“Encaro este serviço como uma proposta de Deus”

A médica cardiologista assume a liderança de um serviço pioneiro na Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, que abrange oito hospitais e 26 centros de saúde. Sílvia Monteiro explica que a humanização não é um conceito vago, mas uma decisão diária de entrega.
Sílvia Monteiro, como podemos apresentar o Serviço de Humanização da ULS Coimbra, que tem uma abrangência enorme…
Exatamente. Este serviço acompanha oito hospitais e 26 centros de saúde. Falamos do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, (Hospitais da Universidade de Coimbra, Hospital Geral, Hospital Pediátrico, Maternidades Bissaya Barreto e Daniel de Matos e Hospital Sobral Cid), Hospital Arcebispo João Crisóstomo – Cantanhede e o Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais. É uma área de abrangência enorme e muito diversificada.

Quando ouvimos falar de um serviço de “humanização” na saúde, parece um conceito abstrato. O que se espera, na prática, de um serviço destes?
A humanização não é um conceito abstrato; ela concretiza-se em cada gesto de ternura, de cuidado, em cada atitude de empatia dos profissionais. Exige um compromisso pessoal. Concretiza-se quando estamos, porventura, sozinhos no gabinete com o doente, sem ninguém a ver. Hoje vivemos tempos difíceis no SNS, com escassez de profissionais e uma medicina muito técnica. A humanização surge na ULS Coimbra como uma necessidade estratégica: a excelência técnica tem de caminhar em paralelo com a excelência do cuidar.
A excelência técnica tem de caminhar em paralelo com a excelência do cuidar.
Sílvia Monteiro, Diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra
Muitas vezes associa-se o médico ao aluno de boas notas mas com pouca atenção ao outro. Foi essa falta de atenção que motivou a criação do serviço?
Não diria isso. Nas novas gerações há excelentes exemplos de humanismo. O que mudou foi a pressão assistencial. Os profissionais estão fisicamente exaustos e emocionalmente esgotados. Um profissional em burnout não consegue prestar cuidados humanizados. Por isso, o nosso foco são as pessoas. O serviço assenta em três pilares: cuidados centrados no doente, cuidar de quem cuida e a transformação da cultura organizacional.
Um profissional em burnout não consegue prestar cuidados humanizados.
Sílvia Monteiro, Diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra

Falou de cuidar dos profissionais. Como apoiam os médicos e enfermeiros, nomeadamente os mais jovens?
Lançámos em janeiro a Academia de Humanização, um programa pioneiro para médicos internos. O grupo de internos é o que apresenta maior risco de burnout. O programa tem três eixos: mentoria Humanizada, onde cada interno tem mentores de outras áreas para partilha segura, sem avaliação. Depois o projeto “Eutopos”, do grego “bom lugar”, que são grupos de partilha orientados por facilitadores — como o António Ferreira Silva que é jesuíta — onde há espaço para a escuta, partilha e interpretação de casos e realidades. Por fim, o terceiro ponto volta-se para as artes e Humanidades, com encontros mensais que exploram a medicina através da literatura, cinema e artes, para tornar os profissionais mais empáticos.
Há aqui uma linha do serviço de humanização também mais focado naturalmente no doente, mas também na família, nas pessoas que acompanham o doente? Que atenção é dada?
Sim, esse foi aliás um dos nossos primeiros projetos, como sabes com a pandemia houve restrições no sentido de mitigar as consequências, foi-se protelando esse conceito de maiores restrições ao longo do tempo e o serviço de humanização sentiu e discutiu este aspecto com o Conselho de Administração no sentido de reabrir as portas das suas unidades de internamento às famílias. Promovemos este reforço da cultura do acompanhamento dos familiares nos hospitais. Tenho de sublinhar que já existia um regulamento que previa o acompanhamento dos familiares e as visitas, e nós não inventámos nada de novo, o que fizemos foi reforçar esta cultura e trabalhámos diretamente com todos os enfermeiros gestores em pequenos grupos no sentido de perceber quais eram as principais barreiras que existem e que se prendem, com as condições estruturais do próprio edifício, particularmente do Hospital da Universidade de Coimbra.


