Na sequência dos apontamentos sobre a entrada de Américo Monteiro de Aguiar no Seminário de Coimbra, cujo centenário [1925-2025] foi justamente celebrado no próprio coração da Diocese, em 4 de Outubro do ano transacto, com a presença do Bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, da família da Obra da Rua e de muitos amigos, pela sua importância na biografia do Venerável Padre Américo, anotam-se mais algumas informações sobre a sua vida no tempo formativo para a ordenação presbiteral. O seu testemunho de vida sacerdotal e de amor aos pobres, de promoção da dignidade humana, tem sido e continuará a marcar muitas gerações de pessoas e como exemplo de vida cristã e para novas vocações. Canonizado no coração do povo, bem merece a honra dos altares!…
Como seminarista maior, entre candidatos mais novos, foi um bom exemplo para os seus companheiros, como Augusto Nunes Pereira [1906†2001], por quem intercedeu no seu percurso artístico, para continuar a desenvolver os seus dotes artísticos, integrando-os na sua formação para o presbiterado, conforme este testemunho: «Pode-se ser padre e artista […]. Repara, por exemplo, em Fr. Angélico que, sem deixar de ser um bom monge, foi o artista que foi.» [vd. Correio de Coimbra, 7 Agosto 1980, p. 4].

No Seminário de Coimbra, Américo de Aguiar revelou-se um grande artista das palavras escritas, com um veio franciscano. De facto, nesse tempo formativo, redigiu crónicas belas e saborosas, sob o pseudónimo Frei Junípero, colaborando na preciosa revista manuscrita dos seminaristas desse tempo – Lume Novo, do N.º 1, de 8 de Dezembro de 1926, ao N.º 13, de Junho de 1930, preservada no Arquivo do Seminário de Coimbra.
Entre vários testemunhos sobre o seminarista Américo Monteiro de Aguiar, recolhemos o depoimento do companheiro Luciano Pereira de Carvalho, impõe-se, antes e como memória grata, uma breve nota biográfica sobre este bom sacerdote de Coimbra. O Padre Luciano Pereira de Carvalho nasceu a 23 de Fevereiro de 1909, em Urzelhe, freguesia de Lamas, no concelho de Miranda do Corvo. Era filho de Francisco Pereira de Carvalho e de Maria Ferreira Pereira. Foi admitido no Seminário de Coimbra em 1921-1922; e foi ordenado Presbítero a 2 de Agosto de 1931, pelo Bispo de Coimbra, D. Manuel Luís Coelho da Silva. Depois, foi Coadjutor em Ílhavo. Em 1932, foi nomeado Pároco de Gesteira, Brunhós, e depois Vila Nova de Anços – Soure. Em 1938, foi transferido para Portela do Fojo e Machio; e, em 1940, para Cabril, Vidual e Fajão – Pampilhosa da Serra. De 1953 a 1958, foi Pároco de Mata Mourisca – Pombal. A seguir, foi nomeado para Vila Seca e Bendafé, e finalmente Lamas. Passou, recolhido, os seus últimos anos de vida no Seminário da Figueira da Foz; onde veio a falecer a 3 de Agosto de 2001. O cortejo fúnebre seguiu para Lamas, onde foi celebrada Missa exequial, presidida pelo Bispo emérito de Coimbra, D. João Alves; e foi sepultado no cemitério local. De notar que foi um bom investigador da história local [vd. Lamas de Miranda do Corvo, nos ´Escritos´do Sr. Padre Luciano, 2024].

As lembranças do Padre Luciano Carvalho são preciosas, pela sua proximidade e amizade com Américo de Aguiar, revelando um bom colega mais velho, viajado e alegre! Eis:
«1.º AQUELE FIDALGO
Lembro-me como se fosse hoje. Estava nos últimos anos de preparatórios. Íamos a sair de passeio. Olhávamos com curiosidade aquele fidalgo que nos fora dado por companheiro.
Não tinha ainda a indumentária de seminarista e, por isso, envergava as suas roupas claras e principalmente aquela gabardine ´cegava-nos´. Não parecia à vontade, por assim trajar, pois há pouco despira o burel franciscano. Mas que bem lhe ficava aquela roupa! Era homem, como ele dizia mais tarde, a rir, que sabia pisar alcatifas.
No passeio havíamos de conhecer o fidalgo… Porém, à saída, logo é procurado por alguns amigos, seus antigos companheiros de África – soubemo-lo mais tarde. E nunca mais o vimos à civil.
2.º O CONFIDENTE
Tinha idade para ser nosso pai, mas ganhámos-lhe todos tal amizade que, em breve, nos tratávamos por tu.
Nos recreios, ambicionávamos estar junto dele. A sua experiência ensinava-nos tanta coisa… Não desprezava ninguém. O seu coração para todos estava aberto.
Lembra-me duma aula de Teologia em que nem o Professor me compreendia nem eu compreendia o Professor. Esperava ser chamado a certa lição e gastei, a preparar-me, nove horas. Podia sabê-la de cor. Afinal não saímos da epígrafe!
O condiscípulo Américo, à saída da aula, puxa-me e vê as lágrimas de desespero, caindo em grossas gotas, dos meus olhos de vinte anos. Arrasta-me ao seu quarto na ´Casa nova´, ouve a minha história, limpa-me o pranto, fala com o Professor… e tudo mudou.
Sobre a palavra ´chatice´ e contra ela, prevenia-nos de que já tinha aparado lágrimas amargas a um que a usava muito. Pelo que se vê, sabia e gostava de aparar lágrimas.

3.º O COMPANHEIRO
Na colónia de férias de Buarcos, o Américo era a alma das nossas diversões. Aquelas fotografias são preciosas.
Dum passeio às docas da Figueira, regressávamos a Buracos numa traineira. O Gaspar (Professor José Maria Gaspar) teimou arrojadamente ir no ´dóri´. Nessa viagem tornou-se mais branco… Estava à carga um barco inglês e dissemos ao Américo: ´fala para eles´. Não se fez rogado e dizia depois: ´eles, a falar inglês, são como os nossos provincianos a falar português´. E acrescentava modestamente: ´falo e escrevo à vontade o inglês que o português´.
Por esses tempos, ainda pouco se falava em telefonia. O Snr. Cónego Tomás F. [Fernandes] Pinto tinha pois ao nosso dispor uma grafonola. Ora, numa tarde em que girava um disco com uma valsa, Américo agarra uma enxada, faz dela o seu par e dançou com tal primor, que nós todos ficámos suspensos de admiração.
Foi com ele que aprendi a palavra ´pitéu´; foi feita por ele a primeira salada de tomate que comi; e com ele é que aqueles púcaros de esmalte que serviam à água, vinho, café, etc., ficaram consagrados ´adómnias´ – para tudo… […]» [vd. O Gaiato, N.º 399, 27 Junho 1959, p. 1, 4.].
Estas memórias curiosas, pela mão de Luciano Carvalho, não ficam por aqui. Na próxima edição, continuarão as recordações de um companheiro de Seminário que o conheceu de perto e ajudam a traçar um perfil interessante, com facetas menos conhecidas de Américo Monteiro de Aguiar, como seminarista da Diocese de Coimbra.

