Em parceria com a Comissão Diocesana da Pastoral do Turismo e Oficina Museu Monsenhor Nunes Pereira
REPORTAGEM
Três formas de olhar o Calvário

Quando entramos numa igreja encontramos muitas vezes nas paredes uns quadradinhos colocados em paralelo, uns aos outros, noutras uma pequenas cruzes ou até uns quadros maiores. Os mais distraídos ou desconhecedores nem observam. Aqui, neste passo do roteiro pela arte de Monsenhor Nunes Pereira destacamos essas peças.
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) destaca a Via-Sacra como um exercício fundamental da oração cristã. A devoção consiste em percorrer espiritualmente o caminho de Jesus desde o Pretório de Pilatos até ao Calvário, ajudando os fiéis a seguirem os passos do Salvador e a meditarem nos mistérios da Sua Paixão.
Nesta etapa do roteiro seguimos a estrada da Beira e vamos até à Lousã, Ponte de Sótão e Miranda do Corvo, na diocese de Coimbra.

Bem no centro histórico da vila, mostra-se o adro e a escadaria da Igreja Matriz da Lousã. Imponente. O calor apertava e o Correio de Coimbra depressa entrou no espaço. O interior, bem mais fresco, recebe o visitante com um painel de azulejos, à esquerda, num ambiente de espaço de acolhimento.
Passa-se a porta e a igreja espanta quem chega. As grandes dimensões, as linhas modernas e atrativas. O seu interior amplo, fortemente decorado com motivos religiosos, tem o seu destaque no altar em talha dourada. O orago é S. Silvestre, colocado numa pequena capela lateral, passa quase despercebido. Apesar de datar de 1882, a igreja foi terminada apenas em 1921, com a construção da Torre Sineira.
O ambiente convida imediatamente ao silêncio, à oração. Um olhar atento e contemplativo leva a olhar o alto das paredes laterais onde se encontra a Via Sacra de Nunes Pereira, da década de 80, pequenas xilogravuras que recordam as 14 estações.


Naquele local, as estações da Via Sacra coabitam com a imponência do seu altar-trono, uma peça de grande relevo litúrgico e arquitetónico que domina a capela-mor. Enquanto o altar-trono eleva o olhar para a glória e para a solenidade tradicional, as xilogravuras de Nunes Pereira puxam-nos para a terra, para a nudez e para a verdade humana do sacrifício.
O que mais impressiona são as feições das personagens, fiel à sua própria raiz, Nunes Pereira não esculpe santos idealizados ou anémicos. Os apóstolos, os soldados e o próprio Simão de Cirene têm rostos densos, angulares e mãos robustas, que parecem cansadas do trabalho da terra.

Através de um relevo geométrico e moderno, o Monsenhor trabalhou a madeira criando catorze estações onde o forte contraste entre as superfícies e as linhas escavadas gera um jogo de luz e sombra digno de ser apreciado. Cada estação, uma imagem esculpida de forma diferente, um convite à meditação.



Deixamos o silêncio da Igreja Matriz da Lousã, que cheirava a flores, para seguirmos e visitar um pequeno apontamento no lugar de Ponte de Sótão, em Góis. Uma igreja pensada pelo padre-artista que veremos, mais à frente, noutra edição. Aqui, o olhar prende-se nas paredes.
Ao nível dos olhos, destacam-se nas paredes brancas, os “tais quadrados” da Via Sacra, aqui, em ferro. O ferro evoca os pregos da cruz, a têmpera, o fogo e a força — elementos que ligam de forma perfeita ao imaginário rústico daquela zona serrana.

A escolha deste material não é meramente decorativa, pode-se dizer que há um simbolismo maior, talvez até teológico. O ferro remete-nos para os cravos da crucificação, com um traço estilizado e vigoroso, o artista conseguiu que a rigidez do metal transmitisse a dor e a leveza do espírito.
As peças, integradas na arquitetura da igreja, dialogam de forma crua com a luz, provando que para o “sacerdote-artesão” não havia matéria que não pudesse ser evangelizada através do fogo e do engenho.