Reforçámos a figura do acompanhante ou familiar de referência que no fundo é considerar este familiar como um parceiro fundamental na prestação dos cuidados humanizado. Esta figura é naturalmente escolhida pela pessoa que está internada. Pretendemos que essa pessoa assegure por um lado o acompanhamento do doente, por outro lado faça a ligação com a equipa de saúde, e que depois fará ligação com o restante núcleo familiar.
Devo dizer-te que nós tinhamos algum receio que houvesse uma afluência enorme de acompanhantes e como é que fazíamos se houvesse três acompanhantes ao mesmo tempo, no mesmo quarto… Infelizmente isso não se verificou e houve uma divulgação muito ampla, quer nos meios de comunicação locais quer até nacionais. Este é um problema que nós vivemos atualmente com as nossas famílias, que nem sempre têm disponibilidade para acompanhar os seus doentes, embora tivesse muitos benefícios para todos.
Promovemos este reforço da cultura do acompanhamento dos familiares nos hospitais.
Sílvia Monteiro, Diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra
Isso é o espelho de haver muita solidão, muitas pessoas sozinhas a estarem ao hospital?
Bom, o reflexo do nosso hospital e das pessoas que temos internadas é o reflexo da sociedade. E nós reconhecemos que há dificuldades sociais e económicas, as pessoas têm de trabalhar até tarde e se estão a trabalhar não conseguem obviamente ter disponibilidade para estar com os seus familiares.
Enfim, mas também todos nós reconhecemos que vivemos numa sociedade em que existe alguma indiferença e até algum descarte particularmente dos doentes idosos. Eu diria mesmo que muitos problemas que estão a ser importados à saúde são, na realidade, problemas sociais que todos nós temos de refletir, nomeadamente o envelhecimento da população ou a forma como lidamos com a própria morte, com o cuidado dos nossos.
Eu penso que tudo isso merece uma reflexão profunda enquanto sociedade. Isto não é só um problema médico, é um problema social e esse mesmo serviço social é também um dos pilares muito importantes para nós.
Aliás, estou de facto sempre a refletir com as equipas neste sentido de lhes pedir que a avaliação social de cada doente, particularmente de doentes internados, seja feita logo no momento da admissão, de forma que não haja depois a surpresa, no momento da alta do doente, que os familiares dizem que não o levam. Isto é a nossa prática habitual e sabemos que a resolução dos problemas sociais tem um impacto determinante na experiência do doente e das suas famílias no seu percurso, na nossa instituição e é um dos aspectos a que estamos a dar muita atenção.

Como mulher de fé e cardiologista, cuidando do coração dos outros, como é que essa realidade a ajuda a dirigir este serviço?
Ajuda-me muito. Enquanto mulher de fé, o meu modelo é Jesus Cristo. Procuro ver em cada doente o Seu rosto. A fé descentraliza-me de mim própria e leva-me a encarar a humanização como uma missão. Cheguei a este lugar uns meses após a morte do meu pai. Acompanhei o seu processo oncológico em casa até ao fim. Foi a fase mais difícil mas a mais edificante da minha vida. Ali, no quarto com ele, eu rezava para que Deus transformasse aquela dor em algo bom. Meses depois surgiu este convite. Acredito que foi uma proposta de Deus para mim. Encaro isto como uma missão de evangelização: levar consolo aos que sofrem.
A fé descentraliza-me de mim própria e leva-me a encarar a humanização como uma missão.
Sílvia Monteiro, Diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra

Para terminar, que mensagem gostaria de deixar neste Dia Mundial do Doente 2026?
Gostaria de dizer que cuidar da vida humana é uma missão que toca o sagrado, é uma missão muito exigente, porque de facto cada vida é única, e irrepetível, tem uma dignidade que é absolutamente inviolável e por isso a experiência de cuidar de cada pessoa doente é sempre única.
Não tratamos números ou casos clínicos; cuidamos de pessoas com rosto, história e família. Por isso considero que o cuidado é, sem dúvida, a grande experiência humanizadora, onde aprendemos o verdadeiro significado da vida e cumprimos a nossa missão. O grande desafio é colocar cada pessoa no centro e agir a favor do bem comum, porque acredito que o segredo da vida é amar e o segredo do amor é cuidar.
Cuidamos de pessoas com rosto, história e família.
Sílvia Monteiro, Diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra

