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O Futuro da Religião passa pela via Contemplativa

Cristina Novo

Cristina Novo - Para nos pensarmos

No inicio deste mês (30 de Abril a 3 de Maio) esteve em Coimbra o padre beneditino Laurence Freeman que atualmente preside à Comunidade Mundial da Meditação Cristã.

Veio a Portugal divulgar a Meditação Cristã primeiro com conferências em Lisboa (Capela do Rato e Brotéria), depois no Porto (Universidade Católica) e finalmente em Coimbra onde orientou um retiro para a comunidade nacional e fez uma conferência no Salão de S. Tomás e outra no Auditório dos CHUC no dia 4, no âmbito do Serviço de Humanização da ULS de Coimbra.

A Comunidade Mundial de Meditação Cristã existe há meio século e todos os anos há um tema comum que a comunidade se dedica a refletir em conjunto. Este ano escolhemos “o futuro da religião”. Este tema tem gerado uma interessante reflexão. E todos os meses um conferencista, um pensador, online, de diferentes partes do mundo dá-nos o seu contributo.

Gostaria de neste breve apontamento deixar um resumo das palavras ditas pelo padre Laurence Freeman no Salão de São Tomás, onde esteve também o nosso bispo, presença que muito alegrou o conferencista. (As perguntas e respostas são do orador com tradução livre feita para este artigo)

Para perceber o futuro da religião temos de nos perguntar primeiro para que serve a religião? Qual é o seu propósito?

É algo que faz parte da humanidade há milhares de anos, que é tratado com grande reverência e cuidado. Desde do homem de Neandertal. Claro, que durante o longo período da história da humanidade, a religião, como a humanidade, mudou. Mas, há algumas semanas falando com um líder imã fiquei bastante impressionado, porque ele veio ao encontro do meu pensamento, quando disse que o futuro da religião deveria incluir a recuperação de um nível profundo do espírito de oração onde se encontra o coração das grandes tradições religiosas. Acrescentou ainda que todas as tradições religiosas são chamadas a este desafio comum: de encontrar a fonte profunda de onde brota experiência religiosa particular de cada fé. Também disse que a boa religião depende do diálogo profundo, um diálogo significativo baseado na experiência de oração. Por outras palavras, disse que o diálogo sem meditação (sem a oração do silêncio) permanece superficial. Para mim foi muito inspirador ouvi-lo.

Tradicionalmente há três grandes pilares na religião: o institucional que é responsável por regras e observâncias, pela liturgia e hierarquia; o intelectual que é o filosófico, teológico e se debruça sobre o significado da fé e o místico que vai acontecendo em toda a Igreja. Não está ligado nem ao institucional nem ao intelectual, mas acontece livremente ao longo de toda a história e em muitas partes do mundo.

Todas as três dimensões estão em contacto, funcionam juntas e a história da Igreja mostra isto muito bem. Por exemplo durante o Concilio Vaticano II houve uma grande autorreflexão do Cristianismo que levou a uma metanoia, começou uma mudança do coração e da mente da Igreja. A Igreja percebeu que não era uma alternativa ao mundo, mas que fazia parte do mundo, estava ligada ao mundo, amava o mundo, servindo o mundo e sendo, também, testemunha e profeta no mundo com coragem defendendo a justiça e combatendo o mal.

A segunda dimensão que surgiu do Concilio Vaticano II, e eu sublinho esta dimensão, foi a reabilitação da dimensão contemplativa como algo que afeta a fé da Igreja em todos os membros. Num dos documentos conciliares diz-se que nenhum dos membros do povo de Deus é privilegiado no crescimento espiritual pois todos são chamados igualmente à santidade, ou seja todos nós somos chamados a uma maturidade Cristã.

Como é que a meditação nos pode ajudar neste chamamento?

A meditação é uma sabedoria universal. O Livro da Sabedoria diz: “Por isso eu supliquei, e a inteligência me foi dada. Invoquei, e o espírito da sabedoria veio até mim. Eu a preferi aos cetros e tronos e, em comparação com ela, considerei a riqueza como um nada. Não a comparei com a pedra mais preciosa, porque todo o ouro, ao lado dela, é como um punhado de areia. E junto dela, a prata vale o mesmo que um punhado de barro. Amei a sabedoria mais do que a saúde e a beleza, e resolvi tê-la como luz, porque o brilho dela nunca se apaga. Com ela me vieram todos os bens, e em suas mãos existe riqueza incalculável. Gozei de todos esses bens, porque é a sabedoria que os traz, mas eu ignorava que fosse ela a mãe de todos eles.Sem malícia, aprendi a sabedoria, e agora sem inveja nenhuma. Não vou esconder sua riqueza, porque ela é um tesouro inesgotável para os homens. Aqueles que a adquirem atraem a amizade de Deus, porque são recomendados pelo dom da instrução dela.” (Sab 7,7-14)

O livro da Sabedoria também recorda que a salvação do mundo depende do aumento do número de pessoas com sabedoria. Não nos diz quantas pessoas sábias são necessárias, mas claramente precisamos de mais porque o mundo não se está a mover numa direção muito sábia.

Quando olhamos para o que está a acontecer no ambiente, na nossa democracia, na nossa vida social ou no aumento da doença psicológica e mental percebemos que é necessário parar e resolver toda esta violência. Nada disto é sábio, pelo contrário é muito perigoso.

Eu penso que é por esta razão que muitas pessoas se interessam, novamente, pela dimensão mística da religião. Dizem: eu não sou religioso, sou espiritual. Eu não sei bem se concordo. Penso que a boa religião é extremamente benéfica para a humanidade, mas para tal precisa de estar ligada à fonte, à fonte contemplativa ou mística. Como Cristãos já estamos unidos uns aos outros nesta nossa fé única em Cristo apesar das muitas e diferentes formas de o expressarmos. Há ainda uma grande divisão, suspeita e separação entre as Igrejas o que constitui um escândalo para o resto do mundo.

