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«Há a capacidade de criarmos paisagens olfativas»

O padre e teólogo Pedro Alexandre Pinto dos Santos publicou, através do Secretariado Nacional de Liturgia, uma obra de 500 páginas que resgata o olfacto para o centro da celebração.

“O olfacto é um sentido esquecido na Teologia e desconhecido na Liturgia” 

Em entrevista, o Padre Pedro Santos aborda a força dos perfumes na experiência da fé, a importância de criar “paisagens olfativas” nas igrejas e a riqueza sensorial de uma obra com mais de 500 páginas.  O autor partilha o percurso biográfico e a urgência pastoral que o levaram a estudar as fragrâncias do divino, uma obra recentemente lançada.

O olfacto é, muitas vezes, um sentido esquecido na Teologia e desconhecido na Liturgia… Como é que decidiu por este tema?

O tema nasce, em primeiro lugar, de reconhecer a importância da sensibilidade na liturgia. A celebração da Igreja tem uma dimensão performativa do mistério da fé que, naturalmente, não é apenas uma questão intelectual. Envolve a pessoa toda, as suas potencialidades. Nós somos uma realidade integral. Temos a capacidade de ver, escutar, tocar, saborear, e o olfacto é uma das potencialidades que temos. Uma experiência integral envolve todos estes códigos da sensibilidade.

Mas há também um cunho pessoal e biográfico na origem deste livro, logo nas primeiras páginas… 

Sim, e eu abordo isso na introdução. Tem a ver com a forma como o olfacto acabou por estar ligado ao meu percurso de fé de uma forma absolutamente inesperada. Houve um dia em que, já sendo padre, voltei à igreja da minha aldeia, em Almagreira, Pombal. É um lugar muito especial: fui lá batizado, fiz as festas religiosas e fiz o meu discernimento vocacional. Nesse dia, houve um cheiro que me chamou a atenção, provavelmente as flores com que estava adornada a igreja. Sentir o cheiro daquela igreja fez-me recordar, com uma intensidade nunca experimentada, toda a história que estava para trás. Percebi, naquela altura, a força que o odor pode ter na nossa vida.

“Sentir o cheiro daquela igreja fez-me recordar, com uma intensidade nunca experimentada, toda a história que estava para trás”.

P. Pedro Santos

No prefácio da obra, o Bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, refere que este estudo é uma “novidade”. Sentiu algum tipo de interesse quando propôs o tema? 

Sim, desde o primeiro momento, havia gente que dizia que era um tema totalmente interessante porque ninguém o tinha estudado dessa maneira. Mas também tive muita gente que disse: “Vais estudar isso?”. Recordo-me de um professor meu em Roma, o padre Norbert Balli, a quem eu disse que estava a estudar o olfacto na Liturgia. Ele perguntou-me: “Há alguma coisa a dizer sobre isso?”. Eu respondi: “Não sei, vou descobrir” (risos). O livro acaba por ser uma novidade porque se percebe uma realidade completamente diferente e a força que o perfume pode dar a uma celebração litúrgica.

Como se propõe uma leitura desta obra a um anósmico, a alguém que não tem cheiro?

Sim, nós propomos um livro, naturalmente, e fazemos uma reflexão naquilo que é o ideal.

Também há muita gente que, infelizmente, não vê e por isso não deixa participar na Liturgia. Há outros códigos das pessoas que, por alguma infelicidade, não dispõem de todos os códigos naquilo que é a sua sensibilidade, em que terão de trabalhar outras formas, ou seja, quem não ouve tem a língua gestual, quem não vê tem, de facto, a dimensão olfativa e a dimensão auditiva.

E uma das coisas que nós percebemos é que quem, por algum motivo, se tornou anósmico, é uma pessoa que perde uma parte significativa da sua qualidade de vida e da sua alegria de viver e do prazer que tem também na própria vida.

E por isso, mais um motivo para vermos a importância que o perfume tem, porque está naturalmente associado às memórias intensas, mas, às vezes, menos fidedignas, curiosamente, mas mais intensas. 

A questão, por exemplo, das emoções, muito da nossa parte emotiva, está associada também aos odores, o gosto que temos na comida, o conhecimento e o reconhecimento das pessoas, a relação que temos com as pessoas, é muito interessante.

Eu já não sou capaz de reproduzir isso, não é propriamente o meu âmbito de estudo, ainda que eu tenha referido isso mas, aparentemente, segundo alguns estudos no âmbito das neurociências e no âmbito daquilo que é todo o nosso aparelho olfativo, existe uma enzima qualquer que está associada ao nosso ADN e que nos permite ter um odor que é único e irrepetível, ou seja, cada pessoa tem o seu olfacto, tem o seu odor.

