- Para nos pensarmos

Ainda há fogo!

Ana Queirós

Ana Queirós - Para nos pensaremos

Há qualquer coisa de paradoxal no tempo em que vivemos. Nunca tivemos tanta tecnologia, tanta rapidez, tanta capacidade de comunicação — e, ainda assim, nunca parecemos tão cansados. Tão inquietos. Tão ansiosos.

Vivemos dias de abalo constante. Notícias que chegam antes de termos tempo de respirar. Mudanças rápidas demais. Instabilidade política, económica, social. Jovens que olham para o futuro sem saber muito bem onde encaixam. Adultos que vivem numa corrida permanente para manter tudo de pé. Famílias cansadas. Relações frágeis. Corações dispersos.

Talvez por isso haja tanta gente à procura de paz — ainda que nem sempre saiba onde a procurar.

Curiosamente, no meio deste cenário inquieto, começa também a surgir outra realidade: uma sede nova. Um despertar silencioso. Há pessoas que, depois de anos a viver como se Deus fosse irrelevante, começam a fazer perguntas maiores. Há uma geração cansada de respostas rápidas e vazias. Cansada da ideia de que felicidade é apenas “fazer o que apetece”. Porque cedo se percebe que liberdade sem sentido não preenche o coração.

Porque o coração humano continua a ter sede de infinito.

E é curioso perceber que muitos dos grandes despertares espirituais da história nasceram precisamente em tempos de crise. Quando as falsas seguranças caem. Quando aquilo em que confiávamos deixa de sustentar. Quando o vazio se torna demasiado evidente para ser ignorado.

E o verdadeiro Pentecostes acontece precisamente num mundo assim.

Os discípulos não estavam fortes nem confiantes. Estavam fechados numa sala, com medo, inseguros, sem saber muito bem o que fazer a seguir. Tinham visto Jesus morrer. Tinham sentido o abalo. Tinham dúvidas, receios, ansiedade.

E é nesse ambiente que o Espírito Santo entra.

Não como espetáculo, mas como fogo. Um fogo que não destrói — desperta.

De repente, aqueles homens assustados tornam-se capazes de sair, anunciar, amar, arriscar, começar de novo. Não porque deixaram de ter problemas, mas porque deixaram de viver centrados no medo.

E é isso que o Espírito Santo continua a querer fazer hoje: transformar pessoas abaladas em pessoas despertadas.

Porque há uma diferença enorme entre viver assustado com o mundo e viver enviado para o mundo.

O problema é que muitas vezes deixamos que a ansiedade nos divida interiormente. Divida os pensamentos, a atenção, o coração. Vivemos dispersos entre preocupações, comparações, expectativas e pressas. E acabamos por perder a capacidade de reconhecer aquilo que realmente importa.

Por isso São Paulo escreve algo quase provocador: “Alegrai-vos sempre.” Não porque a realidade seja fácil, mas porque existe uma paz que não depende das circunstâncias.

Uma paz que nasce da proximidade de Deus.

Uma paz que não elimina a tempestade, mas impede que ela tenha a última palavra.

E talvez uma das formas mais concretas de recuperar essa paz seja reaprender a agradecer. Num mundo treinado para reparar apenas no que falta, a gratidão torna-se quase revolucionária.

Agradecer reorganiza o coração.

Obrigado pelo dia de hoje.
Pelas pessoas certas.
Pelo pão na mesa.
Pela esperança que ainda resiste.
Pelo perdão.
Pelo Espírito Santo que continua a soprar vida onde parecia haver apenas cansaço.

O nosso tempo precisa desesperadamente de pessoas assim: não perfeitas, mas cheias de esperança. Pessoas que não negam o abalo do mundo, mas que recusam viver paralisadas por ele.

Porque talvez a grande missão dos cristãos hoje não seja explicar tudo. Talvez seja mostrar, com a própria vida, que ainda existe uma paz maior do que o medo. E que quando o Espírito de Deus entra numa vida, até os corações mais cansados voltam a arder.

2026 © Correio de Coimbra  |  Desenvolvido por fredericomartins.pt