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«Acompanhar com proximidade e ternura»

Jorge Cotovio

Jorge Cotovio

Cresci também à sombra da revista Além-Mar, recebida mensalmente em casa de meus pais. Quando de lá saí, e constituí família, iniciei a assinatura e continuei a acompanhar as lides dos Missionários Combonianos. Fiquei e fico “fascinado” com os relatos vindos de África, da América Latina, da Ásia. As sementes lançadas pelos missionários em terras de “além-mar” vão dando frutos: os seminários vão ficando cheios, e em muitas das nossas congregações religiosas, sobretudo femininas, as novas vocações vêm de lá.

O inverno clerical, que vamos assistindo no nosso país (e na Europa em geral), aproxima-se do que já sucedeu (e ainda sucede, porque as terras são muito extensas…) por lá. Porque não aprender com os missionários? Porque não procurar entender como é que num deserto inóspito de cristianismo se criam oásis de fé em Jesus Cristo?

© Foto Além-Mar
© Foto Além-Mar

Nesta linha, e (ainda) no contexto dos (meus) artigos expressamente escritos sobre a liderança de comunidades, ouso partilhar o testemunho do Pe. Alessio Geraci, missionário comboniano no Perú, publicado na revista Além-Mar de fevereiro passado, intitulado “Acompanhar com proximidade e ternura”.

São apenas três padres para uma paróquia de 100 mil pessoas, dispersa por treze comunidades. Qual a estratégia “de sucesso” que utilizam? Muito simples: “A paróquia segue um plano pastoral conjunto que nos ajuda a superar a improvisação, o imediatismo e a falta de horizonte no trabalho. Todos – sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, leigos e leigas – estamos envolvidos num caminho de comunhão e participação com sentido missionário. Aqui vemos também realizado o sonho de São Daniel Comboni de dar protagonismo aos leigos, fazendo com que não sejam apenas simples recetores da evangelização, mas parte ativa” (admirável este sonho, como mais de 150 anos!).

Perante um território marcado pela pobreza, insegurança, criminalidade e corrupção, os sacerdotes assumem-se como “conselheiros espirituais” e a palavra inspiradora da sua ação é “acompanhar”: “Acompanhar nas alegrias e nas tristezas, manifestando com palavras e gestos concretos de proximidade e ternura que o Deus da Vida é realmente um Deus connosco, um Deus amigo, um Deus em quem podemos confiar, porque Ele só procura a nossa felicidade”. Desta forma, a paróquia assegura, entre outros serviços, atividades e celebrações, refeitórios comunitários, farmácia, centro de fisioterapia e terapia ocupacional para crianças e adultos, reforço escolar para alunos mais carenciados, apoio psicológico, ajuda às famílias mais pobres. Neste quadro, o ritmo do dia destes três presbíteros gira à volta das reais necessidades das suas ovelhas: “visitas aos doentes, acompanhamento às pessoas que choram a morte de um ente querido ou, nos tempos litúrgicos fortes, visitas às escolas”, sem descurar “outro momento central do dia”, que é o atendimento no cartório paroquial: “As pessoas vêm para se confessar ou simplesmente em busca de conselho ou de uma palavra de esperança”.

© Foto Além-Mar
© Foto Além-Mar

Ou seja, os presbíteros (certamente com a colaboração dos diáconos e consagrados) assumem a sua vocação específica, como “conselheiros espirituais”, deixando o resto – a gestão administrativa e a atividade social – para os leigos. Com esta organização, o Pe. Alessio confessa que “acompanhar os responsáveis paroquiais pela ação social é realmente uma bênção”.

Cada vez creio mais que esta crise de vocações clericais, religiosas e laicais (sim, laicais) é um sinal do Espírito para potenciarmos os (muitos) talentos que cada membro da Igreja possui, e caminharmos juntos (sinodalidade) na “salvação” das pessoas marcadas pela falta de esperança e pelo sofrimento. Atendendo – prioritariamente – às pessoas e não às coisas.

Não deixando, vivamente, de aconselhar a leitura integral do texto do Pe. Alessio, não resisto à tentação de reproduzir as últimas linhas deste sublime testemunho: «O meu serviço não consiste apenas em celebrar a Eucaristia ou confessar, mas, acima de tudo, em ouvir, consolar, aconselhar e ser reflexo do amor misericordioso do Pai, que “não nos trata de acordo com os nossos pecados”, porque “é ternura e compaixão, lento para a ira e cheio de amor”. Experimento que, às vezes, a única forma de falar de Deus é calar-se e dar um abraço cheio de ternura e esperança».

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