O fundador do Escutismo, Robert Baden-Powell, como derradeiro ensinamento, deixou aos escuteiros de todo o mundo um apelo simples que, quase noventa anos depois de ter sido proferido, permanece atual: Ao Escuteiro cabe “deixar o mundo melhor do que o encontrou”. Esta expressão, simples na forma, é exigente no conteúdo.
Começa logo por obrigar a comparar. O que encontrámos? O que deixamos? É melhor ou pior? E depois estimula a análise: Que fizemos nós para transformar? O que fizemos, se fizemos, melhorou?
Uma frase quase infantil que nos obriga a interrogar o modo como vivemos, servimos e nos comprometemos com os outros.
Baden-Powell fala, também, de um “Mundo Melhor”. Acreditando que o velho general tinha como certo a premissa ‘Pensar Global, Agir Local’, somos levados a afiançar que o impacto da ação do escutismo à escala planetária pode mesmo Mudar o Mundo.
Interessa hoje, num mundo tão polarizado ideologicamente, perguntar: O que é esse Mundo Melhor?
Para os escuteiros – e para os escuteiros católicos de Coimbra –, esse Mundo Melhor ganha contornos muito concretos. Traduz-se na promoção da dignidade humana, na construção da paz, na solidariedade efetiva com os mais frágeis e na responsabilidade pelo cuidado da Casa Comum. Está em sintonia com os grandes desafios da doutrina social da Igreja: Erradicar a pobreza e a fome, combater as desigualdades, promover a educação, o trabalho digno e a saúde para todos, cuidar da criação. Não são ideias abstratas, mas caminhos de ação quotidiana.
Não são boas intenções resultantes de ingenuidade utópica! São um compromisso global, nascido de um pacto mundial a que se chamaram Objetivos do Milénio e foram estabelecidos pelas Nações Unidas em 2000. Metas de esforço que em 2015 ganharam revisão e, novamente pela ONU, ficaram estabelecidas como os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O Mundo Melhor é, então, de forma concreta e clara, para o escuteiros católicos de Coimbra, o modelo dos 17 ODS e do seu plano de implementação – a Agenda 2030.
É com a afirmação gritada desta realidade e com este espírito de mobilização que se inicia o segundo centenário do Escutismo em Coimbra. Um tempo que não quer apenas celebrar, mas renovar o compromisso: Sermos presença transformadora, ainda que humilde, no meio da sociedade.
No sábado, 28 de março, neste sentido, para o arranque da festa dos 100 anos, as celebrações decorrem na cidade com um convite aberto a todos. No Parque Manuel Braga, ao longo do dia, e em diversos pontos de Coimbra, será possível testemunhar a vitalidade de um movimento que continua a formar gerações com um propósito e um compromisso alicerçado e concreto.
Xilema foi o nome que os escuteiros escolheram para esta atividade. Se na Biologia Xilema é o tecido vivo nas plantas, cuja função básica é transportar água com nutrientes das raízes para os caules e folhas, agora, no Escutismo de Coimbra é atividade que transporta boas práticas de Sustentabilidade para a vida de centenas de jovens provenientes de vários territórios da Região.
Como a seiva que percorre a planta e a sustenta, também cada escuteiro é chamado a levar e a ser um caminho de transformação onde quer que esteja.
Depois da comemoração do Centenário do Escutismo em 2007, do Centenário do CNE e do Escutismo Católico Português, em 2023, Coimbra assinala neste ano de 2026/27 um marco significativo: o das comemorações do Centenário do Escutismo na cidade e na região. Não se trata apenas de recordar um passado rico e fecundo, mas de acolher um tempo de renovação, projetado para o futuro, onde a memória se transforma em compromisso.
Ao longo de doze meses, seremos convidados a revisitar a história de tantos jovens e adultos que, através do Escutismo, fizeram da sua vida um testemunho discreto, mas eficaz — como a fragrância de uma flor, que não se impõe, mas se oferece, que dá beleza e satisfação, que impacta. Celebramos, assim, não só o que fomos, mas sobretudo aquilo que somos chamados a ser: presença viva, sinal de esperança, fermento no meio do mundo.
No sábado, então, dia 28 de março, o dia culminará na Sé Velha, com a celebração da Eucaristia, às 17 horas, presidida pelo Bispo de Coimbra — momento de ação de graças pelo dom da vida e pelo caminho percorrido, mas também de envio para a missão que continua.
Mais do que um evento, este centenário é um apelo. Um apelo à participação, à corresponsabilidade, à esperança. Porque o mundo precisa — hoje como ontem — de homens e mulheres dispostos a ser, com simplicidade e verdade, da flor, a fragrância.