A D. Adélia, responsável por nos mostrar “o tesouro de ponte do Sótão”, aponta as Vias Sacras com orgulho, e partilha que olha para elas e reza por todos,” pelos sofrimentos e dores de tantos”.
“Venho aqui à igreja três vezes por dia, peço pelos que aqui passaram e já não estão cá, e depois peço pelos males deste mundo, tanta guerra que vemos todos os dias”, lamenta.

Ao contrário das Vias Sacras tradicionais que terminavam no sepultamento de Jesus (14ª estação), o Monsenhor sugeria o passo seguinte: a Ressurreição, para ele, o caminho da cruz não era um beco sem saída, mas uma passagem para a Luz.
As horas vão passando e esta reportagem ainda tem o objetivo de ver o pôr do sol noutras paragens… O carro para em Miranda do Corvo, junto à placa que diz Igreja Matriz. A subida é íngreme e fazemos a pé para, depois, nos supreendermos com uma nova Via Sacra.

Em pleno contacto com a natureza encontramos um dos conjuntos artísticos mais singulares do sacerdote-artista: a sua Via Sacra ao ar livre. O tradicional conceito de estações confinadas às paredes de uma igreja passa aqui para ser um caminho de esforço físico, de contemplação da paisagem e meditação junto dos painéis coloridos.


O Monsenhor projetou para Miranda do Corvo, na década de 60, um autêntico caminho de peregrinação que se funde com a paisagem, cada estação é uma paragem obrigatória onde a dureza dos materiais e o traço vincado, quase operário, das esculturas ganham uma nova vida sob a luz natural.
As estações ganham outros nomes, designados pelo autor, tais como “descendimento, desnudação ou sepultura”. Devidamente assinada cada estação, numa pequena placa consta a designação e o autor, e, ao lado, a mesma informação em braille.


O silêncio do espaço, que convida à meditação, é envolvido pelo verde vivo da época e pela dureza da vila do concelho de Coimbra. As figuras geométricas e robustas com que Nunes Pereira desenhou o sofrimento de Cristo parecem emergir da própria terra, lembrando a ligação profunda que o artista manteve com as matérias mais puras do nosso território.

Um novo passo no roteiro pela arte de Monsenhor Nunes Pereira, uma sugestão para passeio e contemplação, para silêncio e oração, aproveitando os dias mais longos do ano, sozinho ou em família, pela diocese de Coimbra.
APONTAMENTO GASTRONÓMICO
Lousã e Miranda do Corvo
Entre manchas de soutos e encostas de urze, os municípios da Lousã e de Miranda do Corvo fazem da serra a sua identidade.
Aqui, a cabra domina. Quer seja na chanfana, da qual Miranda se assume como berço da iguaria, quer seja no cabrito, qualquer preparado à base desta carne é de consumo obrigatório. Para os mais arrojados, os negalhos são incontornáveis, bucho caprino recheado de fressuras e cozido em vinho tinto.
Do vinho, parte do município do Miranda integra-se na sub-região vitivinícola Terras de Sicó. Na Lousã, é junto aos rios Arouce e Ceira que a Quinta de Foz de Arouce mantém a sua improvável produção regional.
A castanha permanece, ainda, um dos frutos mais reconhecidos destes territórios, apesar da diminuição significativa da área de soutos. No entanto, a serra dá outro doce fruto, o mel da Serra da Lousã, qualificado com Denominação de Origem Protegida desde 1996. Um mel complexo, à base de urze e castanheiro, de grande viscosidade, com uma cor negra muito singular e um sabor forte, intenso, reflexo do desafiante ambiente serrano que lhe dá origem.
Por fim, um digestivo, “o licor de Portugal”. Conhecido desde 1929 por Licor Beirão, pode ser hoje saboreado na receita mais tradicional, na versão mais requintada do “Beirão d’Honra” ou, para os mais modernos, num fresco “Caipirão”.
João Pedro Gomes