E há coisas muito interessantes, estudos muito interessantes, as crianças são capazes de reconhecer a mãe pelo olfacto, ainda antes de conseguirem ver, e, às vezes, até a própria mãe conseguir reconhecer o filho pelo olfacto.

O livro aborda o cuidado do espaço sagrado. Uma experiência olfativa negativa pode afastar as pessoas da experiência de Deus? 

Influenciou-me muito um percurso que fiz, ainda no seminário, pelas igrejas da Baixa de Coimbra. No final, a experiência foi de enjoo, dor de cabeça e má disposição. Há vinte e muitos anos, a sujidade, o cheiro a mofo e o mau odor que encontrávamos em algumas igrejas não nos predispunham para a experiência da fé. 

Hoje as igrejas estão muito bem cuidadas. Mas isso mostra que o cuidado do espaço, a limpeza, o arejamento e a forma como os elementos olfativos compõem uma paisagem agradável facilitam, ou não, a nossa disposição interior para a Liturgia.

Conseguimos definir, por exemplo, qual é o “cheiro da oração”? 

Associamos facilmente o cheiro do incenso ao transcendente, ao mistério da fé. Mas muitas vezes ele fica reduzido às celebrações festivas, como a Festa da Aldeia ou o Domingo de Páscoa. Eu creio que o cheiro da oração pode ser aquilo que nós associamos àquele momento profundo que experimentamos.

Uma das coisas que proponho no livro, na parte da ‘pastoral do perfume’, é a capacidade de criarmos “paisagens olfativas”, associando a determinadas celebrações, específicos odores. Comecei a fazer isto este ano na Sé de Coimbra. Comprámos uma panóplia de incensos: florais para as celebrações marianas, de Belém para o Natal, e aromas específicos para a Missa Crismal e para o Tríduo Pascal. Queremos ajudar, quem participa, a criar memórias olfativas, para que, ao sentir aquele cheiro, associe imediatamente ao mistério que se está a celebrar.

Quando nós fazemos uma experiência profunda de encontro com Deus e com o seu mistério através da oração, se calhar facilmente podemos associar aquele odor.

Quando nós fazemos uma experiência profunda de encontro com Deus e com o seu mistério através da oração, se calhar facilmente podemos associar aquele odor.

P. Pedro Santos

O livro viaja também pela riqueza dos textos bíblicos e pela literatura medieval. De que forma o perfume aparece na história da salvação? 

Desde o início da História, o mundo dos perfumes é associado ao mundo divino. Quando Deus cria o paraíso, cria um jardim perfumado. Pelo contrário, o mau odor está associado à morte e ao pecado. Em período medieval, o pecado de Adão e Eva era tratado como a perda do bom odor de Deus, sendo depois revestidos com peles de animais mortos, o cheiro da morte. Há também a lenda cristã de que, ao ser expulso, Adão retirou um ramo da árvore da vida, que era perfumada. Conta-se que, desse ramo se teria feito a manjedoura de Jesus e, mais tarde, a própria cruz, a nova árvore da vida.

E nos Evangelhos, o olfacto também tem o seu lugar central? 

É muito interessante notar que o relato da ressurreição de Lázaro aparece no Evangelho de João numa espécie de “inclusão perfumada”. O texto começa por fazer referência a Maria, aquela que ungiu os pés de Jesus com perfume. Portanto, o bom odor é anunciado logo antes de falar do mau odor de Lázaro, daquele que “já cheira mal porque está há quatro dias no túmulo”.

Nicodemos e José de Arimateia levam para o sepultamento de Jesus uma quantidade absolutamente colossal de perfume, o equivalente à sepultura de um imperador. Toda a experiência do odor da morte é suprimida pelo bom odor de Cristo.

Trata-se de um livro grande, com mais de 500 páginas. Qual é a maior dificuldade para o leitor comum?

Quem vê o livro, ser aparentemente grande, pode perder logo a vontade de ler, mas eu acho que, apesar de tudo, o livro é pouco técnico. Pensei na utilidade que pode ter como literatura científica, mas ao mesmo tempo que não fosse apenas para especialistas. Qualquer pessoa pode ler este livro. O primeiro capítulo é a parte mais difícil, porque envolve muita dimensão filosófica sobre a corporeidade na ação celebrativa. Mas é muito fácil ler cada capítulo como uma unidade independente.

É muito fácil ler cada capítulo como uma unidade independente.

P. Pedro Santos

Pode ler-se o perfume na antropologia cultural, na Sagrada Escritura, ou nos Padres da Igreja. O livro é uma antecipação da participação plena na Jerusalém Celeste, onde o altar dos perfumes queima incenso ininterruptamente e onde as próprias pedras preciosas são vistas, na literatura medieval, como perfumes cristalizados.


O livro pode ser adquirido no site do Secretariado Nacional de Liturgia ou na Livraria Cultura e Fé, em Coimbra.

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