Na semana passada celebrou-se, na nossa Diocese, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, sob o título Luz da luz para a Luz. Tendo sido preparada pela Igreja da Arménia, teve por tema: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como uma só esperança a que fostes chamados”, baseado numa passagem da Carta de São Paulo aos Efésios.
“A unidade cristã não é uma ideia bonita para encontros ecuménicos. É uma afirmação profundamente política no melhor sentido da palavra: diz respeito à forma como vivemos juntos. Dizer “um só corpo” é dizer que ninguém é descartável. Que ninguém é extra. Que ninguém sobra. Mas nós insistimos em dividir o que Deus uniu. Criámos cristianismos de bandeira, de fronteira, de sangue e terra. Uma fé usada como arma, a ideia de que Deus precisa de ser defendido por nós. Um cristianismo que se confunde com a nação. Um cristianismo que aprende mais depressa a defender muros do que a abrir portas e a pôr a mesa”, dizia a pastora Maria Eduarda Titosse na homilia da última sexta feira. E acrescentava ainda: “A unidade dos cristãos não significa pensarmos todos igual. Significa caminhar juntos apesar das diferenças. Significa reconhecer no outro um irmão antes de o ver como ameaça. Significa dizer: “se tu sofres, eu não posso estar bem”.
“Num mundo marcado pelo racismo, a fé cristã só faz sentido se for escandalosamente inclusiva. Ou é boa notícia para todos ou não é boa notícia.
O Espírito não distribui dons segundo a cor da pele, o passaporte ou o sotaque. Sopra onde quer. E quase sempre sopra onde menos esperamos. Deus nunca está confortável nos centros de poder. Deus habita nos montes, nunca quis um templo. Viveu nómada no deserto. Deus prefere as margens. Jesus era um profeta migrante. Não tinha terra para defender”.
Esta ideia tão presente no pontificado do saudoso Papa Francisco, segundo a qual a Igreja precisa de sair às periferias geográficas, sociais e existenciais, continua a desafiar-nos hoje cada vez mais. Todos os dias aumentam as vozes dissonantes do populismo que quer construir muros e afastar os irmãos de outras terras, cores ou credos. Por isso, impõe-se criar nos cristãos a consciência que Deus é Pai de todos, todos, todos. Que todos somos responsáveis por todos, que há uma casa comum que temos de cuidar, que enquanto houver um só homem escravo não há liberdade no mundo.
Francisco, quatro dias antes de ser eleito no conclave, afirmava que a Igreja precisa de se afastar da metrópole e estar nos lugares onde Deus é um Deus ausente, um Deus absconditus, acrescentando as periferias sociais como os lugares dos deserdados da terra. Se a Igreja se desinteressa dos pobres cai na tentação de se transformar numa elite intelectual ou moral. Esta ideia que atravessa todo o pontificado do anterior Papa é agarrada por Leão XIV para a sua primeira encíclica “Dilexit te”, em que parte das Escrituras e da Tradição cristã para mostrar que o amor de Jesus se manifesta especialmente nos pobres e marginalizados, que não são apenas destinatários de caridade, mas parte integrante do Corpo de Cristo.
Leão XIV exorta todos os cristãos a reconhecerem Cristo nos pobres e a concretizarem esse amor com gestos de justiça social: cuidado com os doentes, educação acessível, acolhimento de migrantes, denúncia de estruturas injustas e compromisso com igualdade e dignidade humana. O Papa insiste em que a fé não pode ser separada do compromisso com os mais frágeis e que a Igreja deve “ser pobre com os pobres”, colocando-os no centro de sua missão evangelizadora.
Ainda, voltando à ultima celebração da semana ecuménica, o frei Fabrizio Bordin desafia-nos a criar amizades improváveis:
“No meio do pântano deste nosso mundo tão confuso, conflituoso e desrespeitoso do direito internacional, os cristãos são desafiados a arriscar a “amizade”.
Graças ao Evangelho, podemos criar “amizades improváveis”, especialmente com as pessoas de quem discordamos. É o sinal ecuménico e sinodal que os discípulos e discípulas de Jesus podem oferecer ao mundo. Criar uma amizade improvável é o sinal que podemos oferecer ao nosso mundo. Deus queira que haja homens e mulheres que consigam conquistar o coração de quem continua a produzir armas e a lançar bombas. Penso que o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que fez há dias em Davos, na Suíça, é uma tentativa de construir amizades e derrubar fortificações neste tempo de fraturas ao nível mundial. Pode parecer uma mera utopia. Contudo, em cada época histórica, Deus providencia homens e mulheres de boa vontade, portadores de uma esperança para lá de qualquer esperança”.
“Uma pequena luz perdida na noite torna-se uma grande luz: LUZ DA LUZ PARA A LUZ. A igreja de Cristo, apesar das mazelas que nós cristãos lhes provocamos, continua a ser o oikomene (a casa da unidade), onde fazer brilhar este testemunho: um só corpo, um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus, Pai de todos”. Foi com estas palavras que o Frei Fabrizio concluiu a sua homilia.
Que possamos todos ser sinais de Esperança, pequenas luzes da Luz, luz terna e suave que no meio da noite ilumina todos os lugares da terra.

