«Maria, de pé, aos pés da Cruz, é a imagem da Humanidade que se mantém de pé»

Licenciada em Românicas e habituada aos clássicos, Maria Eugénia Jardim encontrou na revisão da obra “Com Maria aos Pés da Cruz” um desafio que transcendeu a gramática. Numa conversa com o Correio de Coimbra explica como o texto do padre João Paulo a inquietou como mãe, como crente e como mulher, oferecendo uma nova perspetiva sobre a maternidade universal que nasceu no calvário.
Maria Eugénia, como é que se torna uma das “primeira leitoras” e revisora desta obra?
Foi um processo curioso e, confesso, inesperado. Conheci o Padre João Paulo Fernandes através do meu voluntariado no Grupo Mateus 25, no Estabelecimento Prisional de Coimbra, ele foi nosso assistente durante um ano. Criou-se uma empatia natural e uma confiança que culminou neste convite, há poucos meses. Quando ele me pediu para rever esta obra, a minha primeira reação foi de hesitação. Achei que não era tarefa para mim, dada a profundidade dos assuntos. Mas a insistência dele convenceu-me. No fundo, foi um convite para mergulhar em temas que eu não abrangia totalmente, mas que me cativaram desde a primeira página.
A sua formação em Românicas e o estudo do Grego Antigo foram ferramentas úteis nesta “viagem” de mais de 400 páginas?
Sem dúvida. O livro tem uma base científica fortíssima e é fruto de uma tese de doutoramento no Vaticano, com alta classificação. Quando o texto remetia para o Grego ou para questões etimológicas, o meu passado académico ajudou-me a não me sentir “em pleno deserto”. Mas, mais do que a técnica, o que me prendeu foi a riqueza do vocabulário. É uma prosa riquíssima que exige uma leitura lenta e saboreada. Aprendi imenso, não só sobre teologia, mas sobre a própria história da interpretação da figura de Maria ao longo dos séculos.

O título “Com Maria aos Pés da Cruz” remete-nos para uma cena bíblica que todos julgamos conhecer bem. O que é que o Padre João Paulo Fernandes traz de novo a este momento?
Eu considero que traz uma profundidade que nos obriga a reler a Escritura com outros olhos. Algo que me marcou mesmo foi o simbolismo do “estar de pé”. João 19 diz que Maria estava de pé junto à cruz. O livro explora o facto de ela estar de pé, como um sinal de fé inabalável no Filho de Deus. Ela não está prostrada; ela representa a humanidade redimida que se mantém firme na esperança, de pé.
Algo que me marcou mesmo foi o simbolismo do “estar de pé”. João 19 diz que Maria estava de pé junto à cruz.
Maria Eugénia Jardim
E depois há a questão do vocativo “Mulher”. Jesus não a trata por “Mãe”. Ao dizer “Mulher, eis o teu filho”, Ele está a reerguer um novo templo e a conferir a Maria uma nova maternidade, uma maternidade espiritual e universal.
Quando na cruz, Jesus entrega a mãe ao discípulo amado, João também a acolhe, acolhe isso mundialmente, e daí a nova maternidade da Maria, e isso a mim marcou-me bastante, a chamada maternidade universal de Maria, a maternidade espiritual, tanto no Mistério da Encarnação como também da Própria Paixão, e tudo isso, não é que eu nunca tivesse pensado nesses temas, mas não com a profundidade do livro, essa parte motivou-me bastante, emocionou-me.
A Maria Eugénia também é mulher e mãe, como é que esta leitura ressoou na sua própria experiência e vivência de maternidade?
Inquietou-me muito. Fez-me refletir sobre o que tenho sido como mulher, mãe, filha e irmã. A visão do amor de mãe é algo que persiste, mas este livro acentuou em mim a consciência do sacrifício e da entrega total. Hoje vivemos numa sociedade muito diferente daquela em que eu tive as minhas filhas; o ritmo é desenfreado, as competições são outras. Mas a essência daquela mãe que permanece de pé junto à cruz do filho, sofrendo com ele, mas sem perder a fé, é algo que toca qualquer mãe, em qualquer época.
Temos de olhar também estes textos à luz de uma época em que a mulher não era tida em conta, absolutamente, e que hoje, se remetermos para o presente, não é assim tão intemporal, essa situação continua a acontecer, infelizmente. Acho que passei a ver também Maria numa perspetiva muito mais abrangente de mãe espiritual da humanidade.

Estamos a viver o tempo de Quaresma. Considera que este livro pode ser uma boa leitura neste tempo litúrgico?
É uma leitura fortíssima para a Quaresma. Pessoalmente, sinto que ler este livro foi um processo quaresmal interior. Todos nós tentamos, nesta altura, ir ao encontro de alguém de quem estamos desencontrados, com quem estamos menos bem. Este livro continua a inquietar-me e a fazer-me refletir sobre aquilo que eu tenho sido até hoje como mulher, como mãe, como avó, como filha, como irmã e como irmã dos meus irmãos em Cristo.
É uma leitura fortíssima para a Quaresma.
Maria Eugénia Jardim
E Maria, nesta obra, é a mulher que nos ajuda nesse encontro. Ela inquieta-nos porque nos mostra que a dor e a alegria da ressurreição estão intrinsecamente ligadas.
Ela inquieta-nos porque nos mostra que a dor e a alegria da ressurreição estão intrinsecamente ligadas.
Maria Eugénia Jardim
O prefácio foi escrito pelo bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, que indica que o livro é um “tributo a todos os que procuram enraizar a espiritualidade cristã”. A quem é que a Maria Eugénia ofereceria este livro e que conselhos daria?
O Padre João Paulo Fernandes questionou-me sobre os destinatários desta obra, se seria de fácil leitura. A pergunta deixou-me perplexa! Mas posso dizer que já ofereci um exemplar a um familiar, que até tem formação bíblica, que sei que vai saborear cada página e sei que vai gostar. Mas diria que é um livro para quem gosta de desafios, não é uma obra de leitura rápida. É para quem quer ver como um estudioso profundo olha para Maria, além dos dogmas simples. É para quem quer ser desafiado no seu enriquecimento cultural e religioso.

Mas diria que é um livro para quem gosta de desafios, não é uma obra de leitura rápida.
Maria Eugénia Jardim
O que lhe ficou e marcou nesta experiência de revisão da obra?
Diria que foi um privilégio que me fez sentir “pequena” perante a obra, mas imensamente grata pela confiança. Quem ganhou com este trabalho fui eu; saio dele com uma visão de Maria muito mais abrangente: como o novo templo, como a mãe espiritual da humanidade.
O livro pode ser adquirido no site do Secretariado Nacional de Liturgia.

