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«Mistério da Eucaristia» através da arte

Na solenidade do Corpo de Deus, o Correio de Coimbra inaugura um roteiro através da arte. Conhecer a obra do Monsenhor Nunes Pereira, em vários locais da diocese, leva à descoberta do mistério da fé.

Em parceria com a Comissão Diocesana da Pastoral do Turismo e Oficina Museu Monsenhor Nunes Pereira

REPORTAGEM

Última Ceia, a primeira etapa

Xilogravura na capela da Mata, Pampilhosa da Serra
Xilogravura na capela da Mata, Pampilhosa da Serra

Numa feliz coincidência com a solenidade do Corpo de Deus, a primeira paragem deste roteiro convida a descobrir como o artista imortalizou o mistério da Eucaristia e da Última Ceia.

No dia em que a Igreja se mobiliza para celebrar solenemente o Corpo de Deus, manifestando publicamente a sua fé no mistério da Eucaristia, o Correio de Coimbra propõe o primeiro passo de um roteiro turístico, artístico e espiritual único pela obra do Monsenhor Nunes Pereira.

A primeira etapa deste roteiro é inteiramente dedicada a um dos temas mais repetidos e geniais da sua obra: a Última Ceia.

Para o Monsenhor, a Ceia do Senhor nunca foi um acontecimento estático. Ele desafiou a matéria para provar que a Eucaristia é uma realidade viva. Recorrendo ao xisto rude que evoca as suas origens na Pampilhosa da Serra, rasgando as paredes com vitrais que inundam os altares de luz e cor, ou cinzelando relevos geométricos em madeira e pedra, Nunes Pereira espalhou pela Diocese várias representações da Última Ceia que são verdadeiras catequeses visuais.

“Lembro-me bem desta peça chegar à capela”, revela umas das conterrâneas de Nunes Pereira, na capela da Mata, espaço onde o Monsenhor celebrou a Missa Nova. 

É com orgulho que contam que conheceram Nunes Pereira. Na pequena capela da Mata, na Pampilhosa da Serra, onde há apenas a festa anual, a xilogravura de Nunes Pereira, na mesa do altar, mostra a última Ceia. Não há data da peça mas, asseguram ali ter chegado há cerca de 50 anos. Os traços não deixam dúvidas de quem foi o autor e os presentes confirmam, “é da terra, é Nunes Pereira”.

E ali, ao fim de uma tarde de primavera, com a serra por cenário, se evocou o artista, se recordou o seu pai e algumas figuras que ainda permanecem na memória de quem é dali, ali vive e sustenta a sua fé. 

A reportagem tinha de trazer esta peça em primeiro lugar pelo simbolismo de “começar o caminho”. Mas há muitas “Últimas Ceias” de Nunes Pereira. 

Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vermoil, Pombal

Na igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vermoil, em Pombal, a D. Lúcia prontamente recebe o Correio de Coimbra e tem gosto em mostrar “o melhor que esta igreja tem”. 

Da porta, olha-se para cima, eis uma xilogravura de Nunes Pereira. 

“Vêm cá ver essa peça? É muito linda, vale a pena”, diz uma senhora de cabelos brancos, que sai da sua oração da manhã. Contou não saber quem é o autor mas que a peça ali estava desde a construção da Igreja, iniciada em 1961 mas só inaugurada a 6 de setembro de 1975.

A celebração da Última Ceia é como um local de encontro com a própria pessoa, de conversão e de perdão; onde o outro é mais importante, onde a vida é celebrada. Nesta peça é necessário olhar para o alto para a apreciar.

Xilogravura na Igreja de Vermoil
Xilogravura na Igreja de Vermoil

A cerca de 15 km, também no concelho de Pombal, avista-se a imponente igreja de Santo Elias de Carnide. Mena e o marido aguardam o Correio de Coimbra para abrir as portas do espaço, com várias obras de Nunes Pereira, e mostram curiosidade para saber mais.

Interior Igreja de Carnide

A Igreja, construída em 1965 e dedicada a Santo Elias, acolhe cerca de 400 pessoas a cada celebração. No altar mor, bem no alto, uma nova peça de Nunes Pereira: uma Última Ceia, em vitral. 

