- Para nos pensarmos

Santos (im)populares?

SER PONTE
– Nuno Castela Canilho

Nuno Canilho - SER PONTE - Para nos pensarmos

Na chamada época dos Santos Populares, volta a nós uma pergunta que, de vez em quando, surge quando falamos de Escutismo e espiritualidade: porque continuamos a apresentar santos às crianças e aos jovens? Serão os santos impopulares num tempo em que tantos modelos são produzidos e consumidos à velocidade das redes sociais? Que sentido faz olhar para homens e mulheres que viveram há séculos e em contextos sociais – marcados historicamente – tão diferentes dos nossos?

A resposta é simples: porque nos santos os escuteiros não procuram nem heróis distantes, nem humanos perfeitos. A procura é de testemunhos de Humanidade.

Existe uma tendência para imaginar a santidade como algo reservado a pessoas extraordinárias, quase inacessíveis ao comum dos mortais. Mas a tradição cristã apresenta-nos uma realidade diferente. Os santos não são pessoas perfeitas; são homens e mulheres que procuraram viver plenamente. Pessoas que erraram, caíram, recomeçaram, duvidaram e cresceram. Pessoas que descobriram que a vida ganha sentido quando é colocada ao serviço de algo maior do que elas próprias. E é sempre esse algo maior – o que verdadeiramente mereceu o martírio – que importa realçar e fazer ver às crianças e jovens.

Por isso ocupam um lugar tão importante na proposta educativa do Escutismo Católico, enquanto modelos e exemplos de vida.

No Escutismo, a espiritualidade não se ensina apenas através de conceitos teológicos ou doutrinas. Apresenta-se, descobre-se na experiência, pelo testemunho e pela identificação. As crianças e os jovens precisam de referências concretas, de histórias capazes de mostrar que os valores que procuramos transmitir são possíveis de viver no quotidiano. Ontem, hoje e amanhã.

Os santos oferecem precisamente isso.

Apresentam-se como uma mensagem simples e direta e mostram-se com uma identificação com a criança e o jovem, procurando estabelecer uma ligação emocional com o testemunho de vida.

São Francisco de Assis ensina a simplicidade e o cuidado pela criação, é o protetor dos Lobitos e, como nós, vê a Natureza com os olhos do Amor. São Jorge mostra-nos a força de vontade e a coragem para exterminar medos, como nós vê as regras, a ordem e os valores nobre como um compromisso. E é o patrono de todos os escuteiros do planeta. São João Paulo II testemunha a coragem de dialogar com o mundo sem perder a identidade, como nós é amigo de todos e procura estabelecer relações empáticas. Jacinto e Francisca Marto foram crianças como nós, portuguesas dali de Fátima, simples, tal como o Beato Carlo Acutis, que é nosso contemporâneo e fala uma linguagem próxima dos jovens de hoje, demonstrando que a fé pode habitar também o universo digital. Ou ainda São Nuno de Santa Maria, também português, teimosinho, que nos recorda que a fidelidade ao que acreditamos deve ser sempre colocado ao serviço ao bem comum.

Nenhum deles é apresentado como um herói impoluto para ser copiado. O objetivo não é criar réplicas. O objetivo é inspirar percursos.

Talvez seja esta uma das maiores riquezas da pedagogia escutista. Em vez de propor uma espiritualidade desencarnada, apresenta uma espiritualidade vivida. Em vez de idealizar pessoas sem falhas, mostra homens e mulheres concretos que procuraram responder aos desafios do seu tempo com fé, coragem e generosidade.

Num mundo onde muitos jovens sentem dificuldade em encontrar sentido, propósito ou pertença, os santos recordam-nos que uma vida plenamente humana é possível. Não porque elimina as dificuldades, mas porque encontra nelas um caminho.

O Papa Francisco afirmou muitas vezes que a santidade é o rosto mais belo da Igreja. Talvez possamos acrescentar que ela é também um dos seus recursos pedagógicos mais eficazes. Porque educar não é apenas transmitir conhecimentos; é ajudar cada pessoa a descobrir quem pode ser.

No fundo, é isso que o Escutismo procura fazer.

Quando convidamos uma criança ou um jovem a conhecer a vida de um santo, não estamos a falar do passado. Estamos a abrir uma conversa sobre o futuro. Estamos a mostrar que a coragem, a justiça, a fraternidade, a esperança e o serviço não são ideias abstratas. Têm rosto. Têm história. Têm vida.

E continuam a ter.

Num movimento que pretende ajudar cada jovem a deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou, os santos permanecem companheiros de caminho particularmente valiosos. Não caminham à nossa frente para nos humilhar com a sua perfeição. Caminham ao nosso lado para nos recordar que a transformação pessoal é possível.

E que toda a verdadeira transformação do mundo começa sempre pela transformação de uma vida.

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