- Enfoque

Delinear o Futuro

Sónia Neves

Sónia Neves - Enfoque

Há umas semanas participei num encontro de jovens, numa dinâmica de questões sobre vários temas, um espaço aberto à comunidade, numa tarde de sábado, com as mesas redondas de um salão repletas. A primeira questão que me fizeram foi: “ainda vale a pena ser jornalista?”.

Com o tempo contado pelo relógio não tinha oportunidade para formular a minha resposta, organizada e concisa, mas prontamente disse que sim, para espanto de muitos jovens, ávidos de conversa. Da falta de liberdade às manipulações, das ‘fake news’ às redes sociais, do sensacionalismo à falta de verdade foram caminhos que me levaram à partilha com os mais novos, alguns universitários, outros a iniciar no mercado de trabalho.

Ser jornalista é, por definição, um exercício de escuta, ainda mais a trabalhar na área da religião, há quase 20 anos, exige um olhar que saiba ver para além da superfície dos factos, um olhar que procure a “notícia” no lugar onde a vida teima em renascer.

Esta semana o olhar levou-me até à Casa do Gaiato, em Miranda do Corvo. Ali, entre sorrisos tímidos, que carregam histórias de superação, e o quotidiano de uma casa que é, antes de tudo, um lar, não vi apenas uma instituição. Vi o futuro a ser delineado, a ser construído com esperança. Vi mãos que trabalham e corações que se reconstroem, num silêncio laborioso que é, por si só, uma forma de oração.

Ali senti que a “vida nova” de que nos fala o Evangelho se manifesta em rotinas, em aprendizagens e na conquista da dignidade. É o Evangelho sem capas, escrito no dia a dia de quem ali está.

Vamos entrar na Semana Santa e esta reportagem em Miranda do Corvo foi para mim um vislumbre da Ressurreição. Ver aqueles jovens a sonhar o futuro é perceber que a Páscoa acontece sempre que alguém se levanta, sempre que uma comunidade acolhe e se pratica a caridade.

A escuta é a prática do jornalismo mas nunca ninguém me ensinou como “digerir” questões, sorrisos e silêncios desta forma, vale a pena ler a reportagem no Grande Plano, conhecer mais sobre a casa e sobre a Obra da Rua e, até, aprofundar a figura de Padre Américo, a “caminho dos altares”. 

Encontros e gestos que se misturam e, na minha perspetiva, apontam que o futuro não é algo que se espera mas é algo que se delineia hoje, com coragem e com Deus.

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