Assim, na minha experiência podemos dizer que recuperar a nossa tradição comum da oração do coração contribui para a força evangelizadora da Igreja e para dar testemunho da pessoa e do ensinamento de Cristo.

A palavra Meditação está relacionada com medicina que sugere cuidado e atenção, o cuidado e atenção que devemos prestar a nós próprios, de forma a encontrarmos Deus. Não nos centrarmos em nós, mas deixarmos que Deus seja o nosso centro. E se isso acontecer o fruto da Meditação será a compaixão, o amor pelos outros.

Eu aprendi a meditar com o meu mestre o monge beneditino John Main há 50 anos e nessa época, como agora, muitas pessoas abandonavam as suas raízes cristãs à procura de algo mais profundo em outras tradições religiosas: no Budismo e no Hinduísmo. Felizmente temos a liberdade de poder fazer isso, mas se calhar o mais proveitoso é procurar aprofundar a nossa própria tradição.

Logo que começamos a meditar na nossa própria tradição abrimo-nos ao diálogo com outras tradições religiosas e a Igreja Católica, talvez mais do que qualquer outra igreja tem a iniciativa do diálogo inter-religioso. Esta é a nossa esperança para que as divisões possam ser ultrapassadas.

Podem perguntar-me onde estão as raízes da Medição no Cristianismo? Na verdade, no Oriente (na Igreja Ortodoxa) elas nunca foram esquecidas, as crianças são ensinadas logo de pequeninas a rezar a oração do coração. E se ouvirmos o ensinamento de Jesus sobre a oração: “entra no teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai no segredo” (Mt 6,6), está a referir-se à necessidade de alimentar a interioridade, esta relação privilegiada com o Espirito que nos permite estar na presença de Deus. O convite que Jesus nos faz é entrar no nosso quarto e permanecer em silêncio para Escutar o Pai. “Quando rezardes não useis muitas palavras como os pagãos, porque o Vosso Pai já sabe o que precisais antes de vo-Lo pedir-lhes” (Mt 6,7).

Há vários tipos de silêncio: o silêncio de quem se recusa a comunicar, ou o silencio da ignorância, ou o de quem não sabe o que fazer, mas o silêncio da tradição mística é um silêncio de comunhão. São Boaventura, um dos grandes doutores da Igreja diz que num certo nível de oração todas as operações da mente devem ser silenciadas.

A terceira coisa que Jesus diz sobre a oração é que não nos devemos preocupar: equanimidade e mente calma. Frequentemente quando começamos os nossos tempos de oração trazemos os nossos problemas, ansiedades, medos, ideias, listas de compras, preocupações do dia-a-dia. Jesus diz-nos: não te preocupes. Não te preocupes com o que comer ou com o que vestir, olha para os pássaros do céu e as flores do campo. Por outras palavras toma consciência da tua natureza e no tempo de oração demos autorização a Deus a ser Deus.

O outro elemento do ensinamento de Jesus sobre a oração é pormos toda a atenção no Reino de Deus e que tudo o resto virá por acréscimo: por outras palavras é viver de uma forma simples, não compulsiva ou fanática. As pessoas hoje, sobretudo os mais novos, perderam a capacidade de focar a sua atenção, mesmo que seja por curtos períodos e a atenção é a base dos relacionamentos humanos. Se não conseguimos prestar atenção ao momento presente não conseguimos viver uma vida de qualidade.

Estes são os elementos que Jesus ensina sobre a oração: interioridade, silêncio, equanimidade, atenção e viver no momento presente. Jesus é o mestre da Contemplação. Sozinho ou com os discípulos os evangelhos estão sempre a mencionar-nos que ele se retira para estar só.

Numa exortação sobre a santidade (Gaudate et Exsultate) o Papa Francisco diz-nos que santidade é integridade e integridade é saúde. Isto quer dizer que precisamos de viver em harmonia connosco próprios. Neste documento, o Papa diz que não é necessário ser religioso para ou viver num convento para ser santo, todos somos chamados à santidade independentemente da vocação que vivemos, mas todos precisamos de ter um tempo de silencio no nosso dia para dedicarmos a por em prática os ensinamentos de Jesus.

Não sei qual vai ser o futuro da religião, nem da Igreja, mas há dois elementos que reconheço como fundamentais: um é o papel dos leigos. Por isso, o Papa Francisco iniciou o importante Caminho Sinodal, algo nunca antes feito. Consultar a Igreja em todos os seus níveis. Provavelmente a Igreja do futuro será aquela onde haverá um grande espirito de liderança compartilhada e consulta a todos os níveis.

Karl Rahner escreveu um ensaio “o futuro do Cristianismo” publicado em 1965 e na sua primeira frase dizia que o Cristianismo ou seria místico ou não seria. Estive há pouco tempo na Austrália onde já foi introduzida a prática da meditação diária nas escolas católicas: 1minuto por cada ano de idade, se tem 5 anos medita por 5 minutos. Felizmente, isto já acontece em muitos lugares do mundo. Estas crianças aprendem a meditar na escola e meditam em casa também. A meditação torna-se parte das suas vidas. É um sinal de esperança para o futuro.

Não quero com isto dizer que todas as outras formas de oração não são válidas: a lectio divina, a oração inaciana, o rosário, a oração carismática. Todas têm a sua importância. Olhemos para a imagem de uma roda: no centro da roda está a contemplação, a quietude, a oração do silêncio, é o eixo que a faz girar. Assim, a meditação não substitui outras formas de oração, mas muda a forma como se pensa a oração.

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