Este vitral complementa o conjunto iconográfico onde se destaca o padroeiro, S. Elias, criando um ambiente de luz e cor característicos do traço modernista e expressivo de Nunes Pereira.

“É muito bonito e dá cor ao altar. Agora colocámos uma luz por fora, para que, à noite, e por fora da Igreja, quem passe possa também ver o vitral”, explicam os anfitriões.

De destacar ainda na Igreja o vitral de Nunes Pereira junto à pia baptismal, devidamente assinado, e as imagens de S. Elias e N. Sra. das Graças que, segundo informações, terão sido projetadas por Nunes Pereira.

De regresso à cidade de Coimbra, entramos na escola Avelar Brotero, antiga Escola Industrial e Comercial. Numa manhã quente de primavera, onde os alunos estão silenciados nas salas de aula, o professor de Desenho, Antonino Santos Neves, encaminha o Correio de Coimbra até ao refeitório. A porta abre-se e os típicos cheiros misturados, da sopa e da confeção do almoço, convidam a ficar. 

Professor Antonino Santos Neves
Professor Antonino Santos Neves

Na parede do fundo está uma obra de Monsenhor Nunes Pereira, datada de 1962, projetada por ele e executada naquela escola, pelo professor António Balhau. 

“São barras de metal, quadrangular, todas da mesma espessura, exceto os xadrez, que são chapas mais largas, portanto, tem o suporte para criar este efeito mais de pano de fundo”, explica o docente. 

A peça de 4 metros de comprimento mostra a Última Ceia, toda feita em linhas paralelas, “uma técnica usual em Nunes Pereira”, com um jogo de sombras.

“Vemos isso em quase todos os trabalhos dele, porque ele trabalhava assim as sombras, não preenchia as superfícies, mas com a aproximação daquele traçado paralelo, cria-nos uma sombra, uma mancha, até conseguimos ver nos cabelos, claro, escuro, onde as linhas são mais próximas é mais escuro, onde estão mais afastadas é mais claro, portanto, o efeito visual é esse, nós conseguimos apenas com linhas, de certa forma, identificar o volume, numa peça bidimensional”, indica Antonino Santos Neves. 

“Na peça podemos ver expressão dos olhos e dos rostos também, onde ele conseguia fazer com uma grande mestria, e temos aqui uma figura em destaque do lado direito, que é o Judas, com o saco bem enrolado e apertado na mão, com o volume pelas linhas, e pelo olhar dele também”, acrescenta.

Cidália Santos, da Oficina Museu Nunes Pereira, alerta ainda para a observação do cálice, “elemento diferente nas várias últimas ceias” do artista, onde “quase se podia fazer uma história também sobre o cálice”, mas também “na forma como Cristo parte o pão”.

A obra em destaque encontra-se em exposição permanente no refeitório da escola, um espaço onde a comunidade escolar e visitantes podem observar esta representação clássica, que vai passando despercebida.

Refeitório pequeno do Seminário Maior de Coimbra

E a última peça executada por Monsenhor Nunes Pereira que mostra a Última Ceia está no refeitório pequeno do Seminário Maior de Coimbra, onde ali viveu. 

“Jesus à mesa, ao centro, ladeado de seis apóstolos de cada lado, o pão e o cálice ao centro a serem abençoados e a ação de graças, evocada de vários modos, por parte de cada um dos apóstolos”, apresenta-nos Cidália Santos. 

Num espaço que acolhe tantas refeições, de diferentes públicos da diocese de Coimbra, e fora dela, a “Última Ceia” em xilogravura (gravura em madeira), considerada uma das suas obras mais belas nesta técnica, destaca-se na parede branca.

Nesta reportagem fica a sugestão de visita a alguns locais onde o traço inconfundível do Monsenhor Nunes Pereira nos convida a comungar da beleza e do mistério, um percurso que permite “saborear”, interiorizar e valorizar o significado da mesa, do alimento e da presença do outro na vida, na comunhão, Corpo de Cristo. 


ENTREVISTA

Nunes Pereira «tentou imortalizar o pão e o vinho»

O Chefe Luís Lavrador e o investigador João Pedro Gomes, ambos professores na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, foram desafiados a olhar a simbologia do Pão e do Vinho nesta solenidade, alinhados à arte de Nunes Pereira.

