varrer o pátio, como qualquer pessoa faz na sua casa, pequenas coisas de jardinagem que vão aprendendo”, refere o entrevistado que justifica que “o tempo de escola absorve-os quase completamente”.
Os fins de semana são para outras atividades, como a música e o desporto.


“Temos uma boa professora de Educação Musical, que vem cá, da Lousã, e depois ao sábado à tarde é tempo de desporto também. No domingo, é o dia do Senhor, temos que parar para rezar”, assume.
Entramos nas salas de estudo onde, à quarta feira à tarde, se fazem trabalhos de casa ou se estuda no computador. Em momento de pausa e lanche, questionamos sobre o futuro, “o que querem ser quando foram grandes?”
As respostas, prontas e já pensadas: “eu quero seguir medicina”, “eu quero ser futebolista” e um dos rapazes mais novos, mais tímido “ainda não sei, mas quero algo nos computadores”. Seguem para mais um tempo de estudo.

O padre Manuel Mendes indica a ala dos mais novos, e onde se situa o quarto onde ficava o Padre Américo, hoje o quarto de um rapaz.
Cada cama, bem feita, tinha a roupa do dia seguinte, devidamente colocada e dobrada.
“A roupa que os rapazes vestem é toda dada”, conta.
O padre Manuel Mendes, vice-postulador da Causa de Beatificação do Venerável Padre Américo, mostrou com gosto a casa do Gaiato de Miranda do Corvo e, com mais gosto ainda, fala do fundador da Obra da Rua. Aos rapazes lembra, muitas vezes, o texto sobre santidade que o padre Américo deixou.
“Disse que não tivessem medo da palavra santo. Ser Santo. E por aqui adiante, fui-lhes dizendo que sem toda a parte, a todo o tempo, qualquer que seja a condição de vida, podemos desejar e abraçar aquele ideal: a cavar as terras, a bater ferro, a picar pedra, a fazer botas, a cortar pano, a advogar causas, a curar enfermos, a dizer Missa. (…) Basta-te luz e força! (…) O Santo é o homem que vive na sua vida a Vida de Deus”, padre Américo Aguiar, na súmula biográfica, 2016.
O Fundador faleceu há 70 anos

Américo Monteiro de Aguiar nasceu em Penafiel, a 23 de outubro de 1887. Entrou no Seminário Maior de Coimbra a 03 de outubro de 1925, ficou conhecido como Padre Américo, instituiu a Obra da Rua em janeiro de 1940, com a fundação da primeira Casa do Gaiato.
Uma das figuras mais conhecidas da Igreja Católica em Portugal dedicou a sua vida aos mais pobres, especialmente os jovens em risco, acolhidos nas Casas do Gaiato, e aos doentes incuráveis.
O sacerdote faleceu no Hospital de Santo António, no Porto, a 16 de julho de 1956, aos 68 anos, e o seu processo de beatificação foi introduzido em 1986.
A 12 de dezembro de 2019, o Papa Francisco aprovou a publicação do decreto que reconhece as “virtudes heróicas” do Padre Américo, um passo central no processo que leva à proclamação de um fiel católico como beato, penúltima etapa para a declaração da santidade.

