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Assistir: Estar ao lado ou ficar a ver?

Nuno Canilho – SER PONTE

Nuno Canilho - SER PONTE - Para nos pensarmos

A língua portuguesa tem belezas discretas que, de repente, se tornam faróis. É uma língua de poetas, propensa ao filosofar. O verbo Assistir é uma dessas pérolas filológicas. Assistir pode ser, paradoxalmente, uma coisa e o seu contrário. Numa mesma palavra tudo e nada, sim e não, ativo e passivo. Podemos Assistir alguém, no sentido de socorrer, de energicamente cuidar, apoiar, de consistentemente acompanhar de perto. Mas também podemos Assistir a um espetáculo, ao longe, sentados, passivos, mesmo que atentos, distantes. Aptos a ver e ser vistos, sem interferir.

Numa mesma palavra, dois modos de presença. Um observa. O outro envolve-se.

Vem esta reflexão a propósito da figura do Assistente num Agrupamento de Escuteiros Católicos, mobilizada pelo facto de no dia 10 de janeiro de 2026 termos – o Agrupamento CNE 972 – Midões, com o apoio da Junta Regional de Coimbra e da Junta de Núcleo Centro-Norte – promovido a imposição dos lenços de dirigente ao Padre André Sequeira da Silva e ao Diácono Ruben Correia da Cunha, assistente e assistente adjunto, respetivamente, do agrupamento. Um momento muito significante, muito simples e muito bonito. 

Como na maior parte das organizações católicas, as estruturas do Corpo Nacional de Escutas, têm Assistente, um padre ou diácono que, nomeado pelo Senhor Bispo acompanha os responsáveis pela estrutura na sua ação quotidiana, tendo assento nos órgãos executivos e, simultaneamente, nos órgãos deliberativos da associação.

Esta obrigação de ‘assistência’, não deixa, no entanto, de, na prática diária, ser sensível a esta duplicidade que a palavra Assistir nos induz. E esta diferença, especialmente no nível dos agrupamentos, não é detalhe — é essência.

Porque o padre assistente, no Escutismo Católico, não é chamado a ser apenas quem “assiste” às atividades, quem preside às celebrações eucarísticas ou às ‘ritualidades’, como quem vê passar a vida dos jovens a partir de um canto do campo. Ao longe. Sem interferir.

Um padre entre os escuteiros – tenha ele muito ou pouco carisma – é uma oportunidade para um testemunho vivo e próximo de Serviço, de uma Vida que muitos jovens poderão considerar disruptiva, estranha e que, ali, no contacto próximo, pode ser quase palpável. Um testemunho riquíssimo, que no meio de uma crise tão grave de vocações e de compromissos pode ser radical e transformador.

O jovem que vê a vida de um padre, o trabalho, o impacto na vida dos outros, a alegria do Serviço, assiste, vê, observa e, nalgum momento, pode deixar-se mobilizar.

Mas um padre, um assistente escuteiro, ainda é chamado a assistir os jovens – e os dirigentes também –, no sentido de cuidar, de apoiar o coração, de caminhar com eles, de ser presença que orienta, escuta, consola e desafia. De ser ação e transformação real e concreta. Nas opções estratégicas, na gestão de conflitos, na motivação, nas relações com a comunidade. O assistente pode ser o falcão do nosso bosque, que sendo um animal como todos os outros, consegue ver do alto, com maior amplitude, com mais informação, ver de fora sendo de dentro. 

Vivemos num tempo em que é fácil ficar só a ver. Vemos guerras através de ecrãs, vemos injustiças em rodagens infinitas, vemos a solidão alheia reduzida a um estado nas redes sociais. Somos uma geração treinada para assistir no sentido passivo. Mas o Escutismo, na sua raiz mais profunda, é escola do contrário: é escola de compromisso, de serviço, de vida partilhada. E é aqui que a presença do padre assistente se torna insubstituível.

Ele recorda-nos que o Escutismo não é apenas técnica, aventura ou organização. É caminho espiritual. É descoberta de Deus na natureza, na amizade, na dificuldade, na alegria simples de uma fogueira acesa ao cair da noite. O padre assistente ajuda os jovens a lerem a sua própria vida à luz do Evangelho. Não os ensina a ler o Evangelho… ajuda-os a lerem-se no testemunho de Jesus. Não como quem impõe respostas, mas como quem caminha ao lado e faz perguntas que abrem horizontes.

Quantas vezes é no final de uma atividade, numa conversa informal, que um jovem encontra coragem para falar de um medo, de uma dúvida, de uma ferida escondida? Quantas decisões importantes começam num diálogo sereno com um sacerdote que sabe escutar sem pressa? Isto é assistir no sentido mais pleno: estar presente de tal forma que o outro se sente visto por dentro.

Também para os chefes, o padre assistente é companheiro de missão. Ajuda-nos a não perder o rumo quando a logística pesa mais do que o sentido, quando o cansaço tolda a alegria de servir. Recorda-nos que educamos pessoas inteiras, não apenas escuteiros eficientes. Recorda-nos que cada jovem é terreno sagrado.

Nesta oportunidade, e alegre pela vivência no tal dia 10 de Janeiro em Midões, tenho a obrigação de deixar uma palavra de gratidão. Aos padres que já vivem esta presença discreta e fiel nos nossos agrupamentos: obrigado por não ficarem apenas a ver. Muito obrigado por serem os fundadores, o impulso criador de tantos e tantos agrupamentos da nossa região e em todo o país! Obrigado por sujarem as botas connosco, por celebrarem a Eucaristia em campos improvisados, por tolerarem celebrações em que os cânticos ficaram trocados, ou desafinados, ou pisaram o risco. Obrigado por acreditarem que evangelizar também passa por jogos, caminhadas e nós mal feitos.

Conscientes do tempo que vivemos, não ignoramos que os sacerdotes portugueses, e também na nossa diocese, claro, vivem assoberbados de solicitações, sobrecarregados em funções litúrgicas, de gestão ou sociais. Somos empáticos com essa realidade. E também nisso somos práticos: Estamos cá para ajudar, para simplificar, para amparar no que for preciso. Disponíveis e Fieis!

Mas deixo também um convite. Que mais sacerdotes se permitam ver o Escutismo como um lugar privilegiado de ministério. Aqui, a fé ganha rosto jovem, perguntas sinceras e sede de sentido. Aqui, “assistir” nunca é ficar de fora. É entrar na vida dos rapazes e raparigas como sinal vivo de que Deus não se limita a olhar o mundo. Como escreveu São Paulo aos Efésios: “Com toda humildade e mansidão, suportando-vos uns aos outros em Amor”.

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