• Home  
  • Pe Germano: Missionário no Uganda e na Prisão de Coimbra
- Para nos pensarmos

Pe Germano: Missionário no Uganda e na Prisão de Coimbra

Cristina Novo

Cristina Novo - Para nos pensarmos

O padre Germano Serra, Missionário Comboniano, que trabalhou no Uganda durante 25 anos, faleceu no dia 14 de Março. O seu funeral decorreu no dia 17, naquele país do centro-leste de África, pois é tradição os missionários ficarem sepultados no lugar onde morrem.

Nascido a 26 de janeiro de 1956, Germano Serra foi para o Seminário Comboniano aos 23 anos, depois de ter desistido do curso de Engenharia e de ter trabalhado numa empresa metalomecânica no Porto. Enamorou-se do Uganda e do povo Karimojong.

Autor do mais completo dicionário da língua daquela tribo semi-nómada do norte do Uganda, Germano Serra foi vítima de um acidente cardiovascular. O facto de estar a passar um tempo numa comunidade num lugar mais inacessível e a centena e meia de quilómetros de um hospital, fez com que o socorro não chegasse a tempo.  

O padre Germano Serra era natural de Fânzeres, Gondomar, onde nasceu há 70 anos. Foi cativado do povo karimojong (ou karamojong) desde que foi estudar teologia para Kampala (Uganda), em 1984. Aproveitava as férias – o que fez seis vezes em três anos – para ir para Kanawat, uma das missões que os Combonianos tinham – e têm – entre aquele povo pastoril e guerreiro.

Regressa ao Uganda já como padre, em 1993. O seu sonho era trabalhar entre o povo que melhor conhecia o que aconteceu em cerca de 20 anos de trabalho no Uganda – em dois períodos (1993-2004 e desde 2012) – intercalados com trabalho em Portugal.

O padre Germano embrenha-se mais profundamente na realidade karimojong em 1998, submetendo-se à cerimónia de iniciação tribal. O rito tem várias etapas. Uma delas é a morte de um boi com uma lança. O iniciante bebe-lhe o sangue e o seu corpo é untado com o bolo alimentar que o animal ainda tem no estômago. Com a carne é organizado um banquete em honra dos antepassados representados nos anciãos. O iniciante passa a ser considerado um da tribo.

O padre Germano (aqui, em foto de Fevereiro de 2021 na casa dos Combonianos em Viseu)

Por razões de saúde regressa a Portugal em 2005 e instala-se em Coimbra. É neste período que passa em Portugal que tenho o privilégio de conhecer o padre Germano. O Sr. D Albino dá-lhe a missão de capelão do Estabelecimento Prisional de Coimbra. Com o mesmo entusiasmo que se lançava na savana africana, o padre Germano atravessava os muros de betão, diariamente, espalhando sorrisos e alegria por todo o lado. Dirigia-se a todos os que trabalhavam e residiam naquela casa com entusiasmo e vigor. Procurava os reclusos, sobretudo aqueles que lhe pareciam mais abatidos e passava grande parte do seu tempo circulando por áreas consideradas “perigosas” dentro do estabelecimento. Muitas vezes as Técnicas de Educação pediam-lhe para falar com um ou outro que estivesse mais desanimado e mesmo nós, voluntários, quando estávamos preocupados com alguém, pedíamos-lhe para durante a semana ver como estava um ou outro recluso que atravessasse um momento pior. Uma vez deu conta que um homem estava encostado a um gradeamento a olhar para baixo perguntando-lhe o que estava a fazer. Ele respondeu-lhe:-“ quero morrer”. Ele disse-lhe com a sua voz forte: -“Sai já daí! Amanhã já arranjo alguém para te ajudar”.

Hoje, esse homem chora a sua morte e diz: – “o padre Germano salvou-me a vida”.

Lembro as suas celebrações litúrgicas, naquela minúscula capelinha, a sua voz forte como se estivesse numa catedral; lembro também a sua ideia de levar a visita pascal a cada cela e a forma como alegremente atirava água benta sobre os posters que os reclusos tinham pendurados nas paredes, aos quais lhes chamava-lhes “as santas”. Era uma mente aberta, uma alma grande, um missionário de corpo inteiro.

Sempre que voltava, telefonava-nos, visitava-nos. Nunca nos esqueceu como nós também não o esqueceremos nunca. Penso que gostou do trabalho que fez no estabelecimento prisional, mas o chamamento dos Karimojong era mais forte.

Dicionário Karimojong-Inglês, coordenado pelo padre Germano Serra.

Apesar de não ter grandes conhecimentos de lexicografia, Germano Serra sentiu que não podia deixar cair em saco roto o legado de dois grandes conhecedores da língua, seus colegas: o padre Novelli e o padre Crazzolara. Bruno Novelli completou a gramática karimojong iniciada pelo padre Crazzolara e tinha começado o dicionário. Infelizmente faleceu quando lhe faltavam seis letras do alfabeto. “Era uma casa sem tecto e sem um plano conhecido”, comentava o padre Germano. Por isso, aconselhado por alguns especialistas que contactou, decidiu apoiar-se no outro material que o estudioso tinha deixado: mais de 600 folhas de apontamentos à mão, em que, além do significado das palavras, havia frases exemplificativas.

O resultado foi uma obra de 765 páginas, que inclui o significado das palavras e o modo como se podem usar.

O trabalho foi subsidiado pela Conferência Episcopal Italiana e a impressão pelo Movimento de Solidariedade Missionária de Viseu. Apenas foi publicado um número reduzido de cópias do Dicionário Karimojong-Inglês, sobretudo para uso das bibliotecas e centros de estudo. Mas o livro irá estar disponível na Internet para consulta. O mesmo se diga de outras fontes importantes para o conhecimento do povo e da cultura Karimojong, como livros e vídeos.

A importância que um dicionário tem justifica todo o esforço. O padre Germano considerava a língua como “uma das grandes chaves do trabalho missionário”, porque permite comunicar e chegar ao coração das pessoas. O dicionário é, por isso, um instrumento fundamental para todos aqueles que queiram conhecer a riqueza daquela cultura africana e entrar no coração do povo.

Felizmente deixou este trabalho concluído. Penso que partiu em paz com o sentimento de dever cumprido.

2026 © Correio de Coimbra  |  Desenvolvido por fredericomartins.pt