É sobejamente reconhecido que a admissão de Américo Monteiro de Aguiar no Seminário de Coimbra é um capítulo da sua biografia que tem pano para mangas. Nos apontamentos anteriores foram tecidas algumas linhas gerais que podem certamente ajudar a conhecer um pouco este tempo vocacional forte na sua vida virtuosa e multifacetada.
Tendo encadeado alguns testemunhos credíveis desse tempo de aproximação a Coimbra, é pertinente referir algumas afirmações distantes que dizem muito do desfecho do seu processo vocacional no Seminário de Coimbra, radicando evidentemente no Mestre da vocação ao ministério ordenado, salientando que Jesus Cristo é o Bom Pastor que chama e conduz ao/no sacerdócio ministerial. Vejamos, então, atentamente e para reflexão tais incisos testemunhais de dois familiares, dando o devido relevo ao mais próximo. Assim sendo, a sua Mãe, Teresa Ferreira Rodrigues, que soube bem cedo do desejo do seu benjamim, numa carta para o seu filho mais velho, Padre José Monteiro de Aguiar, em Cochim, na Índia inglesa, em 1 de Junho de 1902, recolhendo esta pérola preciosa do seu itinerário vocacional. Eis: «Peço-te que me dês andamento a este embaraço em que eu me vejo com este rapaz: ele tem muita vontade de ser Padre. Vamos a ver se agora o podemos apanhar» [O Gaiato, N.º 477, 23 Junho 1962, p. 3]. Américo Monteiro de Aguiar tinha 14 anos! No ano seguinte, há outro testemunho com interesse, pois em 28 de Junho de 1903, a sua Mãe Teresa voltou a insistir sobre o mesmo assunto do filho mais novo, em carta para o Padre José, escrevendo assim:« Tenho tido um desgosto que tu não imaginas. Tinha-me dito que queria ser Padre. […] Tu depois hás-de arrepender-te.» [O Gaiato, N.º 479, 21 Julho 1962, p. 4]. Américo de Aguiar tinha 15 anos, vivia no Porto e trabalhava numa loja de ferragens, na Rua Mouzinho da Silveira, com pena de não estudar. Estas palavras são um doloroso lamento materno, mas de quem acreditava seriamente na vocação do seu filho Américo. Noutra missiva, de sinal contrário, do seu Tio-Avô Padre Zeferino de Aguiar [8-IX-1835†6-I-1906], padrinho do seu irmão mais velho, em carta a este, datada de 5 de Setembro de 1904, tendo o Américo perto de 17 anos, diz assim: «Noutro dia tive pena do Américo. Lá o vi dentro do balcão… Mas que remédio há senão sujeitar-se: o pano não dá para grandes mangas» [O Gaiato, N.º 482, 1 Set. 1962, p. 4]. De facto, mais tarde, o testemunho da sua Mãe Teresa veio felizmente a confirmar-se e o juízo do Padre Zeferino não. Deus escreve direito por linhas tortas…
Com este pano de fundo vocacional, retomando o fio da meada, recolhemos outro depoimento, de um sacerdote da Diocese de Coimbra, sob o pseudónimo de Manuel do Freixo, em que reza assim: […] Era prefeito e professor do Seminário de Coimbra, quando um dia, já rapaz de quarenta anos, forte, corado, saudável, veio bater ao portão de bronze daquela casa, o Sr. Américo Monteiro de Aguiar, com trabalhos e Moçambique e Londres. E em todas estas andanças não havia perdido a Fé em que havia sido educado no seio duma família católica das cercanias do Porto.
Mas, alma grande, nobre, de aspirações de natureza diversa das que enchem um coração rastejante, gozador, materialista e carnal, veio ali aportar àquela enseada. Queria dar novos rumos à sua vida. Ordenar-se Sacerdote Católico para valorizar mais a alma própria e dar assim a sua mão a outras almas que porventura encontrasse na futura trajectória da sua vida.
Admitida aquela rica vocação tardia, o Américo estudou Filosofia e o Curso Teológico, pois lhe tomaram em conta os estudos que tinha. […] [O Gaiato, N.º 352, 7 Set. 1957, p. 1].

Nas notas precedentes, ficou claro como Américo Monteiro de Aguiar chegou ao portão de bronze do Seminário de Coimbra em Outubro de 1925, acolhido pelo grande Bispo de Coimbra, D. Manuel Luís Coelho da Silva. Assim, finalmente, entrou no coração da Diocese de Coimbra, para seguir o seu percurso formativo em ordem ao sacerdócio diocesano, durante cinco anos. Nestes momentos felizes, poderia ter dito como o salmista: O Senhor me ensinará o caminho da vida, a seu lado viverei na plenitude da alegria! [cf. Sl 15, 11].
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De relance, porque a luz é para ficar em cima do alqueire, é de aproveitar para tecer mais linhas sobre alguns momentos importantes do seu tempo de seminarista maior, em Coimbra. No ano lectivo de 1925-1926, Américo Monteiro de Aguiar frequentou as aulas de Filosofia, sendo seu Professor o Padre Alírio Gomes de Melo [1894 †1973]. Tinham passado cinco meses desde que chegou à portaria do Seminário de Coimbra, em Outubro de 1925, para dar início aos estudos de Filosofia [um ano] e ao Curso de Teologia [quatro anos], quando numa carta para o seu amigo Simão Correia Neves, no Funchal – Madeira, datada de 1 de Março de 1926, o seu irmão mais velho Padre José Monteiro de Aguiar informou que «[…] o Américo está no Seminário de Coimbra, desde Outubro passado, e nesse Seminário acabará a formatura, segundo julgo, pois que ele está satisfeitíssimo e tem dado boas provas nos estudos. Este ano fará os dois exames de filosofia, segundo notícias que tenho de lá.» [O Gaiato, N.º 426, 9 Julho 1960, p. 1]. Assim, em 6 de Julho de 1926, fez exame e foi aprovado com 14 valores.
Seguiu-se o quadriénio Teológico, de 1926-1930. Como era habitual nesse tempo, foi recebendo as Ordens Sacras ao longo da sua formação. Assim, no ano seguinte ao da sua entrada no Seminário de Coimbra, sendo aluno do 1.º ano do Curso Teológico, nos dias 18, 19 e 20 de Dezembro de 1926, Américo Monteiro de Aguiar, com 39 anos, recebeu a Prima Tonsura e as quatro Ordens Menores [Ostiário, Leitor, Exorcista e Acólito], conferidas pelo Bispo de Coimbra, D. Manuel Luís Coelho da Silva [Boletim da Diocese de Coimbra, ano 12, 1926, p. 171].
Em Junho de 1927, concluiu o 1.º ano de Teologia, conforme consta no livro de termos: «No dia[23] de Junho de 1927, fizeram acto das disciplinas do 1.º ano de Teológico: Américo Monteiro d´Aguiar, filho de Ramiro Monteiro de Aguiar, de Galegos, e foi aprovado com treze valores. […] [Arq.º Seminário de Coimbra, Livro de exames, 1927, fls. 68 v.º].
No final de 1927, a passagem do Padre Matéo Grawlei Boevey [1875 †1960] por Portugal, com algumas conferências também em Coimbra – no seu caminho de caixeiro-viajante da devoção ao Sagrado Coração de Jesus – deixou uma profunda impressão espiritual no seminarista Américo Monteiro de Aguiar. De facto, por carta de 27 de Fevereiro de 1928, ao tempo confidencial, para o seu irmão Padre Jaime Monteiro de Aguiar, refere um caso pessoal extraordinário, como o próprio designa: «[…] O caso extraordinário segue agora e por isso mesmo que o é, não consinto que faças uso desta. Padre Mateo é um sacerdote americano que anda pregando por toda a Europa, em todas as línguas. É um génio de santidade, como os há nas artes, letras, armas, etc. Impossível dizer o que ele diz, como diz, e como impressiona. Deu aqui 3 conferências a intelectuais, na n/ nossa sala nobre, que comporta 700 pessoas, sempre à cunha. À última não fui. Desejaria imenso ir. Oh, sim. Desejara. Não fui. Um sacrifício. Durante a conferência ´conversei´ com Deus, de joelhos. Pedi para que aqueles intelectuais vissem todos o que eu dantes não via e agora vejo. Mas pelo menos um, Senhor, disse eu. Sequer um, dos mais sábios e mais desgraçados. No final da conferência aparece um cavalheiro, Dr. X, deu-me o cartão, e o que se passou entre nós ninguém o saberá. No dia seguinte, sábado, levava-o ao quarto do Padre Matéo e no dia seguinte ainda, Domingo, na falange de 492 intelectuais que comungaram à Missa do Padre, ajudando Dr. Y e um quintanista de Direito, vi o meu herói, que no fim, às escondidas, com os olhos marejados, me agradece tamanho favor. Eis o caso.
Oh, nunca! Não! Homens que eu nunca vi, doutores em leis, abraçam-me em extasis de alegria e os queridos irmãos, os meus íntimos amigos, hão-de continuar vivendo, sentados na sombra da morte?! Nunca! Não!
Hás-de; haveis de ser meus. […]» [O Gaiato, N.º 496, 16 Março 1963, p. 1].

Este belo naco de prosa preciosíssimo, saído da pena de Américo Monteiro de Aguiar, com 40 anos, sendo aluno do Seminário de Coimbra, no 2.º ano de Teologia, é um testemunho pessoal muito eloquente do cerne da verdadeira espiritualidade cristã: a oração! De facto, assim fez ao longo da sua vida de amigo de Deus e dos pobres, pedindo ardentemente a conversão dos seus irmãos, pelo menos um, como neste caso extraordinário, em que afirmou: ´conversei´ com Deus, de joelhos… para que aqueles intelectuais vissem todos o que eu dantes não via e agora vejo!

