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- UP Coração de Sicó

Fé, tradição e memória juntaram duas centenas de pessoas na romagem à Senhora da Orada

Tradição no Dia da Espiga

Foto: UP Coração de Sicó

O Dia da Espiga, celebrado na Quinta-Feira da Ascensão, continua a ser uma das tradições mais marcantes e sentidas de Santiago da Guarda, unindo a dimensão religiosa à vertente popular e comunitária desta data tão especial no concelho de Ansião.

Assinalado no dia 14 de maio de 2026, feriado municipal em Ansião, este dia é tradicionalmente conhecido como Dia da Espiga, Quinta-Feira da Ascensão e também Dia das Merendas. A celebração possui uma forte componente cristã, evocando a Ascensão de Jesus Cristo aos céus, quarenta dias após a sua ressurreição. Mas mantém igualmente uma dimensão lúdica e pagã, profundamente ligada aos ciclos da natureza, às colheitas e às antigas tradições rurais.

Em Santiago da Guarda, a data voltou a ser vivida com a tradicional romagem entre a atual Igreja Matriz e a Capela de Nossa Senhora da Orada, situada na Granja, antigo território de Façalamim, antiga freguesia medieval extinta em 1850. Segundo a tradição local e referências históricas, acredita-se que esta capela tenha sido a primitiva Igreja Matriz de Santiago da Guarda, localizada junto ao antigo caminho em direção a Santiago de Compostela.

A caminhada entre os dois templos representa um momento de fé, reflexão e contemplação da paisagem rural envolvente — campos outrora extensamente cultivados e que durante séculos sustentaram as populações locais. É também um gesto simbólico de agradecimento pelas colheitas e pela abundância da terra.

Associado a esta tradição está o costume do “apanhar da espiga”. O ramo da espiga, composto por várias plantas e flores silvestres, possui um forte simbolismo popular. Habitualmente inclui espigas de trigo, papoilas, malmequeres, oliveira e videira, representando prosperidade, pão, paz, azeite, vinho e abundância. Muitas pessoas levam consigo o ramo durante a romagem até à Capela da Senhora da Orada.

Segundo a tradição, o ramo deve ser guardado em casa durante todo o ano, sendo apenas substituído na Quinta-Feira da Ascensão seguinte, como símbolo de sorte, proteção e prosperidade para o lar. Os mais antigos dizem ainda que, em dias de trovoada, devem ser queimados alguns ramos da espiga para afastar os raios e os trovões.

Após a chegada à Capela da Senhora da Orada, foi celebrada uma missa campal evocando a Ascensão de Jesus Cristo aos céus, num ambiente de recolhimento e devoção. Seguiu-se depois o tradicional lanche comunitário ao ar livre, perpetuando o espírito do chamado Dia das Merendas — momento de convívio, partilha e reencontro entre famílias, vizinhos e amigos.

O lanche foi organizado pelos vizinhos e zeladores da capela, mantendo viva uma tradição assente na entreajuda e na generosidade da comunidade. Tudo é oferecido gratuitamente, sendo o contributo voluntário de cada pessoa aquilo que permite garantir a continuidade desta celebração ano após ano.

Com a participação de cerca de duas centenas de pessoas, a romagem voltou a demonstrar a vitalidade desta tradição secular. Entre a fé, a memória, os campos, o ramo da espiga e o convívio comunitário, o Dia da Espiga continua assim a afirmar-se como uma expressão profunda da identidade e da herança cultural de Santiago da Guarda.

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