Por hábito, frequento a piscina duas vezes por semana. Numa das minhas últimas idas, cruzei-me com dois casais, já na casa dos 70 e muitos anos, devidamente equipados a entrar para a água, como quem cumpre uma rotina feliz e habitual. Entre umas braçadas e umas paragens necessárias para respirar, trocámos algumas palavras de circunstância.
A senhora, de touca azul e olhos da mesma cor, com a tez morena e um sorriso espontâneo, olhou para mim e disse-me, com um adorável ar de graça: “Menina, a natação é muito boa, daqui a uns anos vai ver”.
Gosto profundamente desta confiança que as gerações mais velhas nos transmitem, esta capacidade de ler o futuro que nos espera e de nos dizer que o caminho vale a pena. Mas, acima de tudo, este encontro lembrou-me que a verdadeira comunicação não se faz a partir de palcos ou de discursos formais. Faz-se “dentro de água”, partilhando o mesmo espaço, o mesmo cansaço, no ritmo das paragens para respirar.
Este episódio verídico ecoa com a intervenção do Professor Carlos Camponez no encontro do 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais na nossa Diocese, cujo resumo publicamos no Grande Plano desta edição. Ao analisar os desafios dos media católicos e regionais, o docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra alertou-nos para o perigo do «silenciamento das vozes» e para a necessidade de mudarmos o pensamento, e não apenas as lideranças. Para Carlos Camponez, uma Igreja forte não pode ter medo da dissonância, nem de se comunicar a partir da base, ouvindo o que pensam as comunidades.
A imprensa da Igreja e o jornalismo de proximidade enfrentam hoje estatísticas desafiantes, com a perda de leitores e o envelhecimento dos projetos. No entanto, o segredo da nossa sobrevivência e da nossa relevância pastoral reside na confiança mútua com o nosso público-alvo. Aquela senhora de touca azul não é um número numa folha de Excel sobre a demografia; é um rosto, uma história viva. Comunicar em Igreja é ter a coragem de saltar para a piscina da realidade do mundo e conversar ao nível da rua.
É com este espírito de proximidade e de escuta ativa que o Secretariado das Comunicações Sociais da nossa Diocese se prepara para iniciar uma viagem pelos nove arciprestados de Coimbra. Trata-se de um plano, que conta com o total entusiasmo e aval de D. Virgílio Antunes. Quebrar o isolamento que faz com que muitas comunidades não saibam o que a paróquia ao lado está a criar no digital ou no papel, e ir ao encontro para escutar as reais necessidades do terreno, aconselhar e ajudar a comunicar melhor, são objetivos desta “Odisseia”.
Se, como referiu o professor Carlos Camponez citando o filósofo Gabriel Marcel, a esperança não é um esperar passivo, mas sim um «impulsionar-se para a frente», a nossa comunicação tem de continuar em movimento. Tal como aqueles casais na piscina, não ficamos na borda a lamentar o passar do tempo. Sigamos com as ferramentas de hoje, arriscamos no digital e nos novos formatos, como o nosso novo podcast, mas mantendo os pés firmes na água da nossa história e das nossas gentes. “Daqui a uns anos vamos ver”, porque o futuro escreve-se com proximidade, acredito!