Chegou a conhecer o Monsenhor Nunes Pereira? 

Luís Lavrador: Conheci o Monsenhor pessoalmente. Conheci-o por meio do meu irmão, que na altura era reitor do seminário. Conversei com ele por duas ou três vezes e ainda o vi a trabalhar numa “Última Ceia”, que aliás tenho em minha casa.

Que postura é que ele tinha a trabalhar? 

Luís Lavrador: Tinha uma postura muito serena. Quando estava a trabalhar a madeira, eu acho que ele estava num outro mundo, não estava cá. Foi uma convivência fugaz, mas o Monsenhor era uma figura extraordinária do ponto de vista da sua religiosidade e daquilo que representava.

Vitral na Igreja de Fajão

Nunca cozinhou para ele? 

Luís Lavrador: Não, nunca cozinhei, tenho muita pena. Se calhar fazia-lhe uma “comida santa”, inspirada no texto bíblico. Ele devia ser de gostos muito simples: a sopinha, o guisadinho, o pãozinho… as coisas muito frugais. A sofisticação dele era outra: era a arte, o gosto, a transcendência. Era uma pessoa um bocadinho acanhada, fechada, mas com uma alma enorme.

Qual o significado de ter uma peça dele na sua sala? 

Luís Lavrador: Olho para ela todos os dias e lembro-me dele e do que a Última Ceia representa. É uma peça importantíssima. Às vezes, quando a emprestava para alguma exposição, até as minhas netas sentiam falta: “Falta aqui uma coisa, avô”. O que faz essa recordação é torná-lo sempre presente, uma figura que para nós já quase tinha uma dimensão divina.

Como é que a arte de Nunes Pereira se cruza com os elementos da mesa, o pão e o vinho? 

Luís Lavrador: Olhar para uma peça do Monsenhor Nunes Pereira associando aí o pão e o vinho é olhar para uma obra onde ele tentou imortalizar esses dois alimentos. Ele quis representar Jesus Cristo na sua totalidade, enquanto homem e enquanto Deus, pronto a ser apreciado por cada ser humano. E representou isso como ninguém através da sua mestria e dos materiais que escolheu, como o madeiro.

Na gastronomia e na história, que significados encerram estes símbolos — o pão, o vinho e a toalha?

João Pedro Gomes: O simbolismo do vinho e do pão como marcas do engenho humano é muito anterior ao cristianismo. No mundo mediterrânico, o pão já era o primeiro alimento antes de chegar à Última Ceia. Pão e vinho representam o engenho humano no seu melhor: exigem plantar, colher, moer, esmagar e passar por processos invisíveis como a fermentação. O cristianismo, nascendo no contexto greco-romano, vai beber disto: o que estava na mesa era de facto o pão e o vinho, e não a água.

Luís Lavrador: Mas repara, João, que antes desse pão e do vinho, na tradição, estava o cordeiro. Há ali uma transmutação e uma separação da carne sacrificial. O pão e o vinho é que fazem a passagem e permanecem na história.

E quanto ao cálice e à toalha? 

Luís Lavrador: O cálice tem uma complexidade enorme, mas transporta uma simbologia de igualdade. Colocado no centro da mesa, põe o vinho à disposição de todos por igual. Na Bíblia, o cálice tanto é partilha e alegria, como representa o sofrimento, no momento em que Cristo diz “afasta de mim este cálice”. Já a toalha tem uma função histórica de dignificar e cobrir. A mesa, enquanto móvel de luxo ou de convívio, é algo muito recente na história. Antigamente comia-se num tampo em cima de um tripé. A toalha fazia tudo o resto.

João Pedro Gomes: Claramente. Está muito ligado ao período medieval e à sacralização do espaço. A toalha existe para marcar uma distinção física: diz-nos que dali para cima é outro universo, como o véu do Antigo Testamento que separa o sagrado do profano. A partir da Idade Média, torna-se inconcebível uma mesa onde se coma sem toalha, tal como na Igreja é inconcebível um altar sem ela.

Luís Lavrador: E isso mantém-se nas nossas casas de família, quando vemos o pão tapado com um pano. São gestos repetidos há 5 ou 6 mil anos que ficaram gravados na nossa genética cultural.

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