António Cabral de Oliveira

António Cabral de Oliveira - Para nos pensaremos

1Concordo, por inteiro, com o Bispo das Forças Armadas quando defende um serviço militar obrigatório, cito, que ajude as novas gerações a ganharem alguns valores e um certo patriotismo, mas também, acrescento eu – não, evidentemente, nos moldes que alguns de nós ainda recordamos –, para termos concreta noção sobre o indispensável, se necessário, melhor podermos enfrentar agressões externas. E continuo sem perceber (eram bem escusados aqueles comentários de caserna que se ouviram de algumas antigas altas patentes com comparações a escuteiros) o alcance efetivo do voluntariado militar de três a seis semanas…com oferta de carta de condução!

2Andam mosquitos por cordas – em forças oposicionistas e na administração da instituição – na sequência da aprovação governamental de isenção da necessidade do visto do Tribunal de Contas para contratos públicos até 10 milhões de euros, mudança que, a ser aprovada em sede da Assembleia da República, será implementada de forma responsável e gradual, permitindo eliminar o controlo prévio em mais de 90% dos processos. Se calhar, à responsabilização dos gestores nas suas opções, preferem, neste país que não sai da cepa torta, a continuação da indecisão, do imobilismo, do arrastamento…

3O modelo de governação das instituições de ensino superior vai sofrer profunda alteração com a aprovação do seu novo regimento jurídico, onde o reitor (designação única também para os politécnicos) deixa de ser nomeado pelo restrito Conselho Geral, para passar a ser eleito, antes, por voto direto de toda a comunidade académica, incluindo, em percentagens naturalmente diversas, professores e investigadores, pessoal não docente, alunos e antigos estudantes. Eis, enfim, a democratização, que tanto tardava, da administração universitária…

4Ademais o vergonhoso comportamento que temos para com os nossos anciãos, agravam- se, também (e já nem falamos de violência sexual), as agressões aos mais novos – a APAV sublinha um aumento expressivo das situações de malvadez contra crianças e jovens –, sobretudo cometidas, inimaginável, no âmbito familiar. É verdade que vivemos oprimidos por dificuldades evidentes, que o dia a dia não está fácil a quase ninguém, mas um pouco menos de egoísmo pessoal, e como ele campeia por aí, para melhor percebermos as fragilidades dos mais débeis, não nos faria mal nenhum.

5O número de execuções por pena de morte foi, em 2025, tão lamentável, o mais alto dos últimos 45 anos, ultrapassando, de acordo com a Amnistia Internacional, as 2.700 pessoas. Sem contabilizar os milhares de cidadãos que terão sido liquidados na impenetrável China – o país que mais aplica a punição radical em todo o mundo –, verifica-se um crescimento de 78% em relação aos números anteriores, com fortes contributos do Irão, Coreia do Norte e do Vietname, também, mostrando valores alarmantes, dos Estados Unidos da América e da Arábia Saudita. Na certeza, de algum modo consoladora, de que os países que ainda a implementam são, cada vez mais, exceções, sabe-se que as penas capitais registadas o foram por crimes relacionados com drogas e, como não, por motivações políticas.

6Depois de (por evidente receio de um ataque ucraniano, que o levou até a decretar  uma trégua de três dias) se ver obrigado a um desfile do Dia da Vitória em formato mínimo – sem os habituais e pesados meios técnicos militares como tanques, mísseis, e sobrevoo de aviões de combate, substituídos por imagens projetadas em ecrãs gigantes – , Putin, mesmo constrangido a celebrar mais discretamente a supremacia da união soviética sobre a Alemanha nazi, reiteraria, ainda assim, em discurso também breve, confiança numa vitória russa na guerra contra Kiev. Enquanto regressava, com acrescida violência, à selvática invasão da Ucrânia.

7Na sequência do notável discurso do primeiro-ministro canadiano no Fórum Económico Mundial, em Davos, onde Mark Carney denunciava  o fim da ordem mundial do século XX, com o predomínio das grandes potências, contra o qual as médias nações, designadamente as europeias e o Canadá, se devem unir, recusando subordinações, antes construindo autonomias estratégicas em parcerias diversificadas ,agora, Carlos III, rei dos britânicos, ao falar perante as duas câmaras do Congresso norte-americano, defendeu, em subtil mas excelente intervenção, com recados políticos diretos a Trump, e perante generalizados aplausos, a resiliência democrática, o multipartidarismo, ainda o apoio à Ucrânia. Afinal, nem tudo parece estar perdido em terras do Ocidente!

8Em eleições que evidenciaram, uma vez mais, o fim do tradicional bipartidarismo inglês, os Trabalhistas, no poder, sofreram pesada derrota nas recentes autárquicas – com a vitória do radical de direita e populista Nigel Farage –, delas resultando imensas pressões internas para mudança da chefia governamental, mas com o primeiro-ministro Keir Starmer a recusar, contudo, ainda, o pedido de demissão. Paralelamente, nas parlamentares daquelas nações, num Reino Unido cada vez mais desagregado, os independentistas de esquerda ganharam no País de Gales, enquanto, na Escócia, o Partido Nacional, outra força secessionista de esquerda, mantém, absoluta, a liderança.

9Tentar avaliar resultados da recente visita do Presidente dos Estados Unidos à China, quando confrontados com a desregulação emocional de Trump e a indesvendável opacidade de Xi, é tarefa de análise quase impossível. A parte dos negócios terá sido abastadamente contratualizada nos interesses de ambas as partes; na cooperação política para a ultrapassagem do problema estratégico do Irão (e da livre circulação marítima pelo Estreito de Ormuz) ter-se-á avançado insuficientemente; quanto à intrincada questão de Taiwan, sobraram as  ameaças de Pequim para sublinhar que se ela for mal gerida por parte dos EUA, os dois países, agora tão ‘complacentes’ – o novo líder do império do meio foi convidado a visitar a Casa Branca no próximo outono – , irão confrontar-se, podendo mesmo, acrescenta-se, entrar em conflito.

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