Por estes dias acontece o Festival BABELL, um evento promovido pela Fundação Livraria Lello, que aposta na literatura como motor de participação cívica, pensamento crítico e desenvolvimento do território. Decorre no Porto de 24 a 30 de Junho e, segundo os promotores da iniciativa, pretende ser o maior e o melhor evento literário em Portugal.
Concebido como um evento em espaço público, BABELL propõe transformar o Porto num ecossistema literário vivo, com iniciativas distribuídas por ruas, praças e equipamentos da cidade. O programa reunirá vários dos mais relevantes nomes da literatura e do pensamento contemporâneo, nacionais e internacionais, entre os quais Byung-Chul Han, uma das presenças mais relevantes do panorama filosófico internacional em Portugal, nos últimos anos. O filósofo estará presente na inauguração do “Jardim do Pensamento”, um novo espaço cultural junto ao Mosteiro de Leça do Balio, sede da Fundação Livraria Lello. A escolha do filósofo não é casual, porque toda a sua obra gira em torno da necessidade de recuperar a contemplação, a interioridade e a capacidade de reflexão num mundo dominado pela velocidade e pelo excesso de estímulos. O Jardim do Pensamento é um novo espaço público concebido para leitura, contemplação e reflexão. O projeto reúne duas figuras maiores da cultura portuguesa: Álvaro Siza Vieira, responsável pela arquitetura e por esculturas instaladas no jardim e Sidónio Pardal, responsável pelo desenho paisagístico. O próprio conceito da criação deste espaço parece dialogar diretamente com livros de Han, como “A Sociedade do Cansaço”, “A Sociedade da Transparência” ou “A Agonia de Eros”, que criticam a hiperatividade, a exposição permanente e a perda de espaços de silêncio. O festival apresenta a presença de Han como um gesto fundador, pois, segundo Han, antes de se ocupar um espaço, é preciso pensá-lo.
Byung-Chul Han raramente participa em eventos públicos de grande dimensão. É conhecido por evitar a exposição mediática e por conceder poucas entrevistas. Por isso, a sua presença física, no Porto, tem um significado especial para leitores e estudiosos da filosofia contemporânea. Além disso, o tema implícito da inauguração — criar um “Jardim do Pensamento” num tempo de aceleração digital — parece quase uma materialização das ideias centrais da sua obra. É difícil imaginar um convidado mais adequado para inaugurar um espaço concebido para desacelerar e refletir.
Poucos pensadores contemporâneos diagnosticaram com tanta precisão as patologias do nosso tempo: a aceleração permanente, a hiperconectividade, a pressão do desempenho, a erosão do silêncio e a transformação da vida humana numa sucessão infinita de estímulos. A presença do filósofo sul-coreano no festival BABELL ultrapassa, por isso, a dimensão de um simples evento literário. Ela assume um valor simbólico. O espaço que será inaugurado propõe-se como lugar de contemplação, leitura e reflexão. A obra de Han é, em larga medida, uma defesa apaixonada dessas mesmas experiências contra aquilo que descreve como a lógica dominante da sociedade digital.
Desde a publicação de *A Sociedade do Cansaço*, em 2010, Han tornou-se uma das vozes mais influentes da filosofia europeia. O seu diagnóstico é conhecido: as sociedades contemporâneas deixaram de funcionar sobretudo através da disciplina e da proibição. Hoje o poder apresenta-se sob a forma da liberdade. O indivíduo explora-se a si próprio, convencido de que se está a realizar. A exigência de produtividade deixou de vir de fora e passou a ser interiorizada. O resultado é uma epidemia de esgotamento, ansiedade e depressão.
Em livros como “Psicopolítica”, “A Sociedade da Transparência” ou “Não-Coisas”, Han argumenta que a digitalização não está apenas a mudar os instrumentos que utilizamos; está a alterar profundamente a forma como percebemos o mundo, os outros e a nós próprios. A informação multiplica-se, mas a experiência empobrece. A comunicação acelera-se, mas a escuta desaparece. A conexão torna-se permanente, mas a comunidade enfraquece.
É precisamente aqui que a visita de Han ao Porto ganha uma ressonância inesperada com um dos documentos mais lidos dos últimos tempos, a encíclica “Magnifica Humanitas”, publicada pelo Papa Leão XIV. Na sua primeira encíclica, o pontífice aborda os desafios da inteligência artificial e da revolução digital, defendendo que o progresso tecnológico deve permanecer ao serviço da dignidade humana e do bem comum. O documento alerta contra a tentação de reduzir a pessoa a dados, algoritmos ou padrões previsíveis de comportamento e insiste na necessidade de preservar aquilo que torna o ser humano irredutível à máquina.
As diferenças entre um filósofo agnóstico de formação alemã e um papa católico são evidentes. No entanto, ambos parecem convergir num ponto fundamental: a crise contemporânea não é apenas tecnológica. É antropológica. A questão decisiva não é o que as máquinas conseguem fazer, mas o que acontece ao ser humano quando passa a compreender-se a si próprio segundo a lógica das máquinas.
A encíclica fala da necessidade de proteger uma “magnífica humanidade” perante os riscos da automatização e do domínio tecnológico. Han, por sua vez, denuncia a incapacidade crescente de parar, de esperar, de escutar e de habitar o silêncio. Em ambos os casos, a preocupação central é semelhante: preservar espaços onde a experiência humana não seja reduzida à eficiência, ao cálculo ou ao desempenho.
Há mesmo uma coincidência simbólica particularmente sugestiva. Leão XIV utiliza a imagem bíblica de Babel para advertir contra a construção de uma nova torre tecnológica que pretenda substituir a sabedoria pela potência técnica. A própria designação do festival BABELL parece dialogar involuntariamente com essa metáfora. Babel pode ser entendida como lugar de confusão e dispersão, mas também como espaço de encontro entre línguas, culturas e visões do mundo. A questão é saber que tipo de humanidade emerge desse encontro.

