Há qualquer coisa de profundamente desarmante na Quarta-feira de Cinzas.
Começamos com o pó. Com a cinza. Com a marca da nossa fragilidade desenhada na testa. Não começamos com luzes, nem com cânticos festivos, nem com promessas de sucesso espiritual. Começamos pequenos. Começamos lembrados de que somos pó — e que, mesmo assim, somos infinitamente amados.
A Quaresma não entra nas nossas vidas nas pontas dos pés. Ela entra a dizer “abranda”. Entra a pedir espaço. Entra a convidar-nos a percorrer um deserto.
E a verdade é esta: ninguém gosta muito da palavra “deserto”. O deserto é árido. É silencioso. É exigente. Não tem distrações. Não tem atalhos. No deserto só permanece o essencial.
Talvez seja precisamente por isso que precisamos tanto dele.
Durante estes 40 dias somos convidados ao jejum e à abstinência. Mas reduzir a Quaresma a não comer carne à sexta-feira seria como pintar a porta de casa e deixar o interior por arrumar. O jejum que Deus nos pede vai muito além do prato que podemos ter à nossa mesa. É o jejum de palavras que ferem. É a abstinência de julgamentos rápidos. É cortar com os pequenos vícios que nos afastam do Senhor.
Já o apóstolo Tiago nos alertava: com a mesma boca podemos bendizer a Deus e amaldiçoar os homens. A mesma língua que reza pode também espalhar murmúrios, críticas e mexericos. E talvez um dos jejuns mais urgentes para este tempo seja exatamente este – jejuar do mal dizer.
Porque palavras constroem — mas também destroem.
A Quaresma é uma escola de pequenez. Não da pequenez que diminui, mas da que purifica. A pequenez de quem reconhece que precisa de conversão. De quem aceita que ainda tem muito a trabalhar no coração.
Por isso partilho convosco três dicas práticas para atravessar bem este deserto, sem desistirmos a meio:
1. Escolhe não um jejum que te custe — mas que te transforme
Jejuar não se trata de “heroísmo público”. Trata-se de coerência interior. Talvez seja menos açúcar, talvez seja menos tempo nas redes sociais, talvez seja menos comentários sobre a vida dos outros. Escolhe algo concreto. E mantém-te fiel. O autocontrolo é um músculo espiritual – fortalece-se com o treino.
O profeta Joel já dizia que não basta rasgar as vestes, é preciso rasgar o coração. Jesus, no Evangelho de Mateus, recorda-nos também que o jejum verdadeiro acontece no segredo, onde só o Pai vê. O que transforma não é o sacrifício visível — é a intenção invisível.
2. Prepara o coração antes de mudar comportamentos
Podemos mudar hábitos exteriores e continuar iguais por dentro. A Quaresma começa no coração de cada um de nós. Reserva tempo para o silêncio. Para a oração. Para escutar. O deserto só é fecundo quando deixamos Deus falar. Caso contrário, é apenas barulho interior disfarçado de sacrifício.
Deus não grita no meio do ruído. Como nos diz o profeta Oseias, Ele conduz-nos ao deserto para nos falar ao coração. Antes de mudarmos os nossos gestos, deixemos Deus moldar o nosso interior.
3. Substitui o que retiras por algo que te aproxima
Se tiras tempo às redes sociais dedica esse tempo à Palavra.
Se cortas numa crítica dedica esse tempo a abençoar o outro.
Se decides jejuar de impaciência – pratica a escuta.
A Quaresma não é um vazio — é uma troca.
Não é perder – é recentrar.
O profeta Isaías é claro: o jejum que agrada a Deus é aquele que solta as amarras da injustiça e reparte o pão com quem tem fome. São Paulo lembra-nos que da nossa boca só devem sair palavras que edifiquem. A Quaresma não é apenas retirar — é substituir. Não é esvaziar por esvaziar – é criar espaço para o bem.
Talvez entremos nesta Quaresma cansados. Talvez entremos distraídos. Talvez entremos como sempre entrámos.
Mas Deus não faz “como sempre”. Ele pega nas nossas cinzas e faz caminho. Pega nas nossas fragilidades e faz encontro. Pega no nosso deserto e faz promessa.
Que estes 40 dias sejam verdadeiramente deserto. Não um castigo – mas um caminho.
Que na aridez das nossas rotinas encontremos luz.
Que no silêncio descubramos direção.
Que no autocontrolo nos aproximemos mais de Jesus.
Porque no final de contas, a Quaresma não é sobre o que fazemos por Deus – é sobre o que Ele já fez por cada um de nós.
Ele deu a vida por mim.
Ele deu a vida por ti.
E talvez o mínimo que possamos fazer seja preparar o nosso coração.
Que esta Quaresma não seja apenas um tempo no calendário – que seja um tempo no coração de cada um de nós